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Conheça o jornalista e agitador cultural Ben- Hur Demeneck

Eu Sem Fronteiras
Escrito por Eu Sem Fronteiras

Ben-Hur Demeneck é jornalista e um agitador cultural. Faz doutorado em Ciências da Comunicação na ECA-USP sob orientação de Eugênio Bucci, depois de ter passado pelo mestrado em jornalismo da UFSC e pela graduação em Jornalismo na UEPG.

Cronista, Demeneck lançou ano passado o livro “PG de A a Z e outras crônicas” (Todapalavra Editora, 2013), parte dela baseada em sua atuação como cronista semanal. A obra foi destaque da Flicampos 2013 e usa o mais brasileiro dos gêneros literários para apresentar a cidade para seus próprios habitantes e visitantes.

Colaborador eventual do jornal Cândido, da revista Helena, do portal Overmundo, do  Observatório da Imprensa, além da imprensa regional do Paraná, Ben-Hur Demeneck considera ter vivido uma transição geracional, passando de uma formação em jornalismo mais romântica para uma perspectiva mais pragmática.

Acervo pessoal

Pesquisador em jornalismo premiado com o Prêmio Adelmo Genro Filho (SBPJor, 2010) e ficcionista que recebeu menção honrosa na 22º edição do Prêmio Nacional de Contos Paulo Leminski (PR).

No campo cultural, é coordenador do “31 pelo 15”, movimento de reparação simbólico relativa à ditadura militar, também escreveu dezenas sobre cultura, parte significativa voltada a acervos públicos de livro. Na USP, é representante discente na Comissão de Bibliotecas. Ligado ao mundo dos livros e da edição independente de jornais, ele foi um dos delegados do Paraná na II Conferência Nacional de Cultura.

 

Eu Sem Fronteiras: Ben-Hur, eu gostaria que você me falasse um pouco da sua trajetória profissional até o momento e também de sua trajetória como estudante, e no mundo da pesquisa.

Ben-Hur Demeneck: Minha vida de estudante de jornalismo foi marcada por uma transição de uma visão romântica da profissão para uma perspectiva pragmática. Como uma boa universidade de interior, a UEPG do início dos anos 2000 compensava a falta de laboratórios e de bibliografia específica em Jornalismo com pessoas que devoravam livros, jornais e filmes. Quem não virou repórter ou editor, acabou artista ou publicitário. Poucos quiseram buscar outra formação ou virar bancário. Aquela pedagogia incluía representar “Hamlet” para treinar o olhar fotojornalístico, por exemplo. Nessa base, a gente se sentia à vontade para ter iniciativas como montar um jornal comunitário voltado para dependentes químicos e esquizofrênicos ou organizar um concurso de fanzines que provocasse leitores e concorrentes (casos do “Diálogo Franco” e do “Bugio de Ouro”, respectivamente). O cenário underground influenciava os formadores de opinião e revelou figuras como o cartunista Benett e, muito antes, Sérgio Bianchi. Ainda falando da transição geracional, que envolve currículos, diretrizes de ministérios, decisões de juiz cancelando diploma, mudanças de presidentes, juntem-se a esse cenário os festivais de teatro e de música, reuniões de DCEs e edições do Fórum Social Mundial. E, concomitantemente, ter de pegar à unha o touro da cibercultura com os já extintos “browserNetscape, os “downloads” via Napster, a comunicação instantânea do ICQ, o buscador Altavista e outros fósseis. Esse ambiente me levou a encarar o jornalismo não só como profissão, mas como objeto de pesquisa e existência. Foi o que me direcionou ao mestrado em Jornalismo da UFSC e, hoje, ao doutorado em Ciências da Comunicação pela ECA-USP enquanto cultivava a prática da literatura e do jornalismo.

ESF: O que você acha dos jornalistas que estão trabalhando de forma independente, ou aqueles que estão criando formas colaborativas para expandir seu trabalho?

BD: O lobo da estepe deixou de ser a grande figura do jornalismo de profundidade. Em vez daquele agente solitário em busca de reportagens especiais, apareceram modelos que valorizam a colaboração. A tecnologia passou a ser usada para combinar dados e diminuir distâncias de redes alternativas de jornalismo investigativo. Eu fico entusiasmado por poder acompanhar de perto mudanças estruturais no campo do jornalismo. Em 2012, a Universidade de Columbia, publicou um dossiê dedicado à era do “jornalismo pós-industrial”. O nome dos pesquisadores, para os mais interessados, é C.W. Anderson, Emily Bell e Clay Shirky. Minha pesquisa de doutorado aborda parte desse processo pela metodologia da “reportagem transnacional”, relacionado à abordagem de um problema por pelo menos jornalistas de dois diferentes países. Um desses exemplos foi publicado na Gazeta do Povo na série “Império das Cinzas”, publicada no final de março, que é sobre contrabando de cigarros . No Brasil, quem encabeçou o trabalho foi o repórter Mauri König. Enquanto profetas pregavam do fim do jornalismo, por volta de 2008, quando uma massa de repórteres especiais e editores premiados foram demitidos nos EUA, ocorreu algo inusitado.

Esse pessoal migrou para organizações sem fins lucrativos e organizações independentes e formaram quadros que permitiram uma fase de ouro do jornalismo investigativo. Por isso que hoje se fala em transparência em vez da objetividade, em “ética hacker”, e assistimos a Julian Assange e a Edward Snowden assustarem a ordem estabelecida. Vale à pena conhecer de perto o trabalho de redes como a ICJI [International Consortium of Investigative Journalists], a GIJN [Global Investigative Journalism Conference], e prêmios como o Daniel Pearl. No Brasil, é interessante ficar de olho nos congressos da Abraji [Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo], nas reportagens e microbolsas da Agência Pública. Jornalistas não precisam entender apenas de balanços contáveis, de leis de licitações para cobrar transparência de governos e empresas, precisam também entender de programação. Por outro lado, nada disso tira o secular e grande desafio original: como contar boas histórias.

ESF: Qual o seu envolvimento com o jornalismo e a literatura?

BD: O meu envolvimento do jornalismo com a literatura vem da minha trajetória de leitor e de “bibliófilo”, digamos. Além de ler os textos, gosto de ler o objeto livro e o objeto jornal como se eu fosse um arqueólogo procurando entender como chegaram até mim, depois, penso se eles têm algo a dizer para quem virá depois de mim. Talvez por essa característica um texto que fiz para o jornal Cândido tenha me animado tanto, porque  a proposta era reconstituir a era do jornal Nicolau [jornal cultural paranaense que circulou entre 1987 e 1996;], pois faço isso o tempo todo como um xadrez particular. Quanto às interfaces entre jornalismo e literatura, é muito interessante a visão do Edvaldo Pereira Lima, de quem fui leitor e para quem colaboro esporadicamente na especialização de Jornalismo Literário [ABJL]. Ele desenvolve um pensamento que valoriza a humanização, a voz autoral, a criatividade e o simbolismo. Aliás, ele acaba de lançar pela Edusp o “Jornalismo Literário para Iniciantes”. Quem também escreve com muita qualidade a respeito é o Gustavo Castro, da UnB.

Em literatura, os leitores costumam elogiar a presença de um humor mais sutil, que os agrada bastante. Em meus textos jornalísticos, os meus leitores tendem comentar minha capacidade de fazer um texto suave apesar da carga de referências, gostam do pé na estrada, de descrições, das múltiplas vozes e jogo com formas diferentes de discursos e focos narrativos. Não falam dessa maneira. Estou explicando para confundir – como diz a canção.  Em 2010, experimentei um passeio noturno em Medellín junto de um jornalista cultural e uns alunos de reportagem, a experiência eu registrei num texto para a REBEJ [Revista Brasileira de Ensino de Jornalismo]. Acredito que em “Madrugada sem Pablo Escobar” conta bem o espírito de como jornalismo e literatura buscam parcerias constantes com a cidade e com o pé na rua.

ESF: Poderia me falar para qual jornal ou qual revista já colaborou com seus textos?

BD: O Overmundo e o Observatório da Imprensa receberam uns conteúdos interessantes de minha autoria. Fiz um texto cultural sobre as “bodegas de Guaragi” para a Caros Amigos, que são bares que lembram muito a literatura do argentino Roberto Payró. Quando aluno, fiz o fanzineParalelo 25” e o jornal “Ucarana”; formado, fundei o “Grimpa”, tablóide que representou uma grande experiência editorial no interior paranaense. O “Grimpa” tinha uma orientação cultural mais “folk”. Com mais de 15 colaboradores “fixos” por edição, era diagramado pelo Luciano Schimidt, hoje editor de arte da revista Serafina, da Folha de S. Paulo. Atuei também como cronista semanal do Jornal da Manhã em 2007 e 2008. De lá para cá, colaborei com o jornal Cândido e com a revista Helena. Destaco a matéria que eu fiz para edição número 5 da Helena , que é uma publicação muito sofisticada, em papel pólen e do tamanho de um monitor de quinze polegadas. Fui chamado para a reunião de pauta e defendi a pauta de um tema popular. Ao fim, o primeiro tema escolhido foi o salame colonial chamado “Kracóvia”, originário de uma receita ucraniana, mas que levou nome polonês lá em Prudentópolis (PR).

Fui conferir de perto o local em que ele foi criado e conversar com os “herdeiros” dessa “tradição inventada”. Conto como se deu essa fusão de culturas tão à brasileira – sobretudo num açougue que tem nome árabe –, depois, enveredo pelo fascinante mundo eslavo junto a pessoas que o vivem diariamente. A “Kracóvia”, como o embutido é conhecido, não é patrimônio imaterial, não tem registro IGP ou DOP, mas, mesmo assim, a partir da região Centro-Sul do Paraná, ele se dissemina não só como uma questão gastronômica, mas como um achado linguístico porque é um nome identificável para um eslavo e familiar para um brasileiro – não é Lviv ou Gdanski, por exemplo. Quanto às revistas, é importante dizer o quanto me animo com o cenário cultural que vejo por aí. Acompanho muito o trabalho de editores como o Rogério Pereira (jornal Rascunho) e o Luiz Rebinski Jr (jornal Cândido). O Pereira, além de tudo, lançou o belo livro “Na escuridão, amanhã” (Cosac & Naify). Há publicações interessantíssimas como o Suplemento Pernambuco, a revista Continente, do Recife, a revista Coyote (PR), a Serrote, a Helena (PR), a Trópicos (SC).

ESF: Quantos livros você já lançou?
Escrever no Brasil é, primeiramente, ir à busca de interlocutores.

BD:  É por isso que eu já colaborei para que muitos livros fossem lançados. Gosto de viver o conceito da tal da “bibliodiversidade”. Não importa apenas preservar os mais diversos biomas brasileiros, mas também incentivar a pluralidade de linhas autorais no campo editorial. Assim, depois de tanto encorajar os outros a lançarem seu primeiro livro, lancei o meu primeiro livro de ficção em setembro de 2013. Parte desse trabalho se baseou em minha experiência de cronista semanal do jornalismo impresso, em 2007 e 2008. Antes do lançamento, eu já havia participado de umas dez bancas de TCC com livros-reportagem desde os mais experimentais até temas como “imigração polonesa”, “cidadania ecológica”, “esporte paraolímpico”, e alguns envolvendo personagens relacionados a moradias de risco, a asilos e a penitenciárias. Assinei três prefácios, dois em quadrinhos e um livro de poesias da EdUFSC. Li os originais do “Parafusos, Zumbis e Monstros do Espaço” antes do amigo Juscelino Neco lançar a obra pela Editora Veneta e do Leonardo Foletto mandar para a gráfica o “Efêmero revisitado: conversas sobre teatro e cultura digital”. Gosto muito do processo editorial. Claro que como pesquisador acadêmico, eu tenho a obrigação de publicar regularmente, mas isso o Lattes conta melhor que eu. Voltando a falar da minha estreia no campo da ficção com o “PG de A a Z e outras crônicas” (Todapalavra Editora, 2013), eu uso a tradição brasileira do cronista que circula pela cidade em busca de descrever e interpretar a cidade e seus personagens.

O detalhe é que, apesar do ponto de partida não ser novo, para a cidade de Ponta Grossa (PR), havia uma lacuna quanto à experiência. Parece que deu tão certo, que o cronista de Florianópolis Felipe Lenhart destacou justamente esse lado em sua resenha – a fusão entre cidade e crônica. Ou da arte de combinar do “útil com o fútil”, como Wellington Pereira, da UFPB, analisa a fórmula machadiana de escrever crônicas. Outro ponto a comentar dessas minhas crônicas é esse hibridismo tão ligado ao modo pós-moderno de ser em que se usa uma panela antiga para misturar ingredientes tão contemporâneos, como o de mostrar os homens em conflito a partir de vídeo-games, por exemplo. Ou de associar a nostalgia a fitas-cassetes e não mais a uma paisagem oceânica. Uma experiência interessante foi escrever sobre a própria cidade, uma vez por semana. O meu desafio era despertar interessante para uma cidade em que o morador, via de regra, não a achava interessante. Um dos textos mais comentados é a “A árvore que dobrou a esquina”, pela possibilidade de trazer ao cotidiano a força de uma imagem de uma árvore cujas raízes nascem na rua Comendador Miró e cuja copa vai ganhar lugar na rua Francisco Ribas. O livro fez um índice alfabético de crônicas, modelando algumas antigas e incluindo algumas inéditas. Essa da árvore é a “letra A”.

ESF: E seus planos futuramente?
Interação com o mestre do jornalismo literário, Gay Talese [maio de 2012]. Acervo pessoal.

Interação com o mestre do jornalismo literário, Gay Talese [maio de 2012]. Acervo pessoal.

BD: O primeiro passo é finalizar o doutorado da melhor maneira. Se possível, com um intercâmbio em uma universidade estrangeira. Quero fazer um bom trabalho e aproveitar a orientação que tenho com o Eugênio Bucci e me organizar para publicar minha dissertação de mestrado. Por conta dela, eu ganhei o Prêmio Adelmo Genro Filho, na edição de 2010. Foi um prêmio entregue pela SBPJor [Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo]. Tenho muitas ideias, boa parte delas ligadas a parcerias. Tenho uma relativa facilidade de trabalhar em grupo em ações culturais e me desdobro em algumas realizações. Estou montando um selo para uma série de livros, que terá novidades ainda nesse ano de 2015. Em termos individuais, eu me sinto tentado a publicar um romance tão logo me liberte do doutorado.

É animador pensar que sou contemporâneo a trabalhos tão interessantes como “Filho Eterno”, do Cristóvão Tezza (Record, 2007), e a estreias fabulosas como “K”, do Bernardo Kucinski (Expressão Popular, 2011), e “Guia Afetivo da Periferia”, do Marcus Vinicius Faustini (Aeroplano, 2009). Entre as inspirações para seguir meu trabalho, gosto muito de grandes “tradutores” de conhecimento, figuras como Ricardo Soares, que ficava à frente do programa “Literatura”, na então chamada Rede Sesc Senac. Figura que eu admirava muito era o falecido Artur da Távola que conduzia, na TV Senado, o “Quem tem medo da música clássica?”. Era um Carl Sagan da música erudita. Gostaria muito de fazer um trabalho dentro do rádio na mesma linha, até andei conversando com o professor Luciano Maluly, da ECA, a respeito. Vamos ver com as peças se mexem no tabuleiro da vida para poder decidir a próxima jogada.

ESF: O jornalismo para você é…

BD: Jornalismo é algo caro de fazer, muito mais caro que cinema! Humor à parte, a sua pergunta pede muitas respostas. Como é uma pergunta que soa aquela que encerra a entrevista, prefiro dizer o que move o jornalismo. Gosto do que escreve a Sylvia Morethsohn a esse respeito. Para ela, o jornalismo tem por missão “desnaturalizar os fatos”, ou seja, evitar que os fatos sociais sejam vistos como imutáveis. O jornalismo sério, portanto, deve tirar esse status de segunda natureza e de acolher a mutabilidade das ações humanas. Ainda sobre jornalismo, eu endosso uma provocação feita pelo pesquisador canadense Stephen Ward. Para Ward, o jornalismo se faz a partir de dois impulsos: um objetivo e outro romântico. Tenho a convicção de que não se faz jornalismo de qualidade sem considerar a ambos: informação verificada e julgamentos em favor do interesse público.


  • Entrevista concedida a Angélica Weise da Equipe Eu Sem Fronteiras.

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