Budismo Espiritualidade

Bhimrao Ramji Ambedkar, um Budista Cético e Socialmente Engajado

Foto de Bhimrao Ramji Ambedkar
Creative Commons / Flickr / ferozekhan
Escrito por Luiz Gomes

São milhares as religiões em nosso planeta, cada uma delas com suas particularidades. Seja nos dogmas, seja nas divindades, nos conceitos de vida e nos conceitos de morte… há religião para todos os tipos e para todas as aspirações. Há ainda, dentre essas milhares, um número considerável de cultos que incentivam a prática da caridade e ainda outros que a têm como uma imposição. No entanto, é difícil encontrar uma manifestação religiosa que vá além da caridade e que tenha em seu âmago a luta pela justiça social. Bom, é difícil, mas não é impossível. Neste texto, vamos apresentar a você o Movimento Neobudista.

O Movimento Neobudista foi criado por Bhimrao Ramji Ambedkar em 1956, poucas semanas antes do seu falecimento. B.R. Ambedkar foi um político e ativista indiano que atuou bastante no processo de independência do seu país, tanto na redação da Constituição da Índia como no Ministério da Justiça pós-independência. Além de ter sido um dos principais atores na desvinculação britânica do subcontinente, junto a renomadas lideranças, como Gandhi e Nehru, Ambedkar foi um dos principais líderes dos movimentos de emancipação dos dalits. Os dalits são pessoas consideradas impuras e dignas de serem exploradas pelo sistema de castas da Índia. Por esse motivo, a luta contra a opressão que os considerados dalits sofriam ao terem seus direitos limitados em relação ao restante da população foi o motor de toda a carreira política de Ramji Ambedkar.

Para Ambedkar, a grande causa da opressão gerada pelo sistema de castas era a religião hindu. Sendo assim, em 1936 ele declarou seu intento de se converter a uma nova religião, abandonando o hinduísmo. Foram várias as propostas que ele recebeu após tal declaração. Vieram líderes siques, muçulmanos, budistas, zoroastristas… E depois de muito ponderar, resolveu que o budismo seria a resposta. No entanto, Ambedkar só veio a se converter oficialmente 20 anos após a sua declaração, pois dedicou essas duas décadas ao estudo aprofundado da religião na qual se propôs ingressar. Ao se converter publicamente, declarou a sua própria concepção de budismo, denominando-a Navayana (“novo veículo”, em sânscrito), uma leitura bastante diferente das escolas budistas de até então. E nessa exposição pública da sua nova crença, outros 380.000 seguidores, majoritariamente dalits que já atuavam na luta por direitos iguais, também se converteram, dando origem ao Movimento Neobudista.

Homem budista segurando colar de contas
f9photos / Canva

As interpretações de Ambedkar acerca dos ensinamentos de Buda geraram bastante controvérsia. Ele negava a origem divina do Buda, assim como a dos seus ensinamentos e recusava o culto a qualquer outra divindade. Além disso, mantinha um caráter muito mais ligado aos preceitos comportamentais do que a conceitos metafísicos.

Em um ensaio chamado “Buda e o Futuro de sua Religião”, escrito pelo próprio Ambedkar acerca da suposta origem divina e infalível de Buda, ele disse: “O Buda não reivindicou tal infalibilidade para o que ele ensinou. No Mahāparinibbāṇa Sutta, ele disse a Ananda que sua religião era baseada na razão e na experiência e que seus seguidores não deveriam aceitar seus ensinamentos como corretos e obrigatórios, meramente porque emanavam dele. Por serem baseados na razão e na experiência, eles eram livres para modificar ou mesmo abandonar qualquer um de seus ensinamentos se fosse descoberto que em um determinado momento e em determinadas circunstâncias eles não se aplicassem.”

Em 6 de dezembro de 1956, Bhimrao Ramji Ambedkar veio a falecer e deixou um número considerável de convertidos, porém com um tímido crescimento ao longo dos anos, dada a brevidade da sua vida após sua conversão. Em 1990, Ambedkar recebeu postumamente o prêmio Bharat Ratna, a maior honraria civil que um cidadão indiano pode receber, e seu legado social é inegável. Sua luta em prol de uma Índia livre, pela emancipação dos dalits e por uma espiritualidade sem dogmas fez com que ele entrasse para a história como um herói nacional e um exemplo de que mesmo o mais cético ou o mais religioso dos seres pode seguir um caminho que preze tanto o desenvolvimento pessoal quanto o bem-estar social.

Sobre o autor

Luiz Gomes

Considero-me um buscador desde muito cedo. Não sou capaz de afirmar que nasci com essa inclinação, mas desde criança já mostrava entusiasmo para com os assuntos do alto. Passei por muitas religiões e filosofias ao longo da minha vida, e sem me prender venho conhecendo as mais variadas perspectivas dos que se atrevem a procurar por formas alternativas de significar a vida. Considero toda a minha jornada, como o próprio nome diz, uma jornada. Uma busca constante pela autorrealização, que no final das contas se traduz pela própria jornada.

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