Há um tempo em que todos tocavam.
Não com técnica. Não com virtuosismo.
Mas com presença.
E havia um nome para isso: musiqué.
Não “música”, como entendemos hoje — entretenimento descartável, batida algorítmica, playlist infinita para distrair a dor.
Musiqué era outra coisa.
Era arte da oração sonora.
Era prática de artéria — o sangue da vida, pulsando em forma de som.
Antes da divisão entre intelecto e corpo, entre orador e público, entre palco e plateia, todos falavam em ritmo. Todos cantavam em sentido. Todos eram instrumentos.
Não havia ilusão. Havia sinergia. O pastor tocava o chifre como oferenda ao sol. A tecelã batia o tear em compasso com a respiração. O xamã entoava não para encantar, mas para conectar. A arte imitava a natureza — e, por imitá-la fielmente, podia aperfeiçoá-la.
Isso é o que esquecemos:
A arte verdadeira não copia o mundo — o cura.
Hoje, “música” pode ser uma palavra pejorativa.
Usada para disfarçar o vazio. Para vender consumo. Para anestesiar.
Mas musiqué — com esse e final, que ecoa em antiga língua — traz de volta o sagrado.
É a lembrança de que o som não serve ao homem.
O homem serve ao som.
Em tempos de crise ambiental, social, espiritual, mais do que nunca precisamos de um renascimento da musiqué.
Não apenas como estética, mas como prática de sobrevivência coletiva.
Imagino uma arte percussionista verde — onde o tambor não é de pele, mas de semente. O berimbau, de fibra viva. O canto, feito com voz que respira floresta.
É a arte da fertilidade, da juventude, da vitalidade.
Não o culto à beleza efêmera, mas ao fluxo da vida que renasce.
É nesse espaço que entra Claudio Monteverdi, cujas obras — como Orfeo e os Madrigais de Guerra e Amor — ainda hoje soam como invocações.
Monteverdi não compunha para salas de concerto.
Compunha para o anima, para o soma, para o encontro entre o corpo e a alma.
Ele entendia que a retórica nasce do ventre, não da mente.
Assim como um bom orador é aquele que não fala com palavras, mas com o coração sintonizado na natureza.
E, quando penso nele, lembro também de Arcangelo Corelli, cujos Concerti Grossi parecem conduzir touros árduos — não de força bruta, mas de caminhada obstinada rumo à luz.
Seus madrigais são como rituais:
Quem és tu, menino alegre?
Por que tens na testa o trigo, na mão esquerda as uvas, e na cabeça, a papoula?
Porque são os dons dos deuses.
O trigo — da terra.
As uvas — do vinho, que é sangue da videira.
A papoula — do sono, da morte, do sonho.
São símbolos do ciclo: plantar, colher, morrer, renascer.
E nesse ciclo, há uma passagem que nos atravessa:
Mateus 28:1-10. João 20:1-18. Marcos 16.
Amanhecer. Um sepulcro aberto. Uma mulher — Maria Madalena — chega com óleos, com dor, com fé.
E ouve:
“Por que buscais o vivo entre os mortos?”
É ali, no jardim, ao raiar do sol, que o ressuscitado aparece.
Mas não como herói de armadura.
Como um jardineiro.
Como um semeador.
Como quem cuida da terra.
Essas passagens não são apenas religião.
São mapas poéticos de renascimento coletivo.
E se a ressurreição é a metáfora do que pode voltar a viver —
Então a musiqué é o som desse volver.
O grito do planeta dizendo: ainda estou vivo.
O canto das florestas que querem regrowth.
O batuque dos rios que pedem passagem.
Há um poema antigo que diz:
Ainda não havia ferro trazido ao mundo, obra,
Quando uma donzela saiu de sua própria dança.
Amor, dizia linda ao céu.
Um tempo antes da guerra, antes do minério, antes da opressão do tempo.
Um tempo em que o corpo dançava não para ser visto,
Mas para lembrar que é parte do mundo.
E hoje, diante do fim anunciado — climático, espiritual, humano —
nos resta isso:
A arte que cura o que é dito, falado, feito, pensado.
A música que não anuncia, mas convoca.
A retórica não como artifício, mas como verdade em movimento.
É tempo de voltar ao vivitur ingenuo —
Vive-se pelo engenho.
Pelo instinto. Pelo corpo. Pelo espírito bruto e vivo.
Caetera mortis crunt — o resto pertence à morte.
Mas o que é verdadeiro, o que é som autêntico, o que é dança necessária —
pertence à noite que precede o amanhecer.
E nessa noite, eu escolho tocar.
Escolho cantar.
Escolho dançar como se minha vida dependesse disso.
Porque depende.
Porque a vida de todos depende.
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A musiqué não vai salvar o mundo.
Mas ela pode nos lembrar
que o mundo
ainda
vive.
E pulsa.
E canta.
Se você sente esse som dentro de si,
não o cale.
Tocar, cantar, dançar — não é arte.
É ato de resistência.
É oração.
É ressurreição.
