Comportamento

Socialização ou Associação forçada?

Mãe e filha no primeiro dia de escola, filha pequena chorando
Andreia Howell
Escrito por Andreia Howell

“A ação só tem significado no relacionamento, e sem entender o relacionamento, a ação em qualquer nível só gerará conflitos. A compreensão do relacionamento é infinitamente mais importante do que a busca de qualquer plano de ação. ” – J. Krishnamurti

Eu como questionadora das relações e mensagens que a sociedade envia e cobra dos seres humanos e o resultado que tudo isso causa, concluí que o que vem sendo cultivado e propagado claramente não está dando bons resultados em ambas as esferas, tanto individual quanto coletiva. Indivíduos desconectados consigo mesmo, relações familiares de má qualidade, alto índice de depressão, baixa autoestima, ansiedade, bullying, etc. E provavelmente assim como você, eu também tinha muitas dúvidas em como introduzir o meu filho ao mundo “social” que para mim estava longe de ser o que eu chamo de saudável, e para piorar o quadro da palavra “socialização” está rodeada de mitos, falsa interpretação e uma pitada de rentabilidade. Sim, o mercado lucra com o seu medo e insegurança, e a socialização é um dos aspectos (entre outros) que venho analisando através de muita leitura sobre desenvolvimento humano, pesquisando, observando meu filho, outras crianças, os adultos e a qualidade dos relacionamentos em geral.

Criança brincando na escola com avental e papeis coloridos pelo chão

Coloca na escola ou creche para socialização!?

O objetivo da socialização é desenvolver o sentimento coletivo da solidariedade e espírito de cooperação, é um processo continuo que só se encerra na morte, realizando-se através da comunicação, sendo inicialmente feito pela “imitação”.

Queremos construir uma sociedade competitiva ou uma sociedade colaborativa para os nossos filhos? Uma pergunta que todos devemos fazer e alinhar a resposta com nossas ações.

Virou algo comum ouvir a frase: “coloca na escolinha para socializar”, como se criar um ambiente restrito com crianças da mesma faixa etária que ainda estão desenvolvendo suas habilidades sociais e precisam de um modelo adequado, e de relacionamento um a um na maior parte do tempo, fosse um ambiente favorável para uma sociabilidade e saúde mental saudável.

“Provavelmente, o maior mito que evoluiu é a ideia de que socializar com pessoas [mesma idade] leva à socialização”

Dr Gordon Neufeld developmental psychologist

Existem muitos mitos e conceitos errôneos sobre a socialização na primeira infância, em especial nos primeiros anos de vida, justamente a fase que a base está sendo formada. Estes mitos iniciaram com a Revolução Industrial quando as fábricas precisavam de mão de obra e puderam então combinar duas vantagens, recrutar as mulheres para o mercado de trabalho enquanto preparavam as crianças para ser mão de obra no futuro através do sistema de escolarização, mas hoje o momento é outro, se houver interesse nesse tópico sugiro ler: “Desescolarização:um estilo de vida, uma jornada a ser trilhada”

Menino pequeno de óculos apoiado em mesa com livro aberto olhando para a foto

É preciso entender e olhar de forma diferente para essa questão – Socialização

Como muitas coisas na vida “mais” não necessariamente quer dizer “melhor”, e isso também se aplica a relacionamentos, onde qualidade é mais importante que quantidade. A necessidade mais profunda do ser humano é ser aceito na sua autenticidade e sentir-se conectado com outros seres, de preferência com aqueles que têm um lugar importante na sua vida.

As crianças aprendem a se relacionar assim como elas aprendem a comer, falar e andar, através da imitação.

As crianças imitam e emulam – Se queremos que nossos filhos aprendam a ser civilizados uns com os outros, então eles precisam estar na presença de alguém que já desenvolveu as habilidades de cortesia, empatia, compaixão, cooperação, negociação, habilidades para resolver conflitos e ludicidade. Isso não vai acontecer quando eles estiverem com crianças da mesma idade – você e eu sabemos disso em nossos próprios dias de escola. Se estamos colocando nossas crianças bebês em creches “para socialização”, não poderíamos estar mais equivocados, diz Pennie Brownlee em “Advocate for the Culture of Kindness in early childhood”

Criança pequena sentada em mesa da escola escrevendo em caderno

  • Apego e conexão – Além das crianças aprenderem através da imitação, a primeira infância é o momento de desenvolver e fortalecer a conexão, ter aconchego e entendimento do mundo ao seu redor e principalmente o apego à família. Ela deve ter seus sentimentos e necessidades validados em um espaço seguro para mostrar seus sentimentos e reações enquanto é acolhida.

Devemos então refletir e nos perguntar honestamente se uma creche ou “Jardim da Infância” oferece um ambiente ideal para esse desenvolvimento nessa fase crucial que é os primeiros anos de vida.

  • Adaptação x regressão – Quando uma criança ou bebê chora porque chega à creche ou jardim da infância, ela está deixando claro seus desejos e necessidades, de que ela não quer se separar de quem é o seu porto seguro. Ela se adapta após alguns dias? Sim, mas é uma adaptação forçada após uma descarga de cortisol, e como ela não tem opção, ela irá se “adaptar“ o que é diferente de se desenvolver.

Pais e colegas – Não confie nos colegas para sustentar a autoestima de uma criança

Os pais, familiares próximos ou cuidadores devem ser a principal figura com quem a criança desenvolve sua identidade, sociabilidade, autoestima. Aonde ela deve se sentir segura e aceita por quem ela é, e só assim ela terá a chance de se desenvolver como individuo único, com características e particularidades que fazem dela um individuo único e que poderá assim contribuir no âmbito social de maneira positiva, sentindo-se segura e com uma autoestima saudável, lembrando que uma pessoa com uma boa autoestima não sente necessidade de agredir, explorar ou enganar o outro para se sentir bem. Uma pessoa com uma boa saúde mental e uma autoestima saudável contribui para uma sociedade colaborativa.

Menino sentado no sofá lendo livro em preto e branco

Conclusão: Se você tiver o privilégio da opção, escolha ter seu filho por perto nos primeiros anos para ele poder correr para os seus braços, se sentir medo ou insegurança. Deixe ele sentir o seu apoio quando os sentimentos dele forem grandes demais para ele, que ainda está desenvolvendo as habilidades de autoregulação e muitas vezes ainda não tem o vocabulário refinado para se expressar (na maioria das vezes nós adultos não temos). Permita ele estar aonde ele pode ficar à vontade para ter domínio do próprio espaço e assim desenvolver a segurança e autonomia.

Na primeira infância, a base está sendo formada para definir como o seu filho irá perceber o mundo no decorrer da vida.

Para as famílias a qual a creche ou “Jardim da Infância” é uma necessidade, eu indico perguntar e observar pelo menos alguns aspectos básicos:

  • A instituição utiliza a Comunicação Não Violenta (CNV)?
  • Qual o número de adultos em relação ao número de crianças?
  • Eles ainda utilizam o “cantinho do pensamento” como forma de isolamento e punição ao invés de entender o que a criança está sentindo e tentando comunicar?
  • Existe atividades diariamente ao ar livre e conexão com a natureza?
  • Qual o espaço físico em relação ao número de crianças?

Apesar de a criança muitas vezes não conseguir verbalizar ou mesmo identificar o que sente, não quer dizer que ela não está sendo impactada com o que ocorre ao seu redor.

Fonte de pesquisa: “Hold on to your Kids” Why parents need to matter more than peers – Dr Gordon Neufeld e Dr Gabor Maté

Você pode gostar de outro texto da mesma autora. Acesse: “Criando filhos de forma consciente – Simplifique”

Sobre o autor

Andreia Howell

Andreia Howell

Meu nome é Andreia Howell, morei na Austrália e há 10 anos moro nos Estados Unidos com meu filho e marido onde prático uma vida Intencional através do Homeschooling/Unschooling, de uma alimentação simples e nutritiva (Plant-Based ) e tendo em mente o minimalismo em todos os aspectos da vida. Parentalidade Consciente é uma prioridade no meu dia a dia, o futuro não depende das crianças e sim dos pais dessas crianças. Graduada em Nutrição e Pós graduada em Segurança Alimentar. Apaixonada pelo Ballet Clássico, dei aulas no Brasil e Estados Unidos e hoje prático Ballet adulto.
Andreia é membro “The Alliance for Self-Directed Education”

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