Depois da minha última sessão de terapia, um dos temas que ficou comigo foi a permissão.
Essa palavra me pegou de um jeito que passei os dias seguintes refletindo sobre ela.
Dar-me a permissão de dizer sim ou não. De poder receber ou doar. De poder simplesmente estar comigo e me abraçar.
Durante muito tempo, para mim, permissão era algo que eu recebia de outra pessoa. Como um passe concedido para que eu pudesse exercer meu direito de ser.
O mais interessante é que passei muito tempo oferecendo permissão às pessoas, mas pouco olhando para mim.
Que coisa. É mais fácil entregar algo ao outro do que oferecer a nós mesmos.
Ainda estou na jornada de autoconhecimento, mas observo o quanto pode ser mais fácil ajudar do que pedir ajuda, validar do que se valorizar.
E comecei a perceber quantas coisas eu também gostaria de me permitir.
Eu me permito ser feliz.
Eu me permito dizer não.
Eu me permito me escolher.
Eu me permito receber.
Eu me permito vivenciar coisas novas.
Não porque sei que darão certo. Não porque sei que serão boas ou ruins. Mas porque posso me permitir tentar.
Foi então que pensei em uma caixinha escondida no armário.
Para acessá-la, durante muito tempo, parecia que eu precisava de alguma validação, algum conhecimento ou alguma confirmação que me permitisse chegar um pouco mais perto dela.
Quando comecei a acessá-la, percebi que ali não havia somente coisas boas.
Havia partes de mim que eu gostava. Outras que ainda me causavam desconforto. Havia lembranças, experiências, desejos, medos e diferentes versões de quem fui, de quem desejei ser e de quem ainda estou me tornando.
Talvez aquela caixinha nunca tenha guardado apenas uma coisa. Talvez ela guardasse a minha própria história.
Por muito tempo, minha busca por conhecimento me levou a lugares incríveis. Conheci pessoas, vivi experiências e descobri coisas que foram importantes para mim.
Mas ainda faltava algo.
Sempre parecia faltar algo.
Havia um vazio que eu acreditava poder preencher com mais uma busca, mais um conhecimento, mais uma descoberta.
Um looping de uma busca que nunca terminava.
Até que comecei a perceber que talvez eu não precisasse encontrar algo novo para preencher aquele espaço.
Talvez precisasse apenas olhar para aquilo que já estava ali.
Um cachorro. Uma camiseta da minha banda favorita. Um sino dos ventos. Uma cama. Um cobertor.
Coisas simples.
Coisas que sempre estiveram comigo e que, por vezes, eu não percebia.
Quando comecei a acessar essa caixinha de permissão, também comecei a perceber que já havia muito em mim para viver.
Isso não significa que deixarei de me desenvolver, crescer ou aprender.
Quero continuar.
Mas talvez exista uma diferença entre crescer porque tenho curiosidade sobre quem posso ser e crescer porque acredito que quem sou hoje não é suficiente.
Hoje, começo a perceber essa diferença.
Permito-me ser imperfeito.
Permito-me estar quebrado.
Permito-me ser claro e escuro ao mesmo tempo.
Permito-me ser ansioso e alegre.
Permito-me rir.
Permito-me chorar.
Permito-me dizer sim.
Permito-me dizer não.
Permito-me ser o Dênis Marcelo que, por algum motivo, um dia guardei dentro daquela caixinha, no canto mais alto e escuro do meu armário.
E talvez abrir essa caixinha não seja encontrar uma versão melhor de mim.
Talvez seja apenas conseguir olhar para tudo aquilo que existe ali e dizer:
Eu te vejo.
Eu te aceito.
E eu te libero.
Não acredito mais que precise encontrar o caminho perfeito antes de começar a caminhar.
Forçar, cobrar e comparar, para mim, não ajudaram. Muitas vezes, fizeram com que eu me afastasse ainda mais daquilo que precisava olhar.
Hoje, tento fazer diferente.
Posso não saber se uma escolha dará certo.
Posso não saber se uma experiência será boa ou ruim.
Posso não saber onde determinado caminho irá me levar.
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Mas posso me permitir vivê-lo.
O mundo lá fora continua sendo o mesmo.
A diferença talvez esteja no modo como agora consigo estar nele.
Posso rir.
Posso chorar.
Posso abraçar.
Posso dizer não.
Posso receber.
Posso escolher.
Posso simplesmente estar.
O agora é o único lugar em que posso viver.
O restante ainda não aconteceu.
E talvez essa seja uma das maiores permissões que comecei a me dar: viver a minha própria história sem precisar esperar me tornar alguém diferente para começar a ser quem sou.
E você, tem se dado a permissão de viver?
