Comportamento Convivendo Saúde Integral

Vamos falar sobre gordofobia?

Diariamente, a vida de uma pessoa gorda é um desafio. Menos por suas questões de saúde – que todas as pessoas têm – e mais pela dura discriminação que enfrentam, seja de colegas, seja de desconhecido, seja até mesmo de profissionais de saúde.

Muitos acreditam que o sofrimento dessas pessoas provenha tão somente de insultos avulsos na rua ou piadinhas de mau gosto – o que, por si só, já seriam terríveis e intoleráveis. Contudo, a verdade é que esse preconceito possui raízes muito mais complexas e profundas, além de consequências muito mais devastadoras do que se imagina. O nome disso é gordofobia.

Mas o que é gordofobia?

Gordofobia é uma palavra muito popular hoje em dia, porém por ser ainda um termo relativamente novo, muitas pessoas se confundem quanto ao seu significado. Em linhas gerais, é a discriminação estrutural contra pessoas gordas na sociedade.

Entretanto é importante frisar que, por mais que possa ter alguns pontos de intersecção, gordofobia não é a mesma coisa que pressão estética. Esta última é uma ramificação do patriarcado, que exige um padrão dos corpos, sobretudo dos femininos. Esse padrão, atualmente, seria o de uma mulher cisgênera, branca, magra, sem deficiência e com traços europeus.

A pressão estética é um assunto sério, porém a gordofobia ultrapassa essa definição. Isso porque pessoas gordas não são apenas consideradas pessoas indesejadas, mas literalmente exclusas da sociedade. Percebe-se esse fato ao notar que não se fabricam roupas de seu tamanho, cadeiras que sustentem seu peso, nem mesmo camas de hospital adequadas a elas. Ou seja, gordofobia é uma questão de acessibilidade. Por isso essa discussão é urgente e imprescindível.

E como é a gordofobia no dia a dia?

Uma pessoa magra dificilmente sabe como é verdadeiramente a rotina torturante de uma pessoa gorda. A maioria acredita que pouca coisa muda entre as duas realidades, entretanto a vida de uma pessoa gorda é bem mais solitária e desgostosa do que se imagina.

Mulher gorda de costas
Julia Larson / Pexels / Canva

Em primeiro lugar, dificilmente a pessoa gorda consegue sair de casa, sobretudo se não tiver condições financeiras para comprar o próprio carro. Afinal ônibus possuem catracas minúsculas e pouquíssimo espaço. Viajar de avião é ainda mais difícil: é necessário pagar por dois lugares (haja dinheiro!) e ainda aguentar olhares de desaprovação dos outros.

A pessoa gorda também não consegue se tratar com profissionais de saúde. Mesmo que cheguem ao pronto-socorro com uma mão sangrando, o médico de plantão provavelmente vai dizer que isso só ocorreu em razão de seu peso.

Além disso, poucos são os profissionais que realmente sabem lidar com a obesidade como uma questão de saúde. A maioria assume uma postura preconceituosa e trata o paciente obeso como um preguiçoso, não como alguém que necessita de ajuda.

Encontrar emprego também é difícil para quem é gordo. Ainda que seja proibido por lei, a maioria dos empregos oferecidos exigem a “boa aparência” – um termo muito amplo, mas que todos sabem o que significa: alguém branco e magro.

Nos relacionamentos, as pessoas gordas, sobretudo as mulheres, também sofrem. Isso porque é ensinado à população feminina que seu único valor é o de ser uma esposa. Contudo os filmes, as músicas, as revistas e os livros mostram que a mulher só é bonita e digna de ter um marido se for magra. Assim, as mulheres gordas aprendem que não possuem valor e aceitam permanecer em relacionamentos abusivos com muito mais facilidade. Enquanto isso, os homens também aprendem que têm o direito de tratar mal mulheres gordas e não se sentem culpados quando são completamente cruéis com elas.

Essas são apenas algumas das inúmeras situações cotidianas pelas quais as pessoas gordas passam. Com tudo o que enfrentam no seu dia a dia, não é para menos que se sintam solitárias e não queiram sair de casa. Desse modo, ficam ainda mais sedentárias e sem vontade de cuidar da saúde. Daí vem sua injusta fama de serem “preguiçosos”. Não é verdade: são apenas pessoas lutando contra a solidão e a exclusão social.

Frases gordofóbicas para não reproduzir mais

A gordofobia está tão enraizada em nossa sociedade que, muitas vezes, falamos coisas que parecem inofensivas, mas que são muito gordofóbicas e extremamente prejudiciais. Vamos conhecer algumas delas?

1. “Fiz uma gordice hoje!”

O que é exatamente “fazer uma gordice”? Pessoas gordas podem fazer literalmente tudo. Reduzir as pessoas gordas ao ato de comer, sobretudo alimentos calóricos, é extremamente gordofóbico.

2. Você é linda de rosto!”

Modelo Plus Size sorrindo
Jacob Lund / Canva

Falar que uma pessoa é linda “de rosto” é dizer, em outras palavras, que o corpo dela é feio. Como xingar o corpo de alguém pode ser elogio? Além disso, é necessário descontruir a ideia de que corpos gordos são necessariamente feios só porque são gordos. A beleza está em todos os tipos de corpos.

3. “Como você emagreceu! Está linda!”

Todo mundo gosta de ouvir que está linda, porém não relacione beleza à magreza. A pessoa está linda só porque está magra? Isso é gordofobia. Além disso, você não sabe se a pessoa queria ou não emagrecer. Muitas vezes você pode estar ativando um gatilho de transtorno alimentar ou outras doenças mentais, mesmo sem querer.

4. “Só me preocupo com a sua saúde!”

Será que você realmente se preocupa com a saúde da pessoa ou só está usando a saúde como desculpa para comentar sobre seu peso? Afinal você conhece o histórico médico completo dessa pessoa? Entende alguma coisa de medicina? Se não, melhor guardar o comentário para si.

5. “Você não é gorda, é fofa.”

Ser gordo é uma característica física, assim como alto e magro, loiro ou moreno. Portanto não há necessidade alguma de usar eufemismos. Ter medo de usar a palavra gordo é, de maneira sutil, acreditar que ser gordo é uma ofensa.

6. “Eu gosto de ter onde pegar.”

Muitos pensam que isso é um elogio às pessoas gordas, porém na verdade só objetifica o corpo das mulheres gordas, como se elas só tivessem valor se um homem gostasse delas. Mulheres gordas merecem respeito tanto quanto mulheres magras.

7. “Não diga que você é gorda, você é linda!”

Ser gorda não é sinônimo de ser feia. Uma pessoa pode, perfeitamente, ser linda e gorda ao mesmo tempo.

8. “Tem certeza de que você vai comer isso?”

Todas as pessoas adultas e com capacidades cognitivas intactas podem e devem ser responsáveis pelo que comem ou deixam de comer. É extremamente invasivo ficar controlando a alimentação de outra pessoa, sobretudo de uma pessoa gorda. Afinal você não sabe como é a saúde dela, portanto não tem direito de dar palpite.

9. “Não posso comer mais, senão vou ficar gorda!”

Não há nada de errado em parar de comer quando se está satisfeito, porém se negar alimento só porque não quer engordar, sobretudo se você já é uma pessoa magra, indica uma gordofobia enraizada. Afinal por que seria um problema ficar gorda?

10. “Além de tudo, isso vai ajudar você a emagrecer!”

Dar dicas de emagrecimento sem que alguém tenha pedido é gordofobia. Nem todo mundo quer emagrecer. Achar que essa é uma vontade de todas as pessoas é completamente equivocado.

Mitos e fatos sobre a obesidade

Mulher gorda fazendo exercícios
nomadsoulphotos / Canva

1. “É só fechar a boca que emagrece!” MITO

O corpo humano é muito mais complexo do que parece. Existem vários fatores emocionais, culturais e até hormonais que interferem no metabolismo de alguém. Portanto, para emagrecer, são necessários acompanhamento de diversos profissionais de saúde e muita dedicação.

2. “Gordos não podem fazer atividade física!” MITO

Qualquer pessoa pode fazer atividade física. A gordura em si não impede ninguém de se exercitar. O sedentarismo pode fazer com que a pessoa se canse com mais facilidade, mas isso logo passa. Entretanto sendo magro ou gordo é sempre bom ter o acompanhamento de um professional de educação física.

3. “Todo gordo é doente!” MITO

Não há nada que indique que a gordura subcutânea prejudique a saúde de alguém. O que deixa alguém doente é a má alimentação e falta de atividade física. E a genética pode fazer com que uma pessoa saudável seja gorda e uma pessoa não saudável seja magra. Por isso, para determinar a saúde de alguém, é necessário fazer uma avaliação profissional.

4. “Pessoas famintas também podem ser obesas.” VERDADE

As pessoas geralmente associam a obesidade a comida em excesso. Entretanto o quadro de fome extrema também pode ser um fator de risco para obesidade e comunidades muito carentes geralmente sofrem desse problema. Isso acontece porque alimentos ultraprocessados são, geralmente, mais baratos.

5. “Só é gordo quem quer.” MITO

Se fosse assim, ninguém seria gordo, afinal ninguém quer sofrer gordofobia. Entretanto ser gordo depende de uma série de fatores, e poucos deles têm a ver com o controle da própria pessoa. Esses fatores podem ser ambientais, genéticos ou culturais.

Modelos e influenciadoras gordas para acompanhar

Que tal conferir perfis bacanas que discutam antigordofobia? Confiram alguns a seguir:

1. Ellen Valias (Instagram: @atleta_de_peso)

Ellen é estudante de educação física, atleta e comentarista do NBA Brasil. Em seu perfil, demonstra como pessoas gordas também podem e devem se movimentar como bem entenderem.

2. Flavia Durante (Instagram: @flaviadurante)

Flávia é jornalista e conhecida por promover feiras de moda plus size. Em seu perfil, além de falar sobre seu dia a dia, comenta sobre moda para pessoas gordas, arte, entre outros assuntos.

3. Thamiris Rezende (Instagram: @foradosrotulos)

Thamiris é jornalista e possui um podcast chamado “Gordacast”, onde fala sobre a militância antigordofobia. Seu perfil no Instagram também é sempre atualizado para trazer de volta a autoestima de pessoas gordas.

4. Andressa Osako (Instagram: @andressaosako)

Andressa é estudante de letras e professora. Seu conteúdo é amigável e pessoal, voltado para reconstruir a autoaceitação de pessoas gordas.

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A desconstrução é um caminho que leva tempo, mas é imprescindível para um mundo melhor. Agora que você já tem todas as informações sobre gordofobia na sua mão, tente ao máximo não reproduzir esse preconceito. Para ajudar ainda mais a causa, que tal enviar este artigo para um amigo ou uma amiga? Vamos fazer nossa parte para tornar este país um lugar inclusivo a todas as pessoas!

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