Convivendo

Espiritualidade presente nos cânticos de Cecília Meireles

Mulher branca segurando colar no pescoço com expressão sorridente.
Reprodução / Wikimedia
Daiana Barasa
Escrito por Daiana Barasa

A literatura tem o poder de nos transformar e talvez você já tenha lido isso em algum lugar. O saudoso Mario Quintana já dizia que “Os livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas”, e sim, os livros têm o poder de nos transformar enquanto seres humanos.

Dentre os milhares de escritores ao redor do mundo, vale muito se atentar ao trabalho de uma mulher, de uma escritora poderosa e brasileira: Cecília Meireles. Se você está no processo de autoconhecimento e tem buscado por livros que te ajudem nessa jornada, os cânticos de Cecília Meireles poderão te ajudar.

Cecília Meireles, dentre as mulheres escritoras, é uma das mais importantes. Nasceu no Rio de Janeiro, o pai morreu três meses antes de seu nascimento e quando estava com três anos de idade, sua mãe a deixou, sendo assim, foi criada pela avó materna. Certa vez em uma entrevista ela disse: “Em toda a vida, me esforcei por ganhar e nem me espantei por perder”.

Ela é conhecida por uma série de ofícios: escritora, jornalista, pintora, pesquisadora e professora. Lutou para combater a palavra “poetisa”, por conta da discriminação de gênero e se dizia POETA, muitas outras escritoras adotaram a mesma postura. Em seu poema Motivo, ela enfatiza a sua vocação:

“Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.”

A autora vivenciou muitos episódios em sua vida, alguns deles trágicos, como o suicídio do marido Correia Dias. Dentre as tantas obras da autora, há uma em particular: o livro “Cânticos”, de 1981.

Esses cânticos de Cecília Meireles reúnem uma espécie de atmosfera mística e transcendental. Em muitos versos é enfatizada a “eternidade”.

Mulher branca com colar de bolinhas e expressão sorridente.
Reprodução / Ibamendes

Na filosofia grega, os poemas eram como a apresentação da physis, ou seja, a busca pela sabedoria era como um ato de contemplação, e os versos presentes nos cânticos de Cecília Meireles são como um ato de contemplação que questiona a vida sob a perspectiva da eternidade.

Esse livro reúne experiências de solidão e de liberdade, de encontro com a vida do espírito. Expressa o pensamento originário da Grécia, assim como reúne princípios presentes nos poemas sagrados indianos, como a poesia e a obra de Tagore, que desvenda no cotidiano o pulsar do eterno.

Cânticos de Cecília Meireles – um chamado de paz à alma

I

Não queiras ter Pátria.

Não dividas a Terra.

Não dividas o Céu.

Não arranques pedaços ao mar.

Não queiras ter.

Nasce bem alto.

Que as coisas todas serão tuas.

Que alcançarás todos os horizontes.

Que o teu olhar, estando em toda parte

Te ponha em tudo,*

Como Deus.

*(Estarás em tudo)

Nesse cântico, por exemplo, a autora propõe uma compreensão do Universo infinito como é e da importância do desprendimento no verso “Não queiras ter”. O “Nasce bem alto” de alguma maneira está relacionado com o nascimento a partir da consciência de que fazemos parte da totalidade, somos o TUDO, parte do eterno.

II

Não sejas o de hoje.

Não suspires por ontens. . .

Não queiras ser o de amanhã.

Faze-te sem limites no tempo.

Vê a tua vida em todas as origens.

Em todas as existências.

Em todas as mortes.

E sabe que serás assim para sempre.

Não queiras marcar a tua passagem.

Ela prossegue:

É a passagem que se continua.

É a tua eternidade. . .

É a eternidade.

És tu.

Perceba a grandiosidade desse cântico e de como ela propõe a meditação de que somos seres eternos, de que não há final, não há morte definitiva.

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VI

Tu tens um medo:

Acabar.

Não vês que acabas todo o dia.

Que morres no amor.

Na tristeza.

Na dúvida.

No desejo.

Que te renovas todo o dia.

No amor.

Na tristeza.

Na dúvida.

No desejo.

Que és sempre outro.

Que és sempre o mesmo.

Que morrerás por idades imensas.

Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.

Sinta o poder dessas palavras e como são um chamado a uma espiritualidade livre, sem dogmas, mas de uma consciência individual de que todos os dias você morre e nasce, todos os dias de alguma maneira se renova, não importam as circunstâncias (no amor, na tristeza, na dúvida, no desejo).

Leia Cecília Meireles – leia livros escritos por mulheres

Há tantas obras magníficas escritas por mulheres que você precisa conhecer. É importante abrir o leque de alternativas de leitura, principalmente para conhecer mais obras escritas por mulheres. É fundamental, sobretudo para o público feminino, repensar o “ser mulher” por meio de narrativas escritas por mulheres.

Experimente ler o livro “Cânticos” de Cecília Meireles como uma ferramenta de autoconhecimento, como parte da sua meditação diária, como um exercício de repensar o seu papel no mundo, os seus propósitos, a sua atuação. Seja livre das amarras que lhe impedem de ser quem você é.

Um livro não é apenas um livro. Muitas vezes um livro pode representar uma porta rumo à liberdade.

Sobre o autor

Daiana Barasa

Daiana Barasa

Daiana Barasa é jornalista e escritora de ficção. É autora dos livros “Na Atemporalidade das Palavras – O Brio, o Vento e o Talvez”, pela Cia. do eBook (2016), do livro “Mulher Quebrada”, pela Chiado Editora (2017), e participou da antologia “Aquela Casa”, pela editora Verlidelas (2020).

É responsável pelo portal de desenvolvimento humano Mulher Quebrada, voltado principalmente ao público feminino.

Faz parte da oficina literária na Casa da Palavra Mário Quintana, em Santo André, todo sábado, às 15h.

É uma curiosa, acredita na humanidade, apesar do caos. Seu compromisso é com as palavras e com o mergulho interno.

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