No calendário, o dia 8 de março surge como um marco. Mas, na vida real, ele não cabe em uma data. As mulheres estão presentes em todos os dias, em todas as horas, sustentando, muitas vezes em silêncio, os alicerces do mundo. O Dia Internacional da Mulher não é apenas celebração: é memória, é denúncia, é esperança. É um chamado ao autocuidado de quem sempre cuidou e um alerta para que os homens aprendam a reconhecer, valorizar e honrar a presença feminina, construindo relações mais pacíficas, cordiais e humanas.
Na Amazônia, esse dia ganha outros contornos. Aqui, a mulher carrega nas mãos o peso da floresta e, no coração, a sabedoria ancestral. A mulher cabocla, indígena e ribeirinha não apenas vive o território: ela o protege, o compreende e o transforma. Sua liderança nasce do cotidiano, do gesto simples, do olhar atento para a vida que pulsa nas feiras, nos mercados, nos rios, nas matas, nas comunidades. São mulheres que conduzem canoas e destinos, que semeiam esperança, que educam com a palavra e com o exemplo, que resistem ao abandono e às distâncias impostas pela geografia e pela negligência social.
Mas quem cuida também precisa ser cuidada. Durante séculos, as mulheres foram ensinadas a doar-se por inteiro, esquecendo-se de si mesmas. O autocuidado, hoje, surge como um ato político, um gesto de afirmação da própria dignidade. Cuidar de si é reconhecer o próprio valor, estabelecer limites, preservar a saúde emocional, física e espiritual. Não se trata de egoísmo, mas de sobrevivência e equilíbrio. Uma mulher que se cuida ensina outras a fazerem o mesmo.
Sobre o autocuidado feminino, vale destacar, a título de exemplo, o trabalho sensível e humanizado da enfermeira integrativa Idehize Furtado, à frente do projeto Aconchegoterapia (https://www.instagram.com/aconchegoterapia/), que propõe práticas terapêuticas voltadas ao bem-estar físico, emocional e espiritual da mulher, resgatando o cuidado como gesto de acolhimento, escuta e reconexão consigo mesma.
Para além do cuidado individual, emerge a potência do cuidado compartilhado. A solidariedade feminina, por sua vez, nasce como ponte sobre abismos históricos. É o gesto que substitui a competição pela cooperação, o julgamento pelo acolhimento, o silêncio pela escuta. Entre mulheres, a força se multiplica. Cada história compartilhada transforma-se em aprendizado coletivo. Cada conquista individual torna-se vitória comum. Na Amazônia, essa união é visível nas redes de apoio, nos movimentos comunitários, nas lideranças femininas que emergem dos becos, das palafitas, das aldeias, das margens dos rios.
E é justamente daí que brotam novos modelos de liderança. Não mais baseados apenas na imposição ou no poder hierárquico, mas na empatia, no diálogo, na construção conjunta. A mulher amazônica lidera porque conhece as dores do seu povo, porque vive suas urgências, porque compreende suas necessidades. Sua autoridade nasce da proximidade, da escuta, da partilha. É uma liderança que não oprime: liberta.
Neste 8 de março, mais do que flores, que se ofereça respeito. Mais do que homenagens, que se cultive dignidade. Que cada mulher seja reconhecida não apenas pelo que faz, mas pelo que é: presença indispensável, força transformadora, poesia viva do mundo. E que a Amazônia, em sua imensidão, continue sendo testemunha da coragem silenciosa dessas mulheres que, dia após dia, reinventam a vida às margens dos rios, nos lares, nas fábricas, nas escolas, nos escritórios, no coração da floresta e na alma do Brasil.
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Viva as mulheres! Viva Cristina Ramiro, viva Carolina Maria de Jesus, viva Zilda Arns, viva Raimunda Matias de Lemos, viva Violeta Branca Menescal de Vasconcelos, viva Eneida de Moraes, viva Nísia Floresta, viva todas aquelas que, com coragem, ternura e resistência, transformam o mundo em um lugar mais justo, humano e possível.
