Somos energia contida, como Sigmund Freud sugeriu ao mapear as forças inconscientes que nos governam. De fato, a teoria das pulsões elucida o que as palavras cotidianas mal conseguem tatear: não ouvimos uma música por mero capricho, mas movidos por uma necessidade psíquica visceral.
É comum ver lágrimas caírem ao som de uma melodia, pois a memória afetiva desconhece o tempo do relógio; ela permanece cravada na alma, pronta para disparar a qualquer acorde e nos lançar de volta ao passado — às vezes reabrindo antigas fraturas, às vezes nos fazendo cavalgar em cavalos alados rumo à mais pura felicidade.
Por ser puro estopim de catarse e carga energética, a canção narra nossas vivências mais ocultas e confessa aquilo que jamais teríamos coragem de pronunciar, nem a terceiros, nem a nós mesmos. Daí decorre o ato ancestral de dedicar melodias a quem se ama ou a quem partiu.
A música não negocia com o engano: bate à porta do afeto sem pedir licença e nos desarma, arremessando-nos contra o peso emotivo daquilo que fomos. Do acalanto de ninar aos protestos antiguerra e pelos direitos humanos, esses hinos moldam a história das civilizações.
No cancioneiro brasileiro, a força do som se personifica em marcos indeléveis: Roberto Carlos narra a emoção do retorno, em que até o cão o abraça sorrindo ao cruzar de volta o portão; Chico Buarque retrata com agudeza um país sufocado, onde o simples bedel ousava posar de juiz; Maria Bethânia escancara a dor de um coração ateu em carne viva.
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Diante de tais hinos, ficamos suspensos, alheios a qualquer beliscão da realidade terrena. A música, afinal, ignora velhos ou novos sentimentos: ela apenas dá vazão àquilo que somos.
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