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O corpo é o campo de batalha: da ginga de Angola ao jazz do fim do mundo

Imagem de uma mulher angolana, feliz e dançando ao som de uma música ao vivo, em uma área com várias pessoas.
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Escrito por Bruna Mac The Wall

A dança ressurge como linguagem ancestral de resistência, memória e cura. Entre a ginga, o jazz e o corpo em transe, o texto revela o movimento como ato político e espiritual, capaz de despertar forças adormecidas e reconectar o ser à sua potência ancestral.

Observo as massas sendo movimentadas por lançamentos incessantes e batidas sintéticas. Muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, mas um vazio ruidoso ocupa o espaço.

Em boates e festivais, os passos são pequenos, contidos. As cabeças fazem, no máximo, o movimento de olhar para o celular e levantar o braço para um story.

As pessoas parecem ter esquecido a divindade envolvida no ato de dançar. Esqueceram que o corpo é um templo vibratório, um rádio sintonizado no cosmos.

Nossos ancestrais percebiam essa energia porque tinham tempo e espaço para sentir a vida e a natureza. Eles sabiam que a dança não era lazer; era devoção e sobrevivência.

A ginga como escudo e a guerra silenciosa

A capoeira é o maior exemplo dessa alquimia. Ela não nasceu em academias espelhadas, mas nas areias e portos, de influências de brigas de pescadores e da resistência africana. Da Angola e das brigas de rua, herdamos a malandragem: o saber passar a rasteira, o fugir, o olhar de soslaio. A ginga não é um enfeite; é uma postura humana diante das diversidades. É o corpo que aprendeu a ser fluido para não quebrar sob o peso da chibata.

Hoje, a capoeira contemporânea se organiza em graduações, terços de sangue e cordões, mas a essência permanece na variação: no Bantu com o bambu, nas danças de guerra que usam o pau e a fibra para manifestar a força. São as variações rítmicas que mantêm o espírito alerta.

Imagem de dois homens dançando capoeira. Ao fundo, um lindo pôr do Sol.
Igor Alecsander / Getty Images / Canva

Diz-se que o brasileiro é um povo pacífico, sem guerras externas. Mas isso é um mito que esconde uma guerra interna e calada. Uma guerra de identidades, de silenciamentos e de heranças não resolvidas. É por isso que as danças de guerra são tão vitais para nós: elas abrem espaço para esse grito contido. Elas dão forma ao conflito que a palavra não ousa dizer. Quando batemos o bastão de bambu no chão, estamos acordando a terra e expulsando os fantasmas da passividade.

Corpo, território e memória: o Jazz que sangra

Essa insurgência do corpo encontra eco no trabalho de gigantes. Pensar em jazz no Brasil sem olhar para a afro-referencialidade é erro histórico. O jazz é uma extensão do blues, que é uma extensão do lamento e da força negra. Como bem pontuava o mestre Otelo, o jazz negro é um manifesto artístico permanente.

No Rio de Janeiro, a Cia dos Comuns e a Cia Étnica de Dança transformam o palco em um Corpo-Território. Eles não “apresentam” uma coreografia; eles performam uma memória. É a Ópera Carmen sendo despida de suas rendas europeias para revelar uma Carmen de pele retinta, que carrega o destino nas ancas e a liberdade na voz. São estudos afro-referenciados que transformam o “Jazzy” em uma ferramenta de elevação espiritual e política.

A mulher do fim do mundo e o duelo das drags

Nesse cenário de guerra e dança, a figura feminina emerge como a comandante-em-chefe. Elza Soares já nos avisou: “eu sou a mulher do fim do mundo”. Nós somos essa mulher manifestada aqui, neste patriarcado que desmorona. Enquanto homens, em um movimento de busca, tentam render sua masculinidade ao divino feminino através da exaltação das “Drag Queens”, surge um duelo inevitável.

O universo trans e drag muitas vezes exalta a estética feminina, mas onde cabe a mulher biológica nesse duelo? Cabe a ela encarar o masculino em si. Cabe a ela incorporar a sua própria “Drag Queen” — não como uma caricatura, mas como o direito ao exagero, ao poder, à autoridade cênica e espiritual.

Imagem de uma Trans Drag Queen usando uma roupa verde fazendo uma gravação e postagem sobre tutorial de beleza.
Gabriel Trujillo / Getty Images / Canva

Vi mulheres guerreiras em performances de afrodança manifestando sua existência com cabos de vassoura — o instrumento da opressão doméstica transformado em lança. Um manifesto por Mamãe Oxum, mas também um salve para as muçulmanas, para as guerreiras das tribos, para as ancestrais indígenas. Sem anistia para o esquecimento.

A elevação da Kundalini coletiva

Essa é a dança de guerra do fim dos tempos. Uma manada, um exército de poder feminino que usa a iluminação e a expressão para elevar a Kundalini — em ti e em mim. É o Femme em nós, não como um rótulo de beleza, mas como uma voltagem elétrica.

A vibração do átomo (próton, nêutron, elétron) encontra seu auge no giro da capoeirista, no salto do bailarino de jazz e no transe da passista. Do micro ao macrocosmo, tudo é uma elipse de energia.

Se o mundo lá fora tenta nos manter rasos, olhando para telas e movendo apenas o pescoço, nossa resposta é a profundidade. É o pé no chão, o bambu na mão e a ginga na alma.

Porque enquanto houver corpo, haverá guerra.
E enquanto houver dança, haverá vitória.

Axé. Jazz. Ginga.

Sobre o autor

Bruna Mac The Wall

Graduada em Hotelaria e Turismo pela Anhembi Morumbi, especializada em Lazer e Bem- Estar, Pós Graduada em Naturopatia pela Humaniversidade, com cursos de extensão em Terapias Vibracionais Bioenergéticas EMF e Sound Healing.

O autoconhecimento pela troca de energia no trabalho com outro ser humano, de fato faz nossa sabedoria expandir, a medida que nos colocamos como observadores quânticos onde a resposta para tudo está em todas as coisas ao nosso redor.

A proposta de escrever e expandir é uma forma de tornar aspirações e experiências disponíveis a outros seres humanos que estão dispostos a compartilhar também a medida que estão abertos a novos insights e conhecimento, possibilitando essa troca.

Atuo com atendimentos individuais com massoterapia ( Shiatsu, Thai Massagem , Ayurvedica, Thiyur, Detox ) , acupuntura ( com e sem agulhas) , consultas Florais e Fitoterápicas, sessões individuais e coletivas de Sound Healing, Bioenergética, Yoga, Meditação, eventos de Bem - Estar em espaços e empresas, Retiros Detox Zen.

Atuo também com consultoria de Spas e Resorts , Social Mídia, Foto/ Vídeo/ DJ.

Linha de Produtos Naturais Orgânicos, Saboaria e Cosmética Natural.

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