Autoconhecimento Psicanálise

Maturidade e vida adulta: sinônimos?

Quando atingimos a maturidade? Será que é quando nos tornarmos adultos? Como age uma pessoa imatura?

Uma pessoa imatura é incapaz de aceitar o que lhe é diferente; fica incomodada ao receber um “não” como resposta; ao ser contrariada, agride com atos ou palavras; e exige que os outros têm de aceitá-la como ela é. Aliás, isto nos faz lembrar da pessoa adulta que ela é ou de uma criança birrenta?

Vejamos. Pelo dicionário Aurélio a definição de “birra” é:

  • 1. Insistência numa mesma ideia ou comportamento;
  • 2. Comportamento ou reação exagerada e sem motivação racional, geralmente originada por um capricho ou uma contrariedade;
  • 3. Estado de irritação ou mau humor;
  • 4. Antipatia ou implicância em relação a algo ou alguém;
  • 5. Quebra de boas relações

Parece-nos, então, que para ser maduro não basta crescer e se tornar adulto; precisa amadurecer as emoções da criança interna. Quanto mais estamos próximos à nossa criança interior imatura, maior nossa incapacidade de estar no papel do adulto. Quanto mais nos centramos em nós mesmos, mais ficamos intolerantes.

Imaginemos então uma criança. Ela, ao nascer, é puro desejo. Para Freud, o bebê não é capaz de ter um objeto de amor exterior a ele. Mergulhado no que chama de “narcisismo primário”, o recém-nascido tem somente a si como objeto de amor. Ele ainda não possui a noção do Eu (veja o texto “Crianças que dormem com os pais: a quentinha e perigosa cama da mamãe”), e é por meio das relações humanas que ele começa o caminho da construção de sua individualidade e a da capacidade de amar. Mas este caminho é longo… e neste processo podem ocorrer alguns percalços. A grosso modo, excessos de afeto na história desta criança (ou a precariedade dele) podem dificultar em muito a formação da personalidade madura, principalmente porque esta pessoa terá uma dificuldade grande em ser ponderada. Neste caso, o outro sempre é visto como aquele que ali está para dar – e ele para receber.

shutterstock_233286823-2A necessidade do receber constante nos aproxima do nosso lado egocêntrico. O teólogo Leonardo Boff, em seu artigo “A intolerância no Brasil atual e no mundo”, mostra que nós vivemos sob a égide de duas polaridades: das luzes e das sombras. Sendo assim, nós podemos entender que todos carregamos qualidades e imperfeições. Entendendo deste modo, seria mais fácil conviver com as diferenças e sermos mais maduros. Para o teólogo, ser tolerante é quando “impõe-se optar pelo pólo luminoso e manter sob controle o sombrio”.

Manter-se no pólo sombrio é fazer uma escolha pelo sofrimento, pois o outro nunca vai suprir todos os seus desejos. Manter-se neste pólo é uma opção por permanecer na imaturidade emocional da criança (lembram do “narcisismo primário”?). E optar pelo pólo luminoso é procurar o caminho da compreensão, do dar, do amor; é a diminuição do foco em nós mesmos, é a maturidade.

É muito comum ouvirmos, na clínica, as pessoas se queixando do quanto não são compreendidas, do quanto não são ouvidas, do quanto  não recebem dos outros… e, ao perceber-se de lado e abandonada, a pessoa rebela-se ou se deprime.

Está dado o exercício: a cada dia mergulhar na reflexão do quanto eu espero dos outros e do quanto eu ofereço gratuitamente, sem esperar nada em troca. Por quanto tempo ainda eu vou bater os pezinhos? Quanto eu estou empenhado na minha reforma interior? Para Mahatma Gandhi “a única revolução possível é dentro de nós”. Comecemos agora.

Sobre o autor

Tânia Regina Baptista

Tânia Regina Baptista

Psicanalista, é graduada em Fonoaudiologia clínica há 24 anos, e Mestre em Educação - Distúrbios da Comunicação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Foi docente no curso de graduação em Pedagogia e no pós graduação em Psicopedagogia de 2007 a 2013, lecionando nas áreas de Educação e Saúde, Educação Inclusiva e Desenvolvimento Infantil.

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