Em pleno 2026, estamos acompanhando um movimento interessante no universo das redes sociais: o possível retorno do Orkut, uma plataforma criada em 2004 que marcou a vida de milhões de pessoas e encerrou suas atividades em 2014. O entusiasmo pela sua volta vem crescendo há alguns anos, especialmente desde 2022, quando o antigo site voltou a despertar expectativas sobre um novo projeto. Agora, em outubro de 2026, seu fundador, Orkut Büyükkökten, publicou uma carta aberta e iniciou uma campanha para avaliar o interesse do público em uma nova rede social.
Os números que vêm sendo acompanhados nessa mobilização impressionam. Em determinado momento da campanha, aproximadamente 430 mil pessoas já haviam manifestado apoio, com o Brasil liderando o ranking mundial e concentrando cerca de 64,4% das assinaturas.
Ainda não temos uma data de lançamento, uma plataforma disponível ou a confirmação de todas as funcionalidades. Por enquanto, o que existe é uma proposta e um movimento de pessoas interessadas em vê-la acontecer.
E é justamente essa proposta que merece nossa atenção.
Ao acessar o site oficial, encontramos uma carta que questiona os rumos das redes sociais nas últimas duas décadas. Orkut Büyükkökten critica a maneira como as plataformas passaram a priorizar algoritmos, retenção de atenção e engajamento, frequentemente em detrimento das relações humanas. Sua intenção declarada é desenvolver uma rede centrada em comunidades, amizades, pertencimento e interações entre pessoas.
Quem viveu o Orkut original provavelmente compreende a diferença.
Naquela época, participávamos de comunidades por afinidade, encontrávamos antigos colegas, conhecíamos pessoas de outras cidades e passávamos horas conversando sobre assuntos que nos interessavam. Havia depoimentos, recados, fóruns de discussão e comunidades que reuniam desde interesses profissionais até gostos bastante peculiares.
A experiência de participar de uma rede social era diferente daquela que conhecemos hoje.
Em 2026, boa parte da nossa relação com as plataformas digitais está condicionada por métricas. Publicamos pensando em alcance, analisamos curtidas, acompanhamos visualizações, estudamos tendências, testamos formatos e tentamos compreender o que os algoritmos estão favorecendo naquela semana.
Para empresas e profissionais, essa dinâmica se tornou parte do trabalho. O marketing digital desenvolveu estratégias, metodologias e ferramentas para aproveitar comercialmente a atenção que circula nesses ambientes.
O problema aparece quando começamos a acreditar que toda interação precisa produzir algum resultado comercial.
E se o Orkut voltar, será que conseguiremos nos comportar de outra maneira?
Imagine a seguinte situação: uma nova rede é lançada com a proposta de aproximar pessoas por interesses em comum. Milhares de usuários entram procurando antigos amigos, comunidades sobre música, literatura, cinema, viagens, animais de estimação e assuntos cotidianos. Em poucos dias, começam a aparecer profissionais oferecendo cursos, especialistas distribuindo conteúdos para captar clientes, empresas criando grupos promocionais e pessoas tentando descobrir como aumentar seu alcance.
Seria realmente surpreendente?
Estamos tão habituados a utilizar as redes sociais como instrumentos de divulgação que corremos o risco de transportar automaticamente esse comportamento para qualquer ambiente digital que surgir.
Quem trabalha com marketing conhece bem essa tendência. Sempre que uma plataforma começa a atrair usuários, aparecem análises sobre oportunidades de mercado, posicionamento, construção de autoridade e possibilidades de monetização.
É natural que empresas observem mudanças no comportamento do público. Afinal, acompanhar tendências faz parte do planejamento estratégico. Entretanto, identificar uma oportunidade comercial e compreender a proposta de uma comunidade são atividades diferentes.
Uma plataforma pode reunir milhões de pessoas sem que todas estejam interessadas em consumir ofertas, acompanhar especialistas ou receber conteúdos profissionais.
Será que ainda conseguimos compreender essa diferença?
A carta de Orkut Büyükkökten apresenta uma reflexão especialmente interessante ao distinguir a experiência de assistir a um feed daquela de participar de uma comunidade. No primeiro caso, recebemos uma sequência de conteúdos selecionados por sistemas de recomendação. No segundo, existe a possibilidade de estabelecer relações em torno de interesses compartilhados.
Essa diferença interfere diretamente na maneira como nos comportamos.
Em uma comunidade, a participação deveria envolver conversa, troca de experiências, interesse pelas contribuições dos outros e disposição para construir vínculos. Quando alguém entra exclusivamente para divulgar seus serviços, sem demonstrar interesse pelas pessoas que estão ali, a relação tende a se tornar unilateral.
E quem gostaria de participar de uma comunidade na qual todos estão tentando vender alguma coisa?
Pense em uma comunidade dedicada à leitura. Uma pessoa entra para comentar um livro, conhecer outros leitores e descobrir autores. Outra aparece repetidamente oferecendo uma mentoria, um curso ou um serviço sem qualquer relação com as conversas. O problema não está na existência de uma atividade profissional, e sim na incapacidade de reconhecer o contexto em que aquela interação acontece.
O mesmo vale para comunidades sobre yoga, meditação, terapias integrativas, empreendedorismo ou desenvolvimento pessoal.
É possível que profissionais dessas áreas encontrem pessoas com interesses semelhantes. Isso, entretanto, não transforma automaticamente cada participante em um cliente em potencial.
Uma conversa sobre meditação pode acontecer simplesmente porque duas pessoas gostam de meditar. Uma discussão sobre astrologia pode existir pelo prazer de compartilhar interpretações. Alguém pode participar de uma comunidade sobre empreendedorismo para trocar experiências, sem desejar comprar uma consultoria.
Parece uma observação óbvia, embora nossa cultura digital tenha tornado cada vez mais comum interpretar interesses pessoais como oportunidades de conversão.
E aqui encontramos uma contradição interessante.
Muitas das pessoas que hoje demonstram entusiasmo pela volta do Orkut também estão cansadas da quantidade de anúncios, conteúdos patrocinados, disputas por atenção e estratégias comerciais presentes nas redes atuais. Desejam uma experiência diferente, com menos pressão e maior liberdade para conversar.
Ao mesmo tempo, parte dessas pessoas já desenvolveu hábitos profundamente influenciados pela lógica das plataformas contemporâneas.
Conseguiremos entrar em uma rede social sem nos preocupar imediatamente com seguidores? Participaremos de comunidades sem tentar demonstrar autoridade? Compartilharemos experiências sem avaliar quantas visualizações elas poderão gerar? Conseguiremos conversar com desconhecidos sem pensar em transformá-los em contatos comerciais?
Essas perguntas ultrapassam o possível retorno de uma plataforma. Elas dizem respeito à maneira como nossa relação com a internet mudou.
Também existe um aspecto geracional importante. O Orkut foi especialmente marcante para millennials e integrantes da geração X, embora também tenha reunido pessoas de outras gerações. Muitos de nós conhecemos aquela internet antes da profissionalização intensa da produção de conteúdo, quando participar de comunidades e conversar com amigos ocupava uma parte considerável da experiência digital.
Hoje, essas mesmas pessoas são profissionais, empreendedoras, gestoras, especialistas e consumidoras habituadas a uma internet muito mais comercial.
Será que estamos procurando recuperar a experiência que tivemos em 2004 ou tentando encontrar uma alternativa ao ambiente digital que ajudamos a construir ao longo dos anos?
Do ponto de vista do marketing, esse movimento merece ser acompanhado como um possível sinal de mudança nas expectativas dos usuários. A popularidade de uma campanha, por si só, não garante a adesão duradoura a uma futura plataforma. Existe uma diferença considerável entre assinar uma manifestação de interesse, criar uma conta e permanecer utilizando uma rede durante meses ou anos.
Ainda assim, a mobilização revela uma demanda que merece investigação: pessoas demonstram interesse em ambientes digitais nos quais a convivência tenha maior importância do que a exposição permanente.
Se essa expectativa se confirmar no comportamento dos usuários, empresas e profissionais precisarão compreender que nem toda plataforma deve ser abordada com as mesmas estratégias.
Também precisamos reconhecer que a proposta apresentada pelo fundador ainda está em desenvolvimento. Não sabemos exatamente como serão organizadas as comunidades, quais recursos estarão disponíveis, como a plataforma será financiada ou quais políticas comerciais serão adotadas. Portanto, seria precipitado afirmar que publicidade, atividades profissionais ou iniciativas comerciais estarão proibidas.
O que já podemos afirmar é que o discurso de apresentação do projeto privilegia relações humanas e comunidades, e não a reprodução do modelo de feeds orientados à captura de atenção.
Essa distinção deveria ser suficiente para provocar uma reflexão entre profissionais de marketing, criadores de conteúdo e empreendedores.
Precisamos mesmo transformar todas as redes sociais em ambientes de venda?
Uma pessoa pode ser terapeuta, empresária, professora, escritora ou consultora e, ainda assim, desejar participar de uma comunidade simplesmente porque gosta de determinado assunto. Pode conversar sobre livros sem divulgar suas publicações, participar de discussões sobre saúde emocional sem oferecer atendimentos e conhecer pessoas sem acrescentá-las imediatamente a uma estratégia de prospecção.
A possibilidade de estabelecer relações sem uma finalidade comercial também merece ser preservada.
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Se o Orkut retornar, será interessante observar como essa proposta se desenvolverá diante dos hábitos que adquirimos nas últimas duas décadas. O desafio não estará apenas na tecnologia, no desenho da plataforma ou na capacidade de atrair usuários. Estará também nas escolhas de quem decidir participar.
Podemos desejar uma internet mais humana e continuar reproduzindo exatamente os comportamentos que hoje criticamos.
Podemos pedir menos publicidade e transformar nossas próprias comunidades em vitrines. Podemos reclamar dos algoritmos e continuar avaliando cada interação pela quantidade de atenção recebida. Podemos defender conexões entre pessoas e abordar desconhecidos apenas quando identificamos alguma vantagem profissional.
A possível volta do Orkut coloca diante de nós uma questão que merece ser discutida antes mesmo de seu lançamento.
Queremos uma rede social diferente ou apenas uma nova plataforma para repetir nossos velhos hábitos?
Porque, se o Orkut voltar, a tecnologia poderá recuperar parte da experiência que conhecemos em 2004. O comportamento de quem entrar nela, entretanto, será o de pessoas que passaram mais de vinte anos aprendendo a utilizar a internet de outra maneira.
E é justamente aí que começará o verdadeiro teste dessa proposta.
Será que ainda sabemos participar de uma comunidade pelo simples prazer de fazer parte dela?
