Convivendo

Um bom observador é aquele que observa a si mesmo

Zil Camargo
Escrito por Zil Camargo

Não é incomum encontrar pessoas que dizem ser boas observadoras. Na maioria das vezes, o que se faz, na verdade, é reparar e não observar. Essas palavras em seu sentido filosófico não são necessariamente sinônimas.

A observação exige disposição. Reparar não.

Quando reparamos no outro, como a própria palavra diz, estamos percebendo, mas não necessariamente observando. Aqui reside um perigo quando nos pegamos corrigindo, ainda que mentalmente, uma condição, um comportamento ou uma situação em que o outro esteja inserido.

Esse tipo de censura do comportamento alheio anda de mãos dadas com alguns preconceitos que carregamos e há de se ter muito desprendimento e muita elevação para negar isso.

No entanto, é impossível observar o outro sem ressignificar em nós mesmos determinados padrões de percepção, aprendendo a decodificar nosso próprio comportamento e visão do mundo.

Não se deve confundir a observação de si com o “conhecer”. Temos conhecimento de que temos um sentimento, por exemplo, mas isso não significa que estejamos observando essa sensação, identificando sua origem ou até nossa responsabilidade sobre ela.

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A auto-observação é um meio de mudança, um ato de atenção dirigida para dentro de nós, para o que está acontecendo em nosso interior, uma força ativa que nos faz compreender nossas próprias reações em detrimento de certas ocasiões ou pessoas.

Quantas vezes já vimos alguém fazendo uma crítica sobre outra pessoa cujo comportamento é o mesmo que a própria pessoa costuma ter? Isso é fácil de reparar.

Perceber que nós mesmos cometemos esse engano vez ou outra não é fácil, mas isso é observar.

Há aqui uma pista importante. Alguém já disse que, “quanto mais Pedro fala de Paulo, mais eu conheço Pedro”.

É muito fácil compreender que, quando alguém começa a se observar seriamente, começa realmente a trabalhar sobre tudo o que carrega dentro de si ao se dividir em observador e observado.

Se essa divisão não acontecer naturalmente, esse processo não é possível, pois continuamos identificados com todos os nossos processos internos sem compreendê-los e reféns das circunstâncias. Permanecemos tão identificados com todos os nossos erros que perdemos por tal motivo a capacidade de distingui-los.

Compreendendo nossos condicionamentos e nossos hábitos, podemos transformá-los. É importante e nada simples, nesse processo, ser honesto consigo mesmo. Sair do piloto automático e começar a nos dar conta do que fazemos e por que fazemos determinadas coisas.

Com certeza, existem aspectos internos que não são fáceis de aceitar.

Na maior parte das vezes, nos consideramos melhores do que realmente somos, porém é necessário confrontar sentimentos desagradáveis para ajustá-los.

Quando nos olhamos e nos percebemos numa atitude egoísta, cruel ou com qualquer outro defeito, buscamos desculpas para sustentar nossas más ações ao invés de enfrentar a si mesmo em busca de um universo interno mais harmonioso.

Henry David Thoreau, escritor estadunidense e filósofo, disse: “É tão difícil observar a si mesmo quanto olhar para trás sem se voltar. ”

Mas penso que é um esforço necessário. É um processo que, como seres em formação que somos, nunca se acaba e se torna maior e mais intenso à medida que nos observamos impulsionando essa mudança e assim nos conhecemos ativa e reativamente sucessivas vezes.

Afinal, somos frutos de muitas vivências e valores que não precisam nos dominar, mas que, por medo de romper, continuamos aplicando em nossas vidas, e o novo sempre é assustador. No entanto, é através do novo que evoluímos.

Se formos capazes de abraçar essa evolução, teremos cada vez mais encontrado o segredo para uma vida mais harmoniosa e feliz.

Sobre o autor

Zil Camargo

Zil Camargo

Na diversidade de cada ser, é injusto com a vida, neste mar de experiência que ela concede, tentar nos definir assim, com meras palavras.

Mas dentro de mim mora alguém inspirada, sensível, às vezes curta ou grossa, ora dramática, ora objetiva.

Mãe, artesã, escritora amadora; consultora para ganhar a vida e interessada no comportamento humano.

Estudiosa de assuntos relacionados à psicanálise, filosofia e espiritualidade; uma aprendiz procurando desenvolver oportunidades em busca do bem viver.

Contato: [email protected]