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Modefica: uma plataforma para questionar o sistema de produção da moda e muito mais

Eu Sem Fronteiras
Escrito por Eu Sem Fronteiras

Você já reparou por que pagou apenas R$10 por aquela blusinha? Claro, achou que estava muito barata! Mas já se questionou porque ela tem um preço tão atraente? Como é possível pagar a mão de obra, material utilizado, transporte, loja e empresa e ainda assim custar tão barato? É fato que por trás desse valor existe alguém sendo explorado.

Para questionar, intrigar, explicar sobre moda e todo sistema de produção que está por trás dessa indústria, conversamos com Marina Colerato, criadora da plataforma Modefica. Você vai conhecer um pouco lendo a entrevista:

Eu sem Fronteiras: Fale um pouco sobre você, Marina.

Modefica: Escritora interessada em movimentos sociais, é formada em Design de Moda, mas sempre teve um caso sério com o Jornalismo. Já trabalhou com pesquisas de tendências, estudou sobre antropologia urbana e é fundadora da plataforma de comunicação Modefica. Acredita no poder da informação e do autoconhecimento como forma de empoderamento individual e, consequentemente, social.

Eu sem Fronteiras: Como surgiu o Modefica?

Modefica: O Modefica nasceu em 2014, depois de 6 anos acumulando o desejo de ver uma moda mais criativa e diversificada no Brasil. Sou formada na área e via a dificuldade de sucesso dos novos designers e estilistas, além de uma mídia de moda que só divulga produtos de marcas de luxo ou grandes marcas. Desde o Mercado Mundo Mix, nos anos 90, não tínhamos nem mais eventos autorais e independentes para unir novos criadores. Foi nos últimos 3 anos que a coisa começou a mudar, o MMM voltou e novas feiras e espaços como Jardim Secreto e Endossa foram surgindo, além da possibilidade de criar sua loja virtual e divulgar nas mídias sociais. O cenário mudou bastante nesses dois últimos anos, mas continua sendo muito difícil para quem é designer de moda/estilista.

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Acrescentou-se a isso o desejo de falar de moda de maneira séria porque a indústria da moda é coisa séria. Ela emprega milhões de pessoas, vale trilhões de dólares, ao mesmo tempo que escraviza pessoas, majoritariamente mulheres, mata bilhões de animais não-humanos e polui o mundo. O Modefica veio para incentivar a criatividade na moda, mas também veio para pensar essa criatividade de maneira séria, responsável e interseccional. A moda tange várias indústrias e várias pessoas; por isso, ao falar de moda, o pensamento precisa ser amplificado e, mais uma vez, a mídia de moda só fala de tendências ou de negócios (lucros, ações e CEOs). O Modefica surgiu do desejo de humanizar a comunicação de moda para promover uma produção e consumo mais conscientes.  

Eu sem Fronteiras: O Modefica é uma plataforma que explora diversos assuntos. Como você pensou nela?

Modefica: Eu acho que isso está um pouco explicado na resposta anterior. Mas, completando, não falamos só de moda porque moda não é algo isolado. Moda se relaciona com a sociedade e com os meios de produção como um todo. Para falar de moda, entender seus problemas e pensar em possíveis soluções, é preciso tentar entender toda a complexidade do mundo em que vivemos. Eu não posso pensar em moda – de maneira coerente – sem pensar em gênero, em economia e sociologia, em meio ambiente e animais não-humanos, em capitalismo, etc. 

Eu sem Fronteiras: Como você explica essa explosão do fast-fashion?

Modefica: É algo relativamente complexo e que precisaria de mais tempo para dissertar sobre, mas, basicamente, o sucesso do fast-fashion é uma junção de exploração de mão de obra barata com um desejo cada vez mais aguçado de consumir para suprir problemas e faltas pessoais, sustentado pelo conteúdo superficial e imagético oferecido pelas mídias sociais, que nos fazem ter a sensação de que nunca temos o suficiente e que os outros, com sua fartura de coisas, são sempre mais felizes do que nós. É sobre ganância de quem está comandando essas empresas, mas é também sobre como nos relacionamos com o consumo hoje. Tem muito de Zygmunt Bauman e seu ‘Tempos Líquidos’ aqui. É um ciclo que se retroalimenta: tudo é descartável, dos produtos às pessoas, ao passo que procuramos felicidade no consumo e não encontramos nunca.

Eu sem Fronteiras: O que você diria para quem está buscando uma consciência na hora de comprar roupas e coisas em geral?

Modefica: Seja curioso e questione. Não tem problema duvidar do marketing. Pelo contrário, temos que fazer isso o tempo todo. Se uma marca está te vendendo algo como sustentável ou consciente, pergunte: mas por quê? E vá atrás para entender se a informação que te passaram é coerente e faz sentido. Informe-se, porque informação é algo que nenhuma campanha de marketing e nenhum dizer na embalagem vai tirar de você. De onde vêm as coisas que você compra? Quem fez? Como fez?

Eu sem Fronteiras: Por que a grande maioria das pessoas ainda não consegue perceber toda a exploração que está por trás do fast-fashion?

Modefica: Acho que a pergunta aqui seria: “por que a grande maioria das pessoas ainda não consegue perceber toda a exploração que está por trás de tudo o que compram?”. Nosso café, açúcar e leite de todo dia – todos tem exploração de mão de obra, de meio ambiente e de animais não-humanos. Mas ninguém pensa nisso em nenhum momento, desde a compra no supermercado até a hora de eleger pessoas mais comprometidas para erradicar esses problemas. Algumas pessoas até percebem, mas ignoram ou justificam. A Amazônia está sendo desmatada a passos largos para criar gado. Mas será que estamos dispostos a maneirar no churrasco nessas férias? Oficinas de costura em São Paulo, vira e mexe, são descobertas com trabalho escravo, até mesmo infantil, mas o prefeito eleito não se comprometeu com a pauta e, a não ser algumas ONGs e ativistas, ninguém o está questionando por isso. O assunto das eleições paulistanas praticamente girou em torno de coisas como a velocidade das marginais. Nós nos distanciamos completamente da realidade e deixamos a responsabilidade na mão do governo ou das empresas, mas também não estamos muito a fim de incentivá-los ou de cobrá-los a fazer alguma coisa porque nem nós mesmos estamos a fim de fazer alguma coisa.

Assumimos o papel que nos foi dado pelo sistema capitalista de consumir sem fazer muitas perguntas e sem nos engajarmos como cidadãos ativos, a começar de mim.

Por outro lado, é compreensível que a vida imposta por esse sistema – não coincidentemente – seja dura e maçante demais para conseguirmos ter tempo e fôlego para pensar em cadeias de produção. Estamos todos ocupados demais aguentando um trabalho que a gente não gosta para comprar coisas (e “experiências”) que a gente nem sabe se precisa e quase não sobra tempo para se importar com isso.

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Eu sem Fronteiras: Marcas sustentáveis e de mulheres empreendedoras estão surgindo a cada ano aqui no Brasil. Como você vê esse mercado?

Modefica: Primeiro, é importante ressaltar que eu compartilho do pensamento da Tansy Hoskins (você pode ler aqui) de ter cuidado e ponderação ao falar sobre “marcas sustentáveis”. Praticamente não existe sustentabilidade dentro do sistema atual de produção, em nenhuma escala. O que existe é gente tentando fazer diferente, incentivando uma certa descentralização do poder criativo e econômico e se colocando como alternativa a grandes empresas conhecidas por explorar pessoas e o meio ambiente para ganhar dinheiro. 

A meu ver, esse mercado tem dois lados: um deles é super positivo. Ver mais e mais pessoas criando, de maneira independente, e com preocupações de fazer negócios sem destruir e explorar. São marcas que nascem com propósitos maiores do que o lucro e normalmente não incentivam o consumo desenfreado. É mais animador ver que são as mulheres abrindo esse caminho: mulheres que, até mesmo na moda, uma indústria majoritariamente feita por elas e para elas, não são ouvidas porque não alcançam cargos de tomadas de decisão. E é muito importante, quem pode, incentivar esse mercado de toda forma possível. 

Agora, é importante ter em mente que o metal do zíper e do botão da peça “sustentável” provavelmente veio da exploração da mão de obra tão comum na mineração, por exemplo. Isso porque, de um jeito ou de outro, tudo está relacionado a algum tipo de exploração e o problema hoje reside na escala: tudo é produzido excessivamente porque o modelo de negócios das empresas é o do crescimento contínuo, nunca é o suficiente. Então é importante ter em mente que, como cidadãos, é preciso fazer muito mais do que criar uma marca mais preocupada com meio ambiente e questões sociais ou comprar mais consciente, para que as coisas mudem. É preciso realmente um esforço coletivo de olho na complexidade do problema. Aqui eu ressalto de novo: seja curioso e questione.

Eu sem Fronteiras: Uma mensagem:

Modefica: O recado mais importante – e que aprendi eu mesma nesses últimos sete anos – é que encontrar a felicidade dentro da gente, o que nos move, o nosso propósito e trabalhar pra isso, torna a nossa passagem por aqui mais fácil e leve. No final, ser é maior do que ter e vamos aprendendo isso com o tempo. 


Imagens: Divulgação

Entrevista realizada por Angélica Weise da Equipe Eu Sem Fronteiras.

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