Convivendo

As mais belas parábolas de amor foi minha avó quem me contou

Zil Camargo
Escrito por Zil Camargo
Ela dizia que a primeira cama em que eu me deitei quando cheguei da maternidade foi a dela. Pode ser por isso, que até hoje, quando me sinto triste ou insegura é para lá que quero correr.

Minha avó materna foi a pessoa mais incrível e generosa que tive a oportunidade de conhecer. Era conhecida por todos no bairro onde morávamos por ser uma pessoa que mantinha as portas sempre abertas, da casa e do coração.

Eu passei a minha infância toda na barra da saia dela, assim como a minha adolescência e o começo de minha vida adulta, até sair de casa e ir morar sozinha.

Durante todos os anos em que tive a sorte de observar a vida através dos olhos dela, aprendi que as ações eram mais poderosas do que as palavras, e esta ainda é a maneira mais eficaz de se expressar: agindo.

As compras na feira serviam para encontrar as mulheres maltratadas em busca de apoio, em uma época em que a palavra empoderamento sequer constava no dicionário. Ela sugeria as ervas certas para o tempero da comida e da vida. Receitava paciência e coragem, de uma maneira tão simples e otimista que nem parecia que tinha ela mesma suas próprias dores.

Cansada de maus tratos em seu casamento, enfrentou o medo e a sociedade e separou-se do meu avô no início da década de 70, comprou um terreno e construiu a própria casa onde abrigou quase a família inteira a cada temporada, acolheu todos que precisavam de um remédio, um conselho ou um abraço, não importando o horário do dia ou da noite.

Não sabia ler e nem escrever, mas sua sabedoria transcendia, era algo além, muito além desse mundo.

Viver com a minha avó fez de mim uma mulher forte e corajosa. Jamais precisei dizer-lhe o que eu estava sentindo, pois seu olhar capturava a minha alma e no lugar de longos discursos, ela apenas acariciava os meus cabelos, com a minha cabeça recostada no seu colo e dizia: “Vai passar!”.

Eu acreditava e me encorajava para os enfrentamentos que a vida colocava diante de mim.

Quando eu engravidei, solteira, tive medo de decepcioná-la de alguma forma. Tive medo de ser repreendida por estar quebrando aquela tradição na qual a mulher deveria se casar primeiro e ter filhos depois.

Ao contar para ela que teria um filho, dei a notícia seguida de uma pergunta.

– Você não vai mais me amar?

E ela sorrindo respondeu:

– Vou te amar ainda mais.

Ela sabia muito sobre o amor e eu estava só aprendendo.

Li recentemente que crianças que tiveram os avós por perto durante o seu desenvolvimento cresceram mais felizes.

Particularmente, penso que nada se compara à convivência com os avós, pois se trata de uma relação leve, que faz a gente se sentir plenamente amado, seguro e confiante mesmo com as frustrações naturais da vida.

Eu acabo de me tornar avó e penso se serei capaz de ser para a minha neta o que a minha avó foi para mim.

Há cinco anos ela se foi e em uma mensagem de condolências uma amiga escreveu que quando os avós morrem, morre um pedaço de nossa infância também.

Eu digo que mais que isso, pois as coisas que aprendemos com os nossos avós, são mais do que a própria história pode contar.

São anjos guardiões dos assuntos de família, os confidentes das horas de ressentimento, o último recurso dos momentos de opressão, os aliados das crises de rebeldia, o melhor colo do mundo. São mais que os melhores personagens da infância.

São fontes de paz na vida adulta e, sem dúvidas, de eterna saudade.

Sobre o autor

Zil Camargo

Zil Camargo

Na diversidade de cada ser, é injusto com a vida, neste mar de experiência que ela concede, tentar nos definir assim, com meras palavras.

Mas dentro de mim mora alguém inspirada, sensível, às vezes curta ou grossa, ora dramática, ora objetiva.

Mãe, artesã, escritora amadora; consultora para ganhar a vida e interessada no comportamento humano.

Estudiosa de assuntos relacionados à psicanálise, filosofia e espiritualidade; uma aprendiz procurando desenvolver oportunidades em busca do bem viver.

Contato: [email protected]