Autoconhecimento

Só perdoei se eu esquecer?

Mulher rezando e pássaro livre, apreciando a natureza no fundo por do sol.
Leila de Sousa Aranha
O perdão é uma experiência muito estigmatizada pela religião, o que o torna difícil de vivenciar porque exige da pessoa um esforço sobre-humano de superação da própria dor e de compreensão da atitude do agressor. Quando ouvimos falar de perdão, logo pensamos em “pecados perdoados”. 

Na verdade, a psicologia traz uma visão diferente, mais próxima da experiência humana e que ajuda a trazer paz e liberdade para quem precisa dissolver uma situação dolorosa em sua vida. O autoconhecimento está na base de qualquer acompanhamento psicológico. Sendo assim, há que se descobrir os motivos que alimentam a mágoa, a história que a pessoa conta para si mesma sobre os fatos, agora interpretados, que provocaram o ressentimento original. Isso feito, coisa que não ocorre instantaneamente, mas demanda de algum tempo de terapia, conforme o caso, a pessoa está pronta para confrontar-se com a verdade. Essa verdade passa pela autoestima e a capacidade de decidir por uma vida melhor e mais saudável.

perdoar

A raiva corrói o que se tem de melhor dentro de si. Ela só se justifica em um primeiro momento, como um impulso de indignação para que a pessoa saia da situação de opressão.
 A partir daí, basta tomar as providências para sanar a questão, ou seja, se for caso de polícia, de justiça, de limite físico, de autoridade parental ou qualquer outra medida, que se faça, porque a impunidade não pode ser alimentada, jamais. Faça tudo e fique em paz.

A partir daí, todo trabalho pessoal que estiver ao alcance do indivíduo deve ser realizado, com amor e firmeza, de modo que a decisão de superar seja lá o que for seja mantida e sustentada. Não importa se trata-se de mágoa por um(a) amigo(a) que deixou de falar conosco sem explicações ou uma inaceitável violência doméstica. É preciso seguir em frente, viver “apesar de”. A sobrevivência emocional é um direito e uma responsabilidade pessoal.

Agora vem a parte difícil… Perdoar tudo isso, mas tudo isso mesmo. Perdoar a situação, as pessoas envolvidas, perdoar a você mesmo. Pois é, ocorre que todo perdão é um autoperdão. Você diante de você mesmo, encarando o fato de ter entrado na situação por conta própria, de ter ignorado os avisos de pessoas queridas, como pai, mãe ou amigos que avisaram sobre a tal pessoa, o tal emprego, a tal atitude que você vinha tomando, os riscos em que estava se colocando. É duro ter que assumir a própria parcela de responsabilidade em algo ruim, mas é o único caminho para uma mudança efetiva. 

Um pequeno parêntesis: violência contra crianças, adolescentes e idosos tem que ser repelida por adultos responsáveis e que se importem com eles. Na verdade, isso deveria ser feito por toda a sociedade. Portanto, nesses casos, o perdão apresenta- se como atitude positiva e agregadora para com essas pessoas em estado de vulnerabilidade, sem tratá-las como vítimas, mas, sim, com todo respeito e dignidade para que elas possam superar os fatos dolorosos e seguirem em frente com as suas vidas.

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Dito isso, geralmente, quando algo de ruim nos acontece, tendemos a atribuir a responsabilidade a alguém ou a uma situação específica desagradável, que nos deixou infelizes.
 Isso se chama transferência de responsabilidade e é muito comum em todas as fases do desenvolvimento humano. Temos dificuldade em assumir nossa parcela nos fatos da vida. É mais fácil acusar alguém pelos nossos infortúnios. Entretanto isso nos traz alguns prejuízos. O primeiro deles é que não enxergamos o quanto agimos de má vontade, má fé, com pouca gentileza, pouca competência e outras mazelas. Isso significa que não nos enxergamos como realmente somos, nem as qualidades nem os defeitos, porque se não somos capazes de perceber em que precisamos melhorar, não somos também competentes para avaliar as nossas reais conquistas e bons exemplos.

Quanto ao esquecimento da mágoa, diferentemente da religião, para a psicologia, perdoar não significa esquecer. Precisamos lembrar para não cairmos novamente na situação. É necessário elaborar a raiva para que ela não domine a pessoa, deixando-a refém de comportamentos automáticos de conflito e autodestruição. Lembrar para corrigir, não lembrar para remoer. A “remoença” envenena, não permite a escolha por uma atitude saudável. Lembrar corretamente, ou seja, procurando aquilo que pode ser aproveitado como lição de vida, amadurece e fortalece o indivíduo emocionalmente.

Não temos muito controle sobre os fatos da nossa experiência humana, mas temos controle sobre como vamos encará-los e ressignificá-los ao nosso favor. Isso é (sobre)viver.


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Sobre o autor

Leila de Sousa Aranha

Leila de Sousa Aranha

Sou psicóloga clínica, formada em Jornalismo e com Mestrado em Psicopatologia e Saúde, com o tema de pesquisa sobre o Perdão Interpessoal.
Atendo pessoas de todas as idades em consultório particular há 15 anos e gosto muito do ser humano, de acompanhar o seu desenvolvimento e auxiliar a melhor lidar com as situações de sua etapa de vida.

Sou divorciada e mãe de duas mulheres de 31 e 27 anos. Gosto de arte marcial e treino Aikido. Sou vegetariana, aprecio a natureza e os animais e gosto de encontrar meus amigos com frequência.

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