Depois da menopausa, ainda há muita vida acontecendo.
Existe um momento sobre o qual se fala pouco.
Falamos sobre a chegada da menopausa. Sobre os calorões, as mudanças de humor, o sono que se transforma, o corpo que parece responder de outro jeito.
Mas e depois?
Depois que a menstruação já ficou para trás. Depois que algumas turbulências diminuem. Depois que a mulher percebe que não está mais “entrando na menopausa”.
Ela chegou a algum lugar.
E esse lugar tem um nome: pós-menopausa.
A menopausa corresponde à última menstruação e é confirmada retrospectivamente depois de 12 meses consecutivos sem menstruar. A partir daí, a mulher está na pós-menopausa.
Pode parecer apenas uma definição médica, mas há algo importante escondido nela.
A pós-menopausa não é um pequeno período de passagem.
Com o aumento da longevidade, milhões de mulheres viverão décadas nessa fase. No Brasil, estimativas recentes apontam para dezenas de milhões de mulheres vivendo a pós-menopausa.
É tempo demais para tratarmos essa etapa apenas como aquilo que veio “depois” de alguma coisa.
O corpo continua mudando.
Alguns sintomas diminuem. Outros podem permanecer por anos. E há aspectos da saúde que merecem atenção especial, como ossos, coração, metabolismo, sono, sexualidade e saúde geniturinária. A pós-menopausa não significa que os cuidados relacionados às transformações hormonais terminaram.
Mas há outra dimensão dessa fase sobre a qual conversamos ainda menos.
O que acontece com a mulher quando tantas coisas que organizaram sua vida durante décadas começam a mudar de lugar?
Os filhos podem já não precisar dela da mesma maneira.
A vida profissional talvez esteja em outro momento.
Os pais envelheceram ou já se foram.
O casamento pode ter se transformado.
O espelho conta uma história diferente.
Algumas amizades ficaram pelo caminho. Outras ganharam uma importância inesperada.
E perguntas que durante muito tempo puderam ser adiadas começam a aparecer.
Do que eu gosto hoje?
O que ainda quero viver?
O que continuo fazendo apenas porque sempre fiz?
Quem sou eu quando alguns dos papéis que ocuparam tanto espaço na minha vida já não me definem da mesma maneira?
Nem toda mulher fará essas perguntas.
Nem todas viverão essa etapa da mesma forma.
E talvez seja justamente esse o ponto.
Existe uma tendência de falar da maturidade feminina como se houvesse um roteiro. Primeiro vêm as perdas, depois a aceitação e, finalmente, aparece uma mulher sábia, livre, segura e plenamente resolvida.
A vida raramente é tão organizada.
Há mulheres que se sentem mais livres.
Outras sentem saudade de quem eram.
Algumas descobrem desejos novos.
Outras querem apenas uma vida mais tranquila.
Há quem se apaixone.
Quem termine um casamento.
Quem comece um trabalho.
Quem queira trabalhar menos.
Quem descubra o prazer de ficar sozinha.
E quem perceba que está sozinha demais.
Há dias de enorme disposição e dias em que o sofá parece uma excelente ideia.
Tudo isso pode caber na mesma mulher.
Talvez uma das liberdades dessa fase seja justamente não precisar transformá-la em uma coisa só.
A pós-menopausa não precisa ser apresentada como decadência.
Mas também não precisamos transformá-la em uma narrativa obrigatória de renascimento, como se toda mulher tivesse que sair da menopausa reinventada, empoderada e pronta para começar uma nova vida.
Pode ser simplesmente vida.
Uma vida que continua pedindo cuidado, curiosidade, vínculos, prazer, descanso, movimento e sentido.
Durante muito tempo, nossa cultura contou a história das mulheres como se grande parte de seu valor estivesse ligada à juventude e à capacidade reprodutiva.
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Talvez por isso saibamos tanto sobre a menina que começa a menstruar, sobre a mulher que pode engravidar, sobre a mãe, sobre a chegada da menopausa.
E saibamos tão pouco sobre a mulher que existe depois.
Ela não desapareceu.
Continua desejando, escolhendo, mudando de ideia, descobrindo coisas sobre si, fazendo planos, desistindo de alguns, inventando outros.
Continua se tornando quem é.
A pós-menopausa não é o epílogo de uma história.
Há páginas em branco.
E talvez a pergunta mais interessante dessa fase não seja:
“O que aconteceu comigo depois da menopausa?”
Talvez seja:
“O que ainda pode acontecer comigo agora?”
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