Convivendo

A idade certa para a maturidade

Sol Felix
Escrito por Sol Felix

Ela sai do metrô, ajeita a blusinha de renda e cumprimenta com um sorriso e um “bom dia” todos que cruzam o seu caminho até a entrada do prédio. Nessa hora da manhã, não tem tanta gente assim.

Na entrada do edifício, suspira. Cumprimenta o porteiro com um meio sorriso e aproveita para tomar um gole do café de ontem torcendo para que ainda esteja morno. Recua para olhar o céu. Seja dia ou noite, Marina tem mania de olhar para o céu. Não acredita em discos voadores, mas sempre tem a impressão de que o céu se revelará ou que algo magnífico acontecerá no alto! Não foi desta vez. Entretanto, repara que no banco próximo à saída há um caderno artesanal com um marcador infantil em uma página qualquer, e no chão há uma Bic azul que se movimenta pra lá e pra cá com o vento antiético desta Primavera.

“Não é da minha conta”, conclui. E retoma seu trajeto rumo ao 4º andar. Marina completou 45 anos na última sexta-feira e como presente de aniversário inesquecível, decidiu presentear-se com a “maturidade” e, portanto, aquela foi sua última balada, sua última dose de tequila, seu último primeiro beijo em uma boca nova. Trocou o pink pelo bege e só pretende ouvir MPB. Agora, ela é uma mulher que faz planos de médio e longo prazo. Marina finalmente cresceu.

Ressuscitou uma agenda que ganhou de alguma ex-namorada. Capa de couro preta, linda. Chegou o momento de usá-la e listou todas as mudanças para transformá-la em uma pessoa melhor e realmente adulta.

Chovia. Enquanto tomava um café quente e fresco, listou 10 itens essenciais da maturidade, em ordem decrescente.

O item de número 4 é: “Me manter próxima a pessoas melhores do que eu”.

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Marina havia conhecido esta expressão em alguma palestra motivacional e, desde então, cansou de encontrá-la em livros, palestras e pela boca de um e outro.

Intrigada, estudou atentamente todas as pessoas próximas a ela. Analisou seus amigos do passado e do presente e vislumbrou como poderiam ser seus amigos futuros. Relembrou todos os relacionamentos afetivos que já teve.

Pensou no tio do boteco com quem compra 1 café e 1 pão de queijo todo dia e, de brinde, ouve as piadas mais sacanas e que a fazem ter espasmos de risos aleatórios no decorrer do dia no trabalho, no ônibus e na rua.

Lembrou da sua cabeleireira que dá dicas malucas de sedução e que a ensinou a cuidar (com sucesso inacreditável) dos cabelos com produtos baratos que todos possuem na cozinha.

Sua melhor amiga largou os estudos no ensino médio e, posteriormente, largou todo o resto para morar na praia e sempre está presente nos momentos em que Marina necessita de um porto seguro.

Lembrou que possui os mesmos vizinhos há mais de 20 anos e que eles são uma extensão de sua família, já que em sua casa todos falam tão alto que é possível ouvir facilmente tudo o que conversam 3 casas acima, abaixo e a frente (graças a Deus, o fundo é murado).

Com certo pesar, concluiu que jamais será uma lady, já que ela própria herdou os mesmos hábitos de se expressar com muita intensidade.

Descontente, Marina respirou fundo e olhou para o teto meio branco, meio lilás.  

Em seu olhar triste, não se sabia se lamentava pelo tempo que perdeu não aproveitando adequadamente as possibilidades das relações ou se sentia a dor por ter que abrir mão de tantas pessoas que conheceu displicentemente ao longo de seus 45 anos.

Recordou o quanto é divertido quando todos se juntam e começam a rir e, de repente, começam a discutir, e depois a rir novamente. Riu.

Marina repetiu o café, desta vez, amargo. Ela tentava entender o que de fato significa “pessoas melhores que outras pessoas”. Como não chegou em uma resposta satisfatória, decidiu riscar o item da lista, mas a caneta não pegou.

“Onde está a minha Bic azul que nunca falha?”

Sobre o autor

Sol Felix

Sol Felix

Atriz formada pela Fundação das Artes de São Caetano do Sul e Designer Gráfico (Universidade Paulista). Nesta vida, resido em São Paulo desde sempre. Não sou viciada em tecnologia e amo chocolate amargo. Acredito, de forma encantada, que o ser humano é, por excelência, Arte e Artista.