Você já percebeu como é difícil estar satisfeita com o que você tem? Sempre falta alguma coisa. Sempre tem alguém fazendo melhor. Sempre sobra aquela sensação de que você deveria estar mais adiantada, mais resolvida, mais alguma coisa.
O yoga tem princípios éticos antigos chamados Yamas e Niyamas. São dez conceitos que a maioria das pessoas acha que servem só para quem vive em ashram na Índia. Mas quando você olha de perto, eles falam exatamente sobre essas coisas que a gente vive todo dia.
Vou traduzir sem enfeite.
Ahimsa significa não-violência. Parece óbvio, mas a violência que a maioria de nós pratica é contra nós mesmas. É aquela voz interna que te xinga quando você erra. É forçar o corpo além do limite porque você acha que precisa provar algo. É aceitar relacionamentos que te machucam porque você acha que não merece coisa melhor.
Satya é sobre verdade. Não mentir, claro. Mas também não fingir que está tudo bem quando não está. Não sorrir para agradar quando o que você queria era chorar. Não dizer sim quando o corpo todo está gritando não. Para mulheres que passaram a vida inteira se adaptando para caber, falar a verdade pode ser revolucionário.
Asteya fala sobre não roubar. Mas vai além de não pegar o que não é seu. É sobre não roubar tempo dos outros com reclamação infinita. Não roubar energia alheia com drama desnecessário. E também não deixar que roubem o seu tempo, a sua paz, a sua atenção com coisas que não importam.
Brahmacharya geralmente é traduzido como celibato, o que faz todo mundo ignorar esse princípio. Mas na prática moderna, tem mais a ver com não desperdiçar sua energia vital com coisas que te esgotam e não te nutrem. Aquela amizade tóxica. Aquele trabalho que suga tudo. Aquele hábito que te deixa pior.
Aparigraha é sobre não acumular. Não só coisas materiais, mas também mágoas, ressentimentos, versões velhas de si mesma que você insiste em carregar. É sobre soltar o que não serve mais para ter espaço para o novo.
Esses são os Yamas. Os cinco princípios sobre como você se relaciona com o mundo.
Agora os Niyamas, que falam sobre como você se relaciona consigo mesma.
Saucha é limpeza. Do corpo, claro. Mas também da mente. Parar de ruminar os mesmos pensamentos ruins. Parar de consumir conteúdo que te deixa pior. Escolher o que entra na sua cabeça com o mesmo cuidado que você escolhe o que come.
Santosha é contentamento. Não aquela felicidade forçada de coach. Mas a capacidade de estar ok com o que é, mesmo quando não é perfeito. De reconhecer que você pode querer mais e ainda assim estar grata pelo que tem.
Tapas é disciplina. Fazer o que precisa ser feito mesmo quando não está com vontade. Levantar para meditar. Ir para o tapete mesmo cansada. Fazer a terapia mesmo quando dói. É o oposto da autopiedade que te mantém parada.
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Svadhyaya é autoestudo. Olhar para si mesma com honestidade. Perceber seus padrões, suas repetições, seus pontos cegos. Não para se julgar, mas para se conhecer de verdade.
Ishvara Pranidhana é sobre se render a algo maior que você. Pode ser Deus, pode ser o universo, pode ser apenas a aceitação de que você não controla tudo. É parar de tentar segurar o mundo nas costas.
Esses princípios têm milhares de anos. Mas continuam fazendo sentido porque as questões humanas não mudaram tanto assim. A gente ainda mente para si mesma. Ainda acumula o que não precisa. Ainda se violenta achando que está se disciplinando.
A diferença é que agora você pode escolher fazer diferente.
