Autoconhecimento Comportamento Relacionamentos

Quem fala do outro

Imagem de um espelho no chão de um jardim, rodeado de margaridas. A foto traz o conceito de conhecimento interior, autoconhecimento e reflexão interior.
Lukáš Dlutko / Pexels / Canva
Escrito por Fernanda Colli

Falar sobre o outro também revela quem somos. Nossas palavras carregam valores, experiências e feridas, mostrando como lidamos com diferenças, julgamentos e conflitos. Observar a maneira como falamos pode ser um exercício profundo de autoconhecimento.

Há uma frase simples, mas que merece ser pensada com cuidado: quando falamos do outro, também falamos de nós mesmos.
Isso porque ninguém observa o mundo de um lugar completamente neutro.

Quando contamos uma história, julgamos uma atitude, criticamos uma escolha ou descrevemos alguém, colocamos nessa narrativa um pouco daquilo que somos.

Nossas experiências, valores, frustrações, expectativas e até nossas próprias feridas participam da maneira como enxergamos as pessoas.

Duas pessoas podem presenciar exatamente a mesma situação e sair dela contando histórias completamente diferentes. Não necessariamente porque uma esteja mentindo, mas porque cada uma olha a realidade através das lentes que construiu ao longo da vida. Talvez por isso seja tão importante observar não apenas o que alguém diz sobre outra pessoa, mas principalmente como diz.

Quem precisa diminuir constantemente as conquistas alheias talvez revele sua dificuldade em reconhecer o brilho que não lhe pertence. Quem transforma toda divergência em ataque demonstra como lida com o contraditório. Quem espalha histórias sem conhecer todos os lados mostra o valor que atribui à responsabilidade sobre a palavra. Da mesma forma, quem consegue reconhecer qualidades mesmo em alguém de quem discorda também revela muito sobre si.

A palavra é uma espécie de espelho. E esse espelho se torna ainda mais evidente quando falar do outro vira hábito.

Há pessoas que constroem vínculos contando defeitos de terceiros. Aproximam-se de alguém pela crítica compartilhada, alimentam conversas por meio da exposição e fazem da vida alheia matéria-prima para sustentar relações. O problema é que vínculos construídos dessa maneira carregam uma fragilidade inevitável: quem hoje participa da conversa amanhã poderá ser o assunto dela.

Por isso, maturidade também significa compreender que nem tudo o que sabemos precisa ser contado, nem tudo o que pensamos precisa ser anunciado e nem toda versão que chega até nós merece ser repetida.

Isso não significa silenciar diante de injustiças ou deixar de fazer críticas necessárias. Existem momentos em que falar é responsabilidade. Denunciar, questionar e posicionar-se são atitudes fundamentais em qualquer sociedade. A diferença está entre a crítica que busca compreender ou transformar uma realidade e aquela que existe apenas para ferir, diminuir ou destruir uma reputação.

Também precisamos aprender a desconfiar das histórias excessivamente simples, especialmente daquelas em que existe sempre um santo e um vilão. Relações humanas raramente cabem nessa divisão.

Quando ouvimos apenas uma versão, ouvimos necessariamente um recorte. Existem contextos que desconhecemos, conversas das quais não participamos, sentimentos que não testemunhamos e acontecimentos que podem ter sido percebidos de maneiras diferentes.

Antes de condenar alguém pela narrativa que recebemos, portanto, talvez seja prudente perguntar: eu conheço os fatos ou conheço apenas a maneira como alguém decidiu contá-los? Há uma enorme diferença.

Com o tempo, aprendemos também que não precisamos responder a tudo o que dizem sobre nós. Existe uma liberdade muito particular em abandonar a necessidade de controlar a versão que cada pessoa constrói a nosso respeito.

Imagem conceitual de uma pessoa diante de um espelho ou contemplando o próprio reflexo, trazendo o conceito de autoconhecimento.
Huy Nguyễn / Pexels / Canva

Algumas pessoas nos conhecerão pela convivência. Outras, pelo que ouviram. Algumas compreenderão nossa trajetória. Outras escolherão um fragmento dela. E haverá aquelas que precisarão nos transformar em personagens convenientes para justificar suas próprias histórias.

Não temos domínio sobre isso. Temos domínio sobre aquilo que fazemos. Talvez a resposta mais consistente para determinadas palavras não seja outra palavra, mas uma trajetória. O tempo possui uma maneira silenciosa de separar discursos de comportamentos, versões de fatos e aparências de permanências.

No final, aquilo que falamos sobre alguém pode até atingir essa pessoa por algum tempo. Mas permanece conosco por muito mais.
Porque nossas palavras deixam rastros de nossa maneira de enxergar o mundo, de tratar quem não está presente, de enfrentar diferenças e de administrar nossas próprias insatisfações.

Por isso, antes de falar sobre alguém, talvez valha uma pergunta muito mais incômoda do que “o que essa pessoa fez?”: O que a maneira como estou falando dela revela sobre mim? Talvez seja justamente aí que comece uma das formas mais difíceis e mais necessárias de autoconhecimento.

  • Fernanda Colli

    Fernanda Colli

    Arte, Cultura, Educação
    [email protected]@fernandacollioficialfernandacollioficial

    Fernanda Colli é pedagoga, arte-educadora, escritora e pesquisadora da cultura popular brasileira, com atuação destacada na valorização das tradições caipiras. Especialista em Arte Educação, folclore e cultura popular, desenvolve projetos socioculturais voltados à inclusão, à identidade e ao pertencimento, especialmente em contextos escolares.

    Idealizadora do Projeto Folclorear, atua na inserção de manifestações tradicionais, como a catira, no ambiente educacional, promovendo o diálogo entre saberes populares e práticas pedagógicas contemporâneas. Coordenadora de projetos no Centro de Tradições de Araçatuba e integrante de grupo de pesquisa na área cultural, também exerce papel de liderança como presidente da comissão infantopedagógica da IOV Brasil.

    Como colunista, Fernanda escreve sobre cultura popular, educação, arte e identidade, trazendo reflexões sensíveis e críticas sobre a importância da memória, das tradições e da formação cultural na sociedade atual. Sua escrita se caracteriza pela defesa da cultura como instrumento de transformação social e fortalecimento das raízes coletivas.