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A importância do dever de casa

Onde o amor impera, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro.

Carl Jung

Relato de um caso vivido por mim durante esse trimestre em uma turma de terceiro ano do ensino fundamental de uma escola pública no município de São Bernardo do Campo, São Paulo. Essa escola é muito bem situada na cidade, sendo uma das escolas mais requisitadas da região.

Eu como professora de Arte tenho abranger com eles todas as linguagens entre elas Artes Visuais, Teatro, Música e Dança. Para isso uso recursos visuais, auditivos e motores e, para fixação do conteúdo, também utilizo o dever de casa.

“O dever de casa é uma prática cultural que há muito integra as relações família–escola e a divisão de trabalho educacional entre estas instituições. Pode ser visto como uma necessidade educacional, reconhecida por pais e professores, sendo concebido como uma ocupação adequada para os estudantes em casa; pode ser considerado um componente importante do processo ensino–aprendizagem e do currículo escolar”.

Maria Eulina Pessoa de Carvalho

Chego então ao caso ocorrido na escola. Estou eu explanando com os alunos sobre Música, pois esse é o conteúdo do trimestre com eles. O gênero discutido e estudado é Samba. Conversamos sobre onde surgiu, como surgiu principais compositores e cantores, roupas de época e atual e vários outros tópicos. Espantei-me com o interesse das crianças nas músicas de antigamente e ao final de duas aulas eles já estavam cantando A, E, I, O, U de Noel Rosa. Eis então que para finalizar o conteúdo solicitei aos alunos um dever de casa. Tudo muito bem explicado quanto ao desejado a ser entregue, e copiado em agenda como deve ser. Expliquei que podiam e deviam pedir auxílio aos pais, para que essa fosse uma tarefa prazerosa em família, pois os pais poderiam acrescentar casos, experiências e conhecimentos já vividos por eles. Marquei uma data de entrega. No dia agendado fui recolher os trabalhos, um mais caprichado que o outro, do jeito que eu havia pedido, com capa, ilustração e identificação. Ao chegar próximo a um aluno perguntei e seu trabalho você o fez? Ele chorando me respondeu que não.

shutterstock_215994538Acabei de recolher do restante dos alunos e o chamei em particular para saber o que havia acontecido. Recebi sua resposta e fiquei indignada: “Professora, eu queria fazer, mas minha casa estava sem internet e minha mãe não me deixou usar o celular para pesquisar. Ela disse que lição de casa é bobeira e principalmente, para que ter aula de arte? Música não precisa se aprender é só ouvir”. Conversei com ele e pedi que se acalmasse, pois com a socialização dos outros trabalhos ele também aprenderia o necessário. Percebi que como os outros alunos ele também queria ter feito, pois é um aluno participativo em todas as propostas. Chego aí onde queria para uma reflexão de outros educandos e mães. A que ponto chegamos? Em ver uma criança de 10 anos que quer se aprimorar em casa, quer e pode pesquisar mais e mais conteúdos e a família o poda, diz que não é necessário o dever de casa, que tal conteúdo é insignificante e nunca será utilizado na vida futura. Será que essa mãe pode e vai bloquear a criatividade dessa criança? O interesse que ela demonstrou em aprender se perdera com o tempo, pois se a cada dever de casa que a mãe lhe desestimular ele o deixara de lado e se virará a outros assuntos. Infelizmente chegando talvez até a assuntos não tão corretos.

Cabe a nós educadores mostrarmos cada vez mais a importância da família como coadjuvante no ensino – aprendizagem e na formação do caráter da criança e a nós também como mães entendermos que uma instituição não é responsável sozinha na educação de uma criança. Precisamos trabalhar em conjunto para que todos tenhamos um futuro melhor.

“Tradicionalmente, o dever de casa é considerado uma estratégia de ensino: de fixação, revisão, reforço e preparação para aulas e provas, na forma de leituras e exercícios. Seu conteúdo, geralmente, restringe-se ao currículo escolar, incluindo às vezes eventos familiares e comunitários, ou programas de televisão, como atividades de enriquecimento curricular ou estratégia de conexão das matérias escolares com a vida cotidiana. Nos aspectos psicológicos e moral, tem sido justificado pela construção da independência, autonomia e responsabilidade do estudante por meio do desenvolvimento de hábitos de estudo e pontualidade”.

Maria Eulina Pessoa de Carvalho


“Até você tornar consciente, o inconsciente irá dirigir sua vida  e você vai chamá-lo de destino”

Carl Jung

Sobre o autor

Lilian Hypolito Monges

Lilian Hypolito Monges

Professora formada em Artes Plásticas pela faculdade de Belas Artes de São Paulo, com pós-graduação em Arte Educação e Especialização em Arte Publicitária e Ilustração pela Escola Panamericana de Arte.

Trabalha com crianças, jovens e adolescentes há mais de 20 anos, estimulando a criatividade baseado nas quatro bases da arte: visual, dança, teatro e musica, procurando envolver e desenvolver o potencial de cada aluno, o que propicia um maior envolvimento do aluno com a matéria.

Possui conhecimentos específicos sobre brinquedos lúdicos, arte terapia, artesanatos (em madeira, texturização, customização, decoupage, etc.).

Professora de ensino fundamental II em rede particular

Tutora em Graduação de Artes Visuais

E-mail: [email protected]
Celular/Whatsapp: 11 96436-5608