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Sensação de atraso nas fases da vida dos membros da comunidade LGBT

“Sinto que comecei a viver muito tarde”. Pode parecer bobagem para alguns, mas não é. Não quando se trata de uma pessoa LGBT+. Quem faz parte da comunidade conhece bem a sensação de atraso nas fases da vida.

É comum alguém, em seus vinte e poucos anos, começar a ter experiências que pessoas hétero cis geralmente têm durante a adolescência. Isso quando a sensação de atraso não acomete pessoas mais velhas. Nos consultórios psicológicos, essa é uma queixa bem comum e que gera sofrimento.

Mas por que e como isso acontece? Existem fatores determinantes para esse processo? Vamos explorar a questão neste artigo, abrindo um espaço para a reflexão sobre uma realidade vivida por muitos, mas constantemente ignorada fora da comunidade. Mergulhe conosco nesse conhecimento!

Pressões sociais

Basta nascer para estar sujeito a uma vida sob pressões sociais. Mas alguns grupos tendem a ser vítimas disso mais comumente. Pessoas negras, mulheres, pessoas gordas e a comunidade LGBT+, por exemplo.

Desde muito cedo, expectativas são depositadas sobre cada um de nós. Qual profissão vamos seguir, se vamos casar e ter filhos etc. Para uma pessoa LGBT, isso pode ser ainda mais complexo.

Afinal, a sociedade espera que alguém seja cis, se case com o gênero oposto e tenha filhos biológicos. Ser LGBT significa, geralmente, ir contra esses ideais. Mas a sociedade não perdoa e pressiona a todos que ousam seguir um caminho diferente do esperado.

Isso pode levar muitas pessoas a cederem a essas pressões pela aceitação ou até mesmo por segurança. Em termos de Brasil, estamos falando do país que mais mata LGBTs no mundo. Então, ceder à pressão pode ser uma questão de segurança.

Repressão social

E onde há pressão social, há repressão. É comum que membros da comunidade LGBT reprimam quem de fato são ao cederem às pressões sociais, a tal ponto de não vivenciarem sua essência sequer fora dos holofotes. Isso pode durar boa parte da vida; quiçá a vida toda, em muitos casos.

Aqui entra a heteronormatividade compulsória e seu terrível efeito emocional. Ela nada mais é do que a obrigatoriedade implícita de ser hétero cis para ser aceito na sociedade. Por meio dela, ocorre que muitos deixam de viver partes importantes de sua vida ou as vivem tardiamente.

Na escola, por exemplo, pode haver muito bullying contra os estudantes LGBT. Tanto é assim que já foi constatada uma baixa no rendimento desses alunos, que muitas vezes até optam por faltar às aulas para evitar as agressões verbais ou físicas, segundo apontou a Pesquisa Nacional sobre o Ambiente Educacional no Brasil, em 2016. E isso é só a ponta do iceberg.

Processo de autoaceitação

A ajuda de um profissional, principalmente um psicólogo, em primeiro caso, pode ser a base fundamental no processo de autoaceitação. Conforme a sociedade não aceita a pessoa LGBT, ela pode introjetar uma não aceitação de si mesma. Afinal, a forma como nos enxergamos, muitas vezes perpassa pela visão que os outros têm de nós, por sermos seres naturalmente sociais.

E é a falta da autoaceitação que também pode inibir as vivências de pessoas LGBT. Não surpreende, por exemplo, que uma mulher tenha sua primeira experiência lésbica apenas na fase adulta. Não porque não quisesse antes, mas porque evitava ser ela mesma por não ser aceita e não se aceitar.

Isso é mais doloroso do que se possa descrever em palavras! Quando, finalmente, a pessoa alcança a autoaceitação suficiente para ser ela mesma em sociedade, pode se ver presa em um looping: “Como seria minha vida se eu tivesse vivido isso antes?”. Torturador.

Bandeira LGBTQIAP+ hasteada sob um céu azul na cidade
Astrobobo / Pixabay

Dessa forma, faz parte do processo aceitar que não estava apenas sob seu controle viver certas experiências no passado. O externo também interfere em nossas escolhas e, muitas vezes, sequer temos consciência de estarmos nos reprimindo e do quanto isso pode nos fazer mal a longo prazo. Então, tudo bem viver depois. Aliás, tudo bem viver no seu próprio tempo.

Necessidade de se encaixar em padrões

Verdade seja dita: os padrões estabelecidos pela sociedade são irreais! O corpo perfeito, a vida perfeita, a família perfeita, o caminho perfeito. E, desde muito cedo, somos impelidos a acreditar que devemos nos encaixar nesses padrões. Daí a necessidade que acaba gerando sofrimento.

A sensação de atraso nas fases da vida, inclusive, pauta-se em um roteiro preestabelecido pela sociedade para todas as pessoas — um roteiro que não considera as singularidades, os desvios de percurso, os obstáculos. Pensando por esse lado, então, não existe, de fato, um atraso. Existe o tempo particular de cada um.

Isso não anula o sofrimento de quem se sente em atraso, mas é uma perspectiva que ajuda a viver de forma mais leve. Na terapia, esse pode ser um dos aspectos trabalhados para ajudar o paciente a sair daquele looping que citamos, de modo que ele possa viver mais plenamente consigo mesmo.

Não é sequer justo viver carregando um peso por ser quem se é. A realidade tenta mascarar isso, normalizando a repressão da comunidade LGBT, mas, felizmente, o cenário tem se modificado nos últimos anos. Um passo de cada vez, e a comunidade tem conquistado mais liberdade para se expressar e viver.

O perigo e as dificuldades ainda são reais na vida dessas pessoas. A sensação de atraso continua sendo uma possibilidade; mas o caminho que está sendo trilhado pode significar que as gerações futuras poderão viver seu próprio tempo sem carregar o peso do atraso.

Se você passa por essa situação — ou conhece alguém que passe — procure ajuda profissional para encontrar caminhos saudáveis de ser feliz com sua essência. Inclusive, é possível encontrar atendimento gratuito e específico para a comunidade LGBT. É o caso da Acolhe LGBT+ (https://www.acolhelgbt.org/). Acessando o site do projeto, você encontra psicólogos voluntários que podem ajudar você sem nenhum custo.

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Ser LGBT+, no Brasil, traz diferentes desafios. A sensação de atraso nas fases da vida é um deles, mas é possível trilhar um caminho bonito acima disso. Faz sentido para você? Então, compartilhe com outras pessoas e vamos, juntos, informar em prol dessa comunidade tão diversa e merecedora de amor e reconhecimento.

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