Dia desses, recebi de nossa editoria um e-mail com sugestões de pauta. Logo na primeira posição, o item “Inspiração do mês” trazia uma citação de Antoine de Saint-Exupéry: “O essencial é invisível aos olhos”. As palavras, apesar de tão conhecidas, me causaram um estranhamento, que permaneceu comigo o dia todo. Fiquei pensando nas tantas invisibilidades que estão presentes em nossa escrita.
Escrevemos nós, mas os invisíveis nos habitam. Perguntei-me qual seria o meu invisível mais próximo, aquele que está sempre percorrendo o teclado comigo, e concluí que é a escritora portuguesa contemporânea, morta em 2008, Maria Gabriela Llansol.
Diz ela, e sua voz sou eu: “Tenho a agulha na mão, agulha solitária, e percorro o lilás da lã olhando a posição e o movimento de cada dedo, sobretudo o conjunto a partir dos pulsos, as mãos levantadas brilham nas unhas, e o indicador está em permanente contacto com a agulha; no lilás e no rosa há uma semelhança com o papel branco, escrevo as malhas, passo-as da mão esquerda para a parede onde vejo a minha grande sombra, criança e feminina. Gostaria de deitar-me assim sobre o meu túmulo, a contemplar a minha testa no papel, reconhecendo nele as cores concentradas. Ouviria a minha voz sem abrir a boca, com as mãos em cima das orelhas e depois sobre os olhos”.
Maria Gabriela Llansol. A casa, as mãos, a escrita. Uma escrita em cadernos e a restante vida. Um duplo de mim mesma em livro antigo. O encontro de um si e outro nas páginas amareladas pelo tempo. Um nós invisível se fazendo entre páginas. Maria Gabriela Llansol a dizer-me: “Menina, não diga que não existe, procure onde está”.
Ir à procura. Ser capaz de repensar a noção de ‘invisível’, não uma parte do visível, a oculta, que se procura desocultar, mas a sua dobra, um outro modo que também existe e cuja condição não é a de ‘ser visível’ (o que é diferente de ‘ser invisível’, sendo que este tem um carácter negativo que não existe se o virmos como ‘a dobra do visível’).
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Maria Gabriela Llansol. Uma escritora a ensinar-me invisibilidades. Uma escritora a escrever invisibilidades cotidianas junto à casa, às mãos, aos fazeres manuais. Maria Gabriela Llansol. Uma escrita que borda e tece. Uma escrita que amassa o pão e diz: “Fazia pão. Mas no fundo de mim, fazia livro. Lavava então as mãos, por causa do óleo. Vinha escrever aqui, pensando que fazer pão era uma actividade favorável à minha escrita”. Maria Gabriela Llansol. Minha escrita se faz com sua letra bordada nela.
