Tenho a impressão de que ficamos muito bons em preencher o tempo.
Se aparecem dez minutos livres, pegamos o celular. Respondemos uma mensagem no meio do café, resolvemos alguma coisa enquanto conversamos com alguém, levamos o trabalho para lugares que antes pertenciam ao descanso. E ainda existe aquela sensação incômoda de que estamos atrasados para alguma coisa.
Não sou contra a tecnologia — muito pelo contrário. Ela faz parte da minha vida, do meu trabalho e das minhas relações. O que me interessa é perceber quando ela deixa de ser uma escolha e passa a ocupar todos os espaços disponíveis.
Porque precisamos de espaços vazios também.
Precisamos do café sem pressa, da conversa que se estende, da música, da caminhada, da brincadeira, do encontro com os amigos, de olhar pela janela e não fazer absolutamente nada com aqueles minutos.
Nem toda pausa precisa nos tornar mais produtivos.
Talvez ela precise apenas nos devolver para nós mesmos.
E quando falamos em saúde mental e bem-estar, gosto de trazer a conversa para esse lugar mais cotidiano. Cuidado não é algo que fazemos somente quando chegamos ao limite. Está também na maneira como vivemos um dia comum, nas relações que cultivamos e nos limites que aprendemos a colocar.
Aliás, tenho pensado muito sobre limites.
Com o tempo, vamos entendendo que existem coisas negociáveis e outras que não queremos mais negociar para caber em uma relação, em um trabalho ou nas expectativas de alguém.
Respeito, reciprocidade, escuta, presença. Poder dizer “não”. Poder mudar de ideia. Ter espaço para ser quem somos sem precisar nos diminuir para permanecer.
Isso não é sobre construir muros. É sobre reconhecer até onde podemos ir sem nos abandonar pelo caminho.
Talvez uma das contradições do nosso tempo seja justamente esta: nunca tivemos tantas maneiras de estar conectados e, ainda assim, precisamos cuidar para não perder a qualidade do encontro.
Estar perto não é apenas trocar mensagens.
É olhar nos olhos. Perceber quando alguém não está bem. Escutar sem consultar a tela no meio da frase. Sentar à mesa. Rir junto. Brincar com uma criança. Ter amigos com quem a conversa não precise caber em um áudio acelerado.
Ao longo dos anos trabalhando com comunicação, educação e desenvolvimento humano, uma coisa ficou cada vez mais clara para mim: a maneira como nos relacionamos interfere profundamente na maneira como vivemos.
E talvez cuidar da saúde mental também seja olhar com mais atenção para isso.
Para o nosso tempo. Para os excessos. Para as relações. Para aquilo que aceitamos por hábito. Para o que precisa de limite. E, principalmente, para tudo aquilo que estamos adiando para “quando der tempo”.
Porque a vida não pode acontecer apenas depois que terminarmos todas as pendências.
Elas provavelmente não vão terminar.
Então deixo um convite: escolha um pequeno espaço do seu dia e não o preencha. Faça alguma coisa que não precise gerar resultado. Procure alguém de quem sente saudade. Tenha uma conversa inteira. Brinque. Descanse. Coloque um limite que vem sendo adiado.
E observe.
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Talvez cuidar de si não seja acrescentar mais uma tarefa à agenda.
Talvez seja abrir espaço nela para voltar a caber a sua vida.
Se este texto fez você pensar em alguém, compartilhe. E se essas questões atravessam sua vida, sua equipe, escola ou instituição, essa também é uma conversa que podemos construir juntos.
Merikol Duarte
Comunicadora, educadora, escritora, palestrante, mentora e facilitadora. Atua há mais de 30 anos com comunicação, educação, gestão e desenvolvimento humano, desenvolvendo palestras, workshops, mentorias e experiências para pessoas, grupos e organizações.
