Autoconhecimento Convivendo

A Escassez

Peças de xadrez, uma rainha preta caída e um rei branca em pé
Oscar José
Escrito por Oscar José

Para mim e para muitos de nós, o primeiro pensamento do dia, ainda na cama, é: “Não dormi o suficiente.” O segundo é: “Não tenho tempo suficiente.” Esse pensamento de não suficiência vem a nós automaticamente, antes mesmo de podermos nos dar conta de sua presença ou examiná-lo.

Passamos a maior parte de nossas vidas ouvindo, explicando, reclamando ou nos preocupando com o que não temos em quantidade ou grau suficiente. (…)

Antes de nos sentarmos na cama, antes de nossos pés tocarem o chão, já nos sentimos inadequados, já ficamos para trás, já perdemos, já damos falta de alguma coisa. E quando voltamos para a cama à noite, nossa mente recita uma ladainha de coisas que não conseguimos ou não fazemos naquele dia.

Vamos dormir com o peso desses pensamentos e despertamos para lamentar mais faltas. (…)

Essa situação interna de escassez, ou seja, essa tendência mental à escassez, habita no âmago do ciúme, da cobiça, do preconceito e de nossas interações com a vida.

A escassez, portanto, é o problema de nunca ser ou ter o bastante. Ela triunfa em uma sociedade onde todos estão extremamente conscientes da falta. Tudo, de segurança e amor até dinheiro e recursos, passa por uma sensação de inadequação ou falta. Gastamos muito tempo calculando quanto temos, não temos, queremos ou poderemos ter e quanto todos os outros têm, precisam e querem ter.

Visão de frente de um homem de negócios parando peças de dominós que estão caindo com a mão

O que torna essa avaliação constante tão desoladora é que, quase sempre, comparamos nossa vida, nosso casamento, nossa família e nosso trabalho com a visão de perfeição inatingível, propagada pela mídia, ou então comparamos nossa realidade com a visão ficcional de quanto alguém próximo de nós já conquistou.

A nostalgia do passado também é uma forma perigosa de comparação. Repare com que frequência você compara a sua vida atual com uma lembrança de bem-estar que a nostalgia editou em sua mente, mas que nunca existiu de verdade: “Lembra-se de quando…? Ah, bons tempos!”

A FONTE DA ESCASSEZ

A escassez não se instala numa cultura da noite para o dia. O sentimento de falta e privação floresce em sociedades com tendência à vergonha e à humilhação e que estejam profundamente enraizadas na comparação e despedaçadas pela desmotivação. (Quando menciono uma cultura com tendência à vergonha não quero dizer que tenhamos vergonha de nossa identidade coletiva, mas que há muitos entre nós sofrendo com a questão da desvalorização que vem modelando a sociedade.)

O mundo nunca esteve numa situação tranquila, mas a década passada foi tão traumática para muitas pessoas que isso chegou a causar mudanças em nossa sociedade. Passamos pelo 11 de setembro, por várias guerras, recessão, assassinatos em escolas, desastres naturais de enormes proporções, dentre outras calamidades.

Testemunhamos tantos acontecimentos que vêm dilacerando nossa sensação de segurança que nós os vivenciamos como traumas pessoais, mesmo sem estarmos envolvidos neles diretamente.

E quando se trata do número enorme de desempregados e subempregados em diversas partes do mundo, é como se todos tivéssemos sido diretamente afetados ou fôssemos próximos de alguém que passou ou esteja passando por isso.

A preocupação com a escassez é a versão da nossa cultura para o estresse pós-traumático.

Ela surge depois que estivemos no limite por muito tempo e, em vez de nos unirmos para resolver o problema (o que requer vulnerabilidade), ficamos zangados e assustados.

Homem cansado com a testa apoiada em seu laptop

Não é apenas a sociedade mais ampla que está sofrendo.

Encontrei as mesmas dinâmicas de isolamento e raiva nas microssociedades da família, do trabalho, da escola e da comunidade. E todas elas compartilham a mesma fórmula de vergonha, comparação e desmotivação. A escassez encontra terreno fértil nessas condições e as perpetua, até que uma massa crítica de pessoas começa a fazer escolhas diferentes e a remodelar os contextos menores a que pertence.

Um modo de pensar sobre os três componentes da fórmula da escassez e a maneira como eles influenciam a sociedade é refletir sobre as questões a seguir.

Enquanto estiver lendo as perguntas, tenha em mente todos os ambientes ou sistemas sociais dos quais você faz parte, seja em sala de aula, em família, na comunidade ou talvez em sua própria equipe de trabalho:

1. Vergonha

O medo do ridículo e a depreciação são usados para controlar as pessoas e mantê-las na linha? Apontar culpados é uma prática comum? O valor de alguém está ligado ao sucesso, à produtividade ou à obediência? Humilhações e linguagem abusiva são frequentes? E quanto ao favoritismo? O perfeccionismo é uma realidade?

2. Comparação

A competição saudável pode ser benéfica, mas há comparação e disputa o tempo todo, velada ou abertamente? A criatividade tem sido sufocada? As pessoas são condenadas a padrões estreitos em vez de serem valorizadas por suas contribuições e talentos específicos? Há um modo ideal de ser ou um tipo de habilidade usado como medida de valor para todos?

3. Desmotivação

As pessoas estão com medo de correr riscos ou tentar coisas novas? É mais fácil ficar quieto do que compartilhar ideias, histórias e experiências? A impressão geral é de que ninguém está realmente prestando atenção ou escutando? Todos estão se esforçando para serem vistos e ouvidos?

Quando vejo essas perguntas e penso sobre a nossa macrossociedade, a mídia e o panorama social, econômico e político, minhas respostas são sim, sim e sim!

Quando penso na família, sei que essas são as questões exatas que se tenta superar todos os dias. Uso a palavra superar porque desenvolver um relacionamento, criar uma família, implantar uma cultura organizacional, administrar uma escola ou promover uma comunidade religiosa, de um jeito que seja fundamentalmente oposto às normas sociais governadas pela escassez, exige consciência, compromisso e muito trabalho – todos os dias.

A macrossociedade está sempre exercendo pressão sobre nós e, a não ser que tenhamos vontade de recuar e decidir lutar pelo que acreditamos, o estado permanente de escassez se torna o modus operandi.

Somos convocados a viver com ousadia cada vez que fazemos escolhas que desabam o ambiente social de escassez.

O oposto de viver em escassez não é cultivar o excesso. Na verdade, excesso e escassez são dois lados da mesma moeda. O oposto da escassez é o suficiente, ou o que chamo de plenitude. Em sua essência, é a vulnerabilidade: enfrentar a incerteza, a exposição e os riscos emocionais sabendo que eu sou o bastante.

Se você retornar aos três blocos de perguntas sobre escassez e se perguntar se desejaria ficar vulnerável em algum contexto definido por aqueles valores, a resposta para a maioria de nós é um sonoro “não”.

Se você se perguntar se essas condições o levam a desenvolver o amor-próprio e a autovalorização, a resposta é “não”, mais uma vez.

Os elementos mais raros em uma sociedade da escassez são a disposição para assumir nossa vulnerabilidade e a capacidade de abraçar o mundo a partir da autovalorização e do merecimento.

Já estamos cansados de sentir medo.

Todos queremos ser corajosos.

Nós queremos viver com ousadia.

Estamos fartos do discurso geral que insiste em perguntar constantemente:

“O que devemos temer?”

“A quem devemos culpar?”.

Lynne Twist em seu livro The Soul of Money (A Alma do Dinheiro).


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Sobre o autor

Oscar José

Oscar José

Sou o Oscar Port.

Escrevo sobre espiritualidade.

Embora não tenha feito cursos a respeito do tema, procuro desenvolver o assunto com muita sensibilidade, sempre transmitindo muito amor e emoção, algo que as pessoas muito precisam nos dias de hoje.

Graduado pela Universidade Federal de Santa Maria no Rio Grande do Sul, como Engenheiro Mecânico.

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