Autoconhecimento

Como lidar com a ansiedade e o medo em tempos caóticos?

Mulher branca de olhos fechados sentada num sofá vermelho segurando uma caneca branca com uma mão e a outra levada à testa.
Josep Suria / 123rf
Daiana Barasa
Escrito por Daiana Barasa

A ansiedade e o medo estão intimamente ligados. Resumidamente a ansiedade está ligada à preocupação da pessoa com o futuro, ou seja, ocorre uma tensão e apreensão diante de algo que ainda não aconteceu e que quem sabe nem ocorra.

Já o medo é uma emoção ligada ao presente, que se manifesta em uma situação que representa perigo real. O cérebro libera compostos químicos involuntariamente e o corpo responde apresentando alguns sintomas, como respiração acelerada, sudorese, mãos úmidas, aceleração dos batimentos cardíacos, etc.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil é o país de maior concentração de pessoas ansiosas do mundo, sendo que 18,6 milhões de brasileiros (9,3% da população) convivem com esse mal.

Vivendo em uma situação caótica como esta devido à pandemia do Covid-19, a tendência é que a ansiedade e o medo tomem conta das pessoas. O isolamento social é outro fator que leva ao aumento do pânico, preocupação com o que há de vir e medo de viver o agora.

A ansiedade em si é um problema “natural” e unida ao medo cumpriu a função em nossa ancestralidade humana de preservar a nossa espécie de perigos reais, como incêndios, animais predadores, desastres climáticos, etc. Mas, uma vez que esses perigos não ocorrem com frequência e esse estado de alerta persiste, é preciso tomar atitudes para frear esse ciclo de desespero.

Quando o medo é considerado saudável?

Vamos considerar que você está fazendo uma trilha e há uma subida. Chegando ao topo, há uma espécie de penhasco, aquilo te faz sentir um leve tremor nas pernas e embora algumas pessoas avancem para a beira do penhasco, para ver melhor o horizonte, você não consegue avançar. No dia a dia você não tem esse medo, mas ali você sente, e pode-se pensar que nessa situação é natural, o seu corpo está apenas te alertando sobre um perigo real.

Pessoa branca sentada no chão com pernas e braços encolhidos e cabeça baixa.
Pixabay / Pexels

O medo passa a ser encarado como patológico quando diante de uma situação cotidiana, sem indício de perigo, a pessoa sente muito forte esse sentimento. Vamos exemplificar utilizando como contexto a pandemia. A pessoa está devidamente protegida com máscara, mantendo a distância necessária, mas numa simples ida ao supermercado se sente em pânico, não consegue sequer se concentrar nas compras, porque começa a perceber que o perigo está em toda parte.

Principalmente no início da pandemia, quando as pessoas tiveram que mudar bruscamente o comportamento, a ansiedade e o medo reverberaram de uma maneira mais intensa sobre a população, como indica o artigo publicado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

O medo que pode levar à ansiedade

A ansiedade e o medo estão muito ligados e crises de ansiedade podem surgir a partir de diversos medos. Neste contexto de isolamento, em que foi preciso uma mudança de comportamento brusca, a fobia social, por exemplo, passou a se tornar mais “comum”, ou seja, pessoas passaram a se sentir ameaçadas diante de situações sociais ou em casos de exposição em público.

Jovem branca movimentando a cabeça, com cabelos longos e castanhos no rosto
Hailey Reed / Unsplash

É comum que em um quadro de ansiedade a pessoa cultive medos de situações que ainda não aconteceram e que provavelmente não irão ocorrer, e é esse mal-estar, esse cultivo de preocupação que pode afetar tanto a vida de uma pessoa.

Lidar com a ansiedade e com o medo em tempos caóticos como estes em que vivemos por causa da pandemia mundial é algo que precisa antes de tudo ser reconhecido por quem o sofre.

Ainda é comum ouvir: “Ansiedade, todo mundo tem!”, sim, todos estão suscetíveis à ansiedade e a vivenciam em algum grau, mas quando ultrapassa as barreiras da normalidade e passa a afetar a qualidade de vida da pessoa então é algo que precisa ser tratado para que não evolua.

Em uma crise de ansiedade, há algumas ações que podem auxiliar na recuperação do autocontrole, como:

  • Um banho da cabeça aos pés;
  • Algum tempo na presença do animal de estimação;
  • Um cochilo;
  • Não permanecer no local onde a crise ocorreu;
  • Uma conversa com um amigo sobre qualquer assunto;
  • Meditação.
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Não guardar para si aquilo que atormenta é essencial. Em grande parte dos casos, a pessoa aparentemente demonstra tranquilidade, mas por dentro, mentalmente, se sente em queda livre. A busca por apoio psicológico é bem-vinda, assim como a busca por práticas que podem ajudar no autoconhecimento e autocontrole.

O caminho da espiritualidade também é bem-vindo na busca por equilíbrio, e diferentemente do que muitas pessoas tendem a pensar não se trata da busca por uma religião, mas de um contato com algo superior, que possa dar alento, paz, significado para a vida.

Apesar de todo o caos, você está em contato consigo

Obviamente que lidar com a ansiedade e o medo é algo que ninguém deseja experimentar, mas tente enxergar essa realidade por uma perspectiva diferenciada, de que, mesmo em momento caótico, esse é um convite para que você se autoconheça.

Os processos não são iguais, afinal cada ser humano é único, sendo assim, a ansiedade será vivenciada por cada pessoa de maneira diferenciada. O equilíbrio é algo de que podemos nos aproximar, mas dificilmente será alcançado plenamente.

No livro “Livre de Ansiedade”, escrito pelo psicólogo americano Robert L. Leahy, há uma orientação interessante de que ao se reconhecer e ser diagnosticada com ansiedade, a pessoa não tente “controlar a ansiedade”, pelo contrário, diante de uma crise, o ideal é que entenda que está sendo ansiosa e espere o processo passar como se estivesse submersa no mar até que a onda passe.

Em um momento como este que estamos vivenciando, de total descontrole e caos, por causa da pandemia e de todas as questões que surgem como medos e preocupações, aquelas pessoas que já sofrem de ansiedade, sendo diagnosticadas ou não, fazendo uso de medicamentos ou não, tendem a se sentir ainda mais desconfortáveis e, nesse momento, não há muito o que fazer, mas é preciso sentir e se “absolver” da obrigação de controlar a situação.

Flor Dente de leão
Andreas Haslinger / Unsplash

Viver um dia de cada vez é o grande desafio. Respirar fundo quando o momento pede um grito é algo que parece impossível de ser realizado, mas já parou para pensar que apesar de tão absurdo que possa parecer, no fim das contas, você consegue passar pelo processo, sem grandes danos?

Sobre o autor

Daiana Barasa

Daiana Barasa

Daiana Barasa é jornalista e escritora de ficção. É autora dos livros “Na Atemporalidade das Palavras – O Brio, o Vento e o Talvez”, pela Cia. do eBook (2016), do livro “Mulher Quebrada”, pela Chiado Editora (2017), e participou da antologia “Aquela Casa”, pela editora Verlidelas (2020).

É responsável pelo portal de desenvolvimento humano Mulher Quebrada, voltado principalmente ao público feminino.

Faz parte da oficina literária na Casa da Palavra Mário Quintana, em Santo André, todo sábado, às 15h.

É uma curiosa, acredita na humanidade, apesar do caos. Seu compromisso é com as palavras e com o mergulho interno.

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