Comportamento Convivendo

Era uma vez… Uma garota que queria mudar o mundo

Pernas de mulher vestindo saia e chinelos de dedo em frente a uma parede. Ela está de lado e uma de suas pernas está levemente flexionada, pois está apoiando na ponta do pé.
123rf/yayha
Cintia Ski Pelissari

Estimados leitores, saudações de paz!
Acredito e vivencio a escrita como ferramenta de autocuidado. São as palavras que trazem paz e leveza para meu coração diante de diversas situações que a vida me apresenta.

Quando fui demitida e tive que repensar minha carreira, senti como se fosse jogada num precipício. A demissão em si é um fato que nos tira o chão e ganha um tom muito mais dramático ao ser somada ao cenário do nosso país nos últimos tempos. Nem sempre uma demissão chega em boa hora, mas uma coisa é quase certa: quanto mais autoconhecimento, mais leve e até prazeroso será o recomeço.

Mulher sentada em uma cama, abraçando seus joelhos flexionados e apoiando sua testa em um dos braços, escondendo seu rosto.
123rf/Andrea De Martin

Um certo tempo atrás, quando era adolescente e começava minha trajetória profissional, tinha apenas um par de chinelos havaianas. Não eram bonitos e coloridos como hoje, mas eu era feliz desbravando meu mundo adolescente de maneira confortável – calçando chinelos. Veja que desprendimento!

Mas os anos se passaram e a adolescente que queria mudar o mundo calçando chinelos hoje é uma mulher (de havaianas coloridas!) que encontrou dificuldades para atualizar seu próprio currículo profissional. Tantas experiências, pós-graduação, cursos, muitos anos de aprendizado. Bloqueio total. O que colocar no meu currículo? Por que estava tão difícil?

Culpado: perfeccionismo. Querer aprovação e sentir medo de sofrer. Medo de não ser perfeita e consequentemente não ser amada. Maldito destruidor de lares! A questão era algo assim: preciso agradar empregadores e provar o quanto sou boa no que fiz e no que faço. Me contrate!

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Minha pressão interna somada à pressão externa (12 milhões… Você leu sobre isso?) geravam um questionamento intenso, que se potencializava com o momento a superar: meu desânimo, reconhecer meus erros e orgulho ferido. Conter minhas ações provocadas por dores que ainda não sabia curar ou agir com raiva provocada pela decepção. Onde errei? Por que não me encaixo?

Minha autocrítica é cruel. Ela dança em ciranda ao meu redor de braços dados com a ansiedade e com a vergonha. Juntas, essas pestes cantavam bem alto que não estou pronta, que não sou boa o suficiente, que minha carreira precisa de retoques. Precisei de ajuda. Chamei por Sócrates – meu autoconhecimento: Por favor, venha comigo! Vamos juntos para a arena da minha vida! Vamos com a Brené Brown que essa, sim, entende do assunto – estar na arena da vida. Fomos.

Na arena, eu no centro e uma plateia ao redor. Que vergonha… Sócrates apontou para um simpático senhor chamado Mário Sergio Cortella, que mandou sorridente: “Defina vergonha”. Ao lado dele, observei o treinador Carter com um cartaz em mãos com os dizeres: “Faça o que deve. É o que quero para você de verdade. Você deve ser tudo que pode”. Que mundo insano e cheio de gente esquisita. Eu? Mais ainda…

Pausa na escrita.

No rádio Camila Cabello canta “Señorita”. Não resisti. Parei a escrita e fui dançar. Quando passamos dos 40 anos essa música é uma delícia. Vá lá! Dançar cura e liberta. “I love it when you call me señorita… I wish I could pretend I didn’t need ya ya ya…”

Mas agora escrevendo – porque escrever também cura e liberta, acho que sei um pouco sobre o motivo, além dos citados acima, que expressaram minha tão sofrida questão, concluir meu currículo. Talvez somente agora perceba conscientemente minha grandeza como ser humano. Essa grandeza é uma vasta soma de todas as pessoas com quem convivi ao longo de tantos anos. Há muitos aprendizados, histórias incríveis, sorrisos, superações, cachorros doados, choro, alegrias. É muita coisa! A lista é imensa. Claro que não cabe numa página de currículo. E se fosse resumir tudo isso numa única palavra seria mais fácil. A palavra seria gratidão, pois ela contempla tudo, mais os sentimentos que moram no meu coração.

Mulher sentada em uma cadeira, com as pernas cruzadas. Ela escreve em um caderno que segura em seu colo.
123rf/rawpixel

Gratidão também me mostra que tudo tem lado bom. Sempre tem um lado bom. E a demissão foi uma oportunidade ímpar de enterrar minhas velhas crenças e padrões que não servem mais. Posso ser “substituída” e está tudo bem! Faz parte da vida, do processo sobre me reinventar. Gratidão aqui de novo.

Precisei de um tempinho para ter condições de aceitar minhas falhas com a mesma graça e humildade com as quais aceito minhas melhores qualidades – que são muitas e não tenho motivos para escondê-las ou nega-las. Ao experimentar e vivenciar cada etapa de uma demissão, permitimos que a vida flua de maneira mais graciosa. Na verdade, ela sempre flui de maneira graciosa, só que às vezes não conseguimos notar.

Para onde a vida te levar, vá com seu coração. Sempre.

Sobre o autor

Cintia Ski Pelissari

Cintia Ski Pelissari

A leitura e a escrita são ferramentas curativas, no sentido em que ampliam horizontes, tanto externos quanto internos. Acredito que podemos alcançar muitos sonhos e projetos quando desbravamos o mundo das palavras.

Reikiana e praticante de meditação há mais de 11 anos, idealizadora do Projeto Pessoas Possíveis, ministra cursos sobre autoconhecimento por meio de atividades de escrita e contação de histórias.

Facilitadora da divulgação da mensagem de gratidão de Brother Steindl-Rast por meio do site www.viveragradecidos.org

Agradecida pelas inúmeras oportunidades que a vida me oferece diariamente para compartilhar amor fraterno.

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Site: viveragradecidos.org
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