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Jornalismo e literatura: assim nasceu o Jornalirismo

Eu Sem Fronteiras
Escrito por Eu Sem Fronteiras

A vida com poesia parece ter mais cor, mais sentido. Conversamos com o publicitário e jornalista Guilherme Azevedo que nos conta a sua história pelo mundo da poesia. Confira a entrevista:

Eu sem Fronteiras: Me fale um pouco de você, onde nasceu, formação, onde mora.

Guilherme Azevedo: Eu nasci em São Paulo no dia 1º de fevereiro de 1971, estou com 45 anos. Sou filho de pais publicitários, Arlette e Juvenal. Praticamente cresci dentro de agência de propaganda, um universo bem encantador; os amigos, sobretudo do meu pai, eram caras incríveis, divertidos, inteligentes. Aprendi a sorrir com os publicitários e sou fã de muitos deles. Apesar da paixão tantas vezes negada pela propaganda, acho que me dou melhor mesmo no jornalismo. Fiz faculdade de jornalismo, na Cásper Líbero, em São Paulo, e estudei letras (português), na USP. Vinte anos depois voltei à Cásper e, em 2014, concluí meu mestrado em comunicação, estudando uma paixão antiga: a obra do jornalista Marcos Faerman, símbolo da melhor reportagem literária já feita no Brasil. Foi uma experiência e tanto. Sempre morei em São Paulo e, de uns tempos para cá, tem batido uma vontade forte de passar uma temporada fora daqui.

ESF: Como surgiu o Jornalirismo?

Guilherme Azevedo: Comecei no jornalismo em 1996, como estagiário do jornal “Folha de S.Paulo”. Estar então num dos maiores jornais do país era um sonho de qualquer estudante de jornalismo e o meu também. A descoberta do jornalismo transformado em indústria, com certos direcionamentos editoriais, com restrições de texto, foi algo muito frustrante. A gente não conseguia viver a aventura e a paixão da profissão. O Jornalirismo surgiu como uma forma de livre expressão, de experimentação de linguagens e pontos de vista, como exercício de um jornalismo mais autônomo. Oficialmente, a gente considera a data de lançamento do Jornalirismo o dia 23 de janeiro de 2007. Somos beneficiários diretos da revolução digital, com o advento e a consolidação da internet. Um meio mais livre, que permitiu a um grupo de idealistas dar seu recado para o mundo com custos relativamente baixos. O Jornalirismo é essa combinação proposital e absolutamente necessária de jornalismo e literatura, de reportagem e confissão, de encontros presenciais que pressupõem uma comunidade de destino entre todos nós. Somos todos parte do mesmo caminho.

ESF: Por que unir jornalismo e poesia?

Guilherme Azevedo: Unir jornalismo e poesia é decisivo para a própria qualidade da narrativa e da informação. O jornalismo nunca foi o lugar da objetividade do tipo positivista, como se fosse possível e necessária à existência de sujeito e objeto, essa separação que falsifica e desinforma. Uma atitude poética diante do mundo significa uma abertura generosa para ele, para as pessoas com quem nos relacionamos, na busca de identificações e diálogos, uma procura por compreensão. O olhar poético significa buscar a beleza que existe no mundo, mesmo em lugares hediondos, onde falta praticamente tudo ao ser humano. O ser humano é um ser feito de beleza e não pode viver sem beleza, sem poesia. O olhar, a atitude poética é também um modo de luta, de intervenção na sociedade, porque arrisca a ver e a reconhecer a grandeza de gente relegada à margem, para a qual é negada até mesmo ver a beleza que a sua própria história tem. A poesia reconhece que a poesia está em todos e não apenas em um grupo pseudoeleito pelos deuses ou pelos capitais. O jornalismo exercido poeticamente, generoso, feito de belas palavras, de envolvimento fundo com os protagonistas das histórias, comunica melhor, porque mostra a complexidade, a beleza que há na vida. Não simplifica, nem mutila.

ESF: Cada vez mais há pessoas que dão importância para histórias bem contadas, relatos interessantes e o Jornalirismo tem feito isso. Como avalia?

Guilherme Azevedo: Acho que existe certo cansaço com o excesso de fracionamento da notícia, da narrativa. A gente lê, lê, lê notícia e se sente desinformado. Parece que fica sempre um tanto por contar, por dizer. Acho que não temos tido a capacidade de ver as relações entre as coisas, entre os acontecimentos, e isso é terrível, porque tudo está sempre inter-relacionado. Então, o jornalismo de hoje me parece muitas vezes nem sequer relar no que é importante. Acho que as histórias contadas com um pouco mais devagar, de reflexão, de encontros genuínos e plenos, geralmente feitos longe da redação, têm esse poder de informar melhor, ou de nos fazer intuir alguma coisa nova, um pensamento. Eu sempre acreditei no jornalismo clássico, aquele vai ao local das coisas, conversa com as pessoas, reflete, pesquisa, pesquisa, pesquisa e então escreve. No Jornalirismo a gente tem procurado fazer isso, mas falha muitas vezes porque não tem recursos. Fica às vezes sem dar a devida continuidade. É uma dificuldade de jornais independentes de modo geral, a de se financiar. Uma questão que ainda não se fechou e sinceramente não sei bem o que fazer. De qualquer modo, as histórias bem contadas, capazes de estabelecer relações e estimular diálogos e debates, são muito melhores para todos nós, ajudam muito na formação de opinião e alimentam o debate público.

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ESF:
Neste momento em que o jornalismo se reinventa, como é o papel de veículos como o Jornalirismo?

Guilherme Azevedo: É engraçado, mas parece que estamos de volta à imprensa nanica, conforme a expressão do jornalista e escritor João Antônio, de quem sou muito fã. A imprensa nanica foi o conjunto de jornais alternativos que lutou e buscou driblar a censura durante a ditadura militar (1964-1985) no Brasil. Jornais, como o “Ex-”, o “Versus”, “O Pasquim”. Acho que o Jornalirismo e tantos outros pequenos jornais do início da era digital herdaram esse espírito subversivo, libertário e idealista. O contexto é um pouco diferente daquele de décadas atrás, mas as pressões não são menores. Não conseguimos nos financiar de modo geral. Confesso que me faltou humildade para pedir contribuições de leitores, abrir uma campanha de financiamento coletivo ou coisa do gênero. Como poetas, idealistas, creio que também nos faltou uma dose de capacidade administrativa e gerencial, com estratégias de vendas. Acho que a nova geração tem menos dificuldade de cobrar do que a minha, muito anticapitalista e burra. Excesso de purismo também faz mal. De todo modo, à imprensa nanica de hoje cabe experimentações de forma e conteúdo, mas de forma absolutamente profissional e benfeita. Acabou a era da internet feita por amadores. É preciso fazer muito benfeito e inovar também na forma de divulgar. Ser lido hoje é que é a questão. Como aparecer.

ESF: Recentemente o Jornalirismo lançou uma coletânea de livros com diversos autores. Como foi essa experiência?

Guilherme Azevedo: O livro se chama “O mundo é mais bonito pelo olho da poesia” (Editora Jornalirismo, 2016). Com 82 autores e 552 páginas. Um trabalho de fôlego. Reúne uma espécie de melhores conteúdos publicados no Jornalirismo ao longo dos sete primeiros anos de vida (2007-2014). Um trabalho que levou mais de um ano. Valeu muito a pena, na minha opinião o livro ficou lindo e representa um pouco o modo como olhamos o mundo poeticamente ao longo desses anos. Tem reportagem, tem poesia, conto, crônica, ensaio fotográfico, só gente boa. Queria documentar um pouco da nossa história, guardando tudo num tijolinho de celulose, esse papel gostoso de pegar e de cheirar. Essa sensação tátil a internet, nem um aparelhinho digital conseguiu ainda reproduzir ou melhorar. O papel continua sendo um lugarzinho bom de a gente guardar nossas inquietações e descobertas.

ESF: Há muitos autores com bons textos engavetados e o Jornalirismo contribui para que estes autores tenham espaço na rede. Como é a sua relação com estes autores?

Guilherme Azevedo: Acho que a relação com os autores deveria ser aprofundada de alguma forma. Gostaria de haver mais proximidade. Os encontros presenciais que organizamos, com debates presenciais com entrada gratuita, “Jornalirismo Debate” e “Entrevista Aberta”, cumpriram bem o papel de nos colocar autores e, sobretudo leitores em contato. Foram experiências de encontros muito produtivos, fizeram a diferença ao longo da história. Tenho vontade de reeditar esses eventos presenciais, vamos ver se consigo. Às vezes a gente cansa um pouco, aquela velha pressão para pagar contas. Hoje, a relação com os autores do Jornalirismo acaba se resumindo a contatos por e-mail, telefone ou mesmo pelo Facebook. Alguns autores são inclusive de fora de São Paulo e nunca tive um contato direto. Acho que a experiência de relacionamento na internet, nas redes sociais, nunca substituirá o contato presencial, tão essencial, tão rico, tão mais verdadeiro.

ESF: Em dias corridos, cansativos, muitas pessoas chegam em casa e esperam tomar um banho e ler um livro. Por que, a seu ver, este hábito transforma positivamente a vida das pessoas?

Guilherme Azevedo: A literatura alarga o nosso horizonte. Conhecemos gente interessante, visitamos lugares desconhecidos e oníricos, imaginamos outros mundos, outras formas de vida. A literatura nos desperta sentimentos de compaixão, de amor, de solidariedade e também de fúria. A literatura nos faz viver, de certo modo nos inicia em muitos assuntos. A literatura é também uma forma de conhecimento prático. O relato de uma viagem nos ensina como é aquele lugar, as pessoas de lá, o modo como se comportam. É um modo de aprendizagem. Sentar e ler um livro em silêncio é uma forma de resistir à balbúrdia do mundo, uma forma de nos organizarmos mentalmente, de nos prepararmos para a vida. É uma dose necessária de reflexão lenta, profunda. Além também de ser uma forma muito gostosa de divertir, de chorar e de rir. A literatura ajuda a confirmar na gente certos traços que nos caracterizam como humanos, a capacidade de tolerar, de amar, de rir de si mesmos. A gente não pode viver nem um dia sequer sem literatura. A privação de literatura é a privação de um direito básico como a moradia e o alimento, como já apontou o crítico literário Antonio Candido.

ESF: Deixa uma mensagem

Guilherme Azevedo: É importante viver com verdade. Seguir em busca da verdade, da sua verdade mais íntima. É preciso servir o mundo, ajudar o mundo a ser melhor. É preciso melhorar a si mesmo. Seja qual for a sua profissão, você tem um trabalho a fazer, uma contribuição importante a dar. Seja poeta, seja generoso, seja compreensivo, peça perdão quando errar. A poesia melhora a vida.


  • Entrevista realizada por Angelica Weise da Equipe Eu Sem Fronteiras.

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