Costumamos falar de criatividade como se fosse uma habilidade única, quase um talento genérico. Do ponto de vista neurocientífico, isso é um erro conceitual. Criatividade não é uma coisa só, e entender essa diferença muda completamente a forma como avaliamos inteligência, comportamento e potencial humano.
Existe o que chamo de “criatividade objetiva”. Ela é comum em superdotados, em pessoas no espectro autista e em indivíduos com síndromes que não comprometem a cognição. Está ligada ao raciocínio lógico, à resolução de problemas, ao reconhecimento de padrões e à reorganização de informações. É mensurável, treinável e, muitas vezes, confundida com inteligência pura.
Mas existe outra forma de criatividade, menos visível e mais profunda: a “criatividade subjetiva”. Ela é impulsionada pela emoção, não funciona apenas a partir da lógica e atua de forma mais silenciosa. Não aparece necessariamente em testes tradicionais. É o tipo de criatividade que permite pensar aquilo que ainda não foi ensinado. Costumo usar Einstein como referência, não pelo mito, mas pelo fato de ele ter formulado ideias que não existiam no currículo de nenhuma escola.
Essas pessoas, em geral, filosofam mais sobre a vida. Trabalham o raciocínio lógico com alta intensidade emocional. Neurobiologicamente, há uma interação mais intensa entre funções executivas elevadas e estruturas emocionais como a amígdala, criando caminhos cognitivos menos convencionais.
Ao unir genética e neurociência, algo fica claro: a discrepância é o que faz a diferença. A criatividade objetiva pode surgir como efeito compensatório do cérebro, seja no equilíbrio cognitivo de indivíduos com QI entre 120 e 140, seja em mecanismos de compensação presentes no autismo ou em síndromes leves. O cérebro se reorganiza para manter a eficiência.
A criatividade subjetiva, por outro lado, está ligada à intensidade. Ela aparece com mais frequência em pessoas com QI extremamente alto ou com funções executivas muito acima da média. Não é apenas desempenho, é estrutura, conectividade e forma de ativação emocional.
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Criatividade objetiva pode ser treinada. Criatividade subjetiva, não. Ela é inata, nasce com o indivíduo e só se manifesta em perfis genéticos específicos. Por isso, afirmo sem rodeios: somos a nossa genética. Até os fatores ambientais são modulados por predisposições genéticas prévias. O ambiente não cria do zero, ele ativa o que já existe.
Hoje, cada vez mais, testes genéticos caminham lado a lado com avaliações de QI, investigação do espectro autista e outras condições neurocognitivas. Não substituem a análise clínica, mas ajudam a confirmar laudos com mais precisão. Entender o cérebro passa, necessariamente, por entender a biologia que o construiu.
