Mitologia grega

Hades: o rei do submundo na mitologia grega

Ilustração de Hades como um homem forte segurando um cetro de dois dentes.
Masterlevsha / 123RF
Eu Sem Fronteiras
Escrito por Eu Sem Fronteiras

A mitologia grega é um dos assuntos mais fascinantes da Grécia Antiga, que venerava muitos deuses, construía templos para realizar cultos e acabou influenciando posteriormente o Império Romano.

Conheça Hades, um dos deuses da mitologia grega, e saiba o que ele representava na vida cotidiana dos gregos antigos.

O nascimento de Hades

Hades era o deus do submundo, filho de Cronos e de Reia, irmão de Poseidon e de Zeus, entre outros. Ele governava um território sombrio, as profundezas da Terra, e também era considerado o deus das riquezas minerais, pois seu nome significa “o rico”. Na mitologia romana ele representa Plutão. Ele faz parte da segunda geração de deuses da mitologia grega, cujos avós são Gaia e Urano.

Cronos, pai de Hades, era um titã temente à profecia de que seria derrotado por um dos filhos. Então, tão logo cada filho nascia, ele o devorava, não sendo diferente com o deus do submundo. Assim, assegurava seu reinado na Terra.

Reia, mãe de Hades, conseguiu enganar Cronos e salvou Zeus. Da mesma forma, ela fez uma bebida e deu ao marido para que ele vomitasse todos os outros filhos, inclusive Hades.

Todos os irmãos libertos foram solidários a Zeus contra Cronos. Eles se posicionaram no Monte Olimpo e, com a ajuda dos titãs hecatônquiros, combateram outros titãs apoiadores de Cronos e que estavam no Monte Ótris, numa batalha que durou dez anos.

Foram os titãs Briareu, Coto e Giges, solidários aos deuses do Olimpo, que deram armas a eles: raios a Zeus, um tridente a Poseidon e um elmo (capacete) a Hades, que o tornava invisível.

Hades, então, colocando o elmo, roubou as armas de Cronos, enquanto Zeus e Poseidon acabaram por destruí-lo e vencer a batalha.

O universo foi dividido em três e um sorteio definiu a parte que coube a cada um. Assim, Zeus ficou com o céu e a terra, Poseidon ficou com os mares e os rios e Hades ficou com o mundo subterrâneo e as criaturas das sombras.

Hades era o único deus que não morava no Monte Olimpo, pois permanecia num reino secreto sob a Terra. Para chegar até ele era preciso atravessar o oceano.

Hades e Perséfone

Hades dificilmente deixava o submundo, entretanto alguns titãs haviam sido aprisionados no Etna e, conforme brigavam, ocorriam cataclismas, que fizeram com que Hades saísse do seu reino para garantir que ele não ficaria exposto ao Sol, pois tinha aversão à luz. Ele veio então ao mundo dos vivos.

Imagem de uma estátua feminina sendo segurada por uma mão masculina.
Matheus Campos Felipe / Unsplash

Nesse mesmo cenário estava Afrodite, que desafiou seu filho Eros no Monte Érix a lançar suas flechas em Hades, que transitava por lá e era solteiro. Ele acabou flechado pelo amor e viu Perséfone, que, igualmente solteira, andava pela região.

Perséfone, conhecida na mitologia romana por Cora, era a deusa das ervas, das flores, dos frutos e dos perfumes, a bela filha de Zeus e de Deméter (deusa da agricultura), portanto sobrinha de Hades. Ela foi raptada por ele. Perséfone pediu por socorro, mas sua mãe não conseguiu salvá-la naquele momento.

Hades saiu em disparada com Perséfone e, abrindo uma fenda na terra, criou uma entrada para o Tártaro.

Deméter saiu numa busca inútil pela filha e acabou por culpar a terra por seu sofrimento, lançando a maldição da infertilidade do solo e a morte do gado, porém ficou sabendo que, mesmo a filha estando triste, estava resignada com o fato de ser a rainha do mundo inferior.

Apesar de saber da aceitação de Perséfone, Deméter foi ao Olimpo e pediu a Zeus que restituísse sua filha, com o que ele concordou, alertando que Perséfone não comesse qualquer alimento no submundo, pois, se assim o fizesse, nem ele conseguiria tirá-la de lá, uma vez que as Parcas (divindades que controlavam a vida e a morte no destino dos mortais) poderiam prendê-la no reino de Hades para sempre.

Zeus enviou Hermes ao submundo para informar a Hades sobre o resgate de Perséfone, que, num primeiro momento, concordou com o pedido do irmão. Contudo ele ofereceu à jovem uma romã. Sem ter conhecimento da condição, ela acabou por comer algumas sementes, selando seu destino.

Hades propôs um acordo a Deméter, consentido que Perséfone, para sempre presa ao submundo, passasse anualmente uma temporada ao lado da mãe. Ela aceitou e devolveu à terra a sua fertilidade.

Hades e Perséfone, então, governavam as almas dos mortos e tinham o papel de juízes dos humanos no submundo, motivo pelo qual Hades era também conhecido como “deus da pós-morte”.

O retorno de Perséfone à terra marcava as estações de outono, primavera e verão, enquanto o inverno era o período em que ela estaria no submundo.

Perséfone e Hades não tiveram filhos.

O mito de Hades

Hades era considerado um deus fiel, muito embora tenha traído Perséfone com a ninfa do Cócito e tenha se apaixonado por Leuce, a filha do Oceano.

O casamento de Hades e Perséfone tem como simbologia a união de duas forças da natureza: a do subsolo, com todas as suas riquezas minerais, impulsionadora de tudo o que brota dele ou do seu interior, e a da juventude e do desabrochar da vida, especificamente remetida à deusa e rainha do submundo.

É importante que se compreenda que Hades não era o deus da morte, representado por Tânato. Hades era o presidente do tribunal de julgamento das almas, mas não o responsável por extrair a vida. A ele competia o papel de avaliar o destino da alma que chegava até o seu reino.

O arquétipo de Hades

O arquétipo de Hades pode ser entendido como a busca interior do ser humano, representada pela força propulsora do crescimento das plantas, pelo local do qual os metais preciosos e as gemas são extraídos e para o qual as almas das pessoas são levadas após a morte: o subsolo.

Hades é o símbolo do inconsciente individual e coletivo, no qual os tesouros da alma e as potencialidades estão escondidos ou ainda não vieram à tona, continuando nas sombras, ao mesmo tempo que é também o depósito de todos os medos, os demônios interiores e as coisas ocultas, mortas ou reprimidas.

Enquanto no inconsciente estão os padrões humanos universais e tudo o que a humanidade já viveu no coletivo, é também de onde vem a energia da criação, de algo novo que emerge do âmago no qual estava oculto.

O fato de Hades não permitir que Perséfone saia de seu reino, uma vez tendo ali ingressado, tem como significado obter em retorno o que ele dá e, por isso, ele era tão temido. Na representação humana, significa a não aceitação da morte como fim.

A esperança de uma pós-vida está justamente em Perséfone, com a sua juventude e vida ressurgente (ela retorna à terra rotineiramente), pois é a semente que renasce após ter morrido. Ela representa os ciclos da vida, simbolizando que algumas coisas morrem para que outras nasçam.

O arquétipo de Hades e Perséfone juntos se relaciona com as leis da vida e da morte. No nível pessoal, ele representa que, para acessarmos novas oportunidades e deixarmos a nossa riqueza interior emergir, alguns conteúdos interiores devem ser sacrificados e mortos, permeados por um julgamento ou uma escolha.

Pintura colorida de dois cavalos ao lado de Hades, pintado como um homem segurando um tridente com uma das mãos e a outra segurando Perséfone, retratada como uma mulher de vestido branco.
Walter Crane / Wikimedia Commons

Hades e Perséfone escolhiam o destino das almas no submundo, que era dividido em duas partes: o Érebo, onde as almas eram julgadas e recebiam castigos ou recompensas, e o Tártaro, lugar mais profundo, onde os titãs estavam aprisionados, portanto era um local de cárcere.

Enquanto deus do submundo, acreditava-se que ele tinha o poder de restituir a vida; entretanto, com uma característica implacável de personalidade, ele dificilmente adotava tal postura, o que causava medo no povo grego, a ponto de este nem pronunciar o nome dele e tentar permanecer invisível aos seus olhos, pois Hades nunca era derrotado, e em seu reino sempre havia espaço para muitas almas. Aqui temos a associação com a morte física.

Culto a Hades

O culto a Hades foi muito disseminado na Grécia Antiga, embora ele fosse muito temido e tratado por nomes diferentes, como “O Forte”, “O Invencível”, “O Zeus do Inferno” e “Plutão”, após o domínio do Império Romano.

Os mais importantes templos de culto a Hades na Grécia ficavam em Pilos, Atenas, Olímpia e Élida, onde eram ofertados narcisos e ciprestes.

Em Roma havia o festival de fevereiro, conhecido como “Februationes” e também como “Carístia”. Nesse festival eram sacrificados touros e cabras negras, sempre durante a noite, enquanto o sacerdote que conduzia a cerimônia usava uma coroa de folhas de cipreste. Em honra a Hades, a cada cem anos eram realizados os Jogos Seculares, tributo ao deus.

Símbolos de Hades

As imagens que retratam Hades ao longo do tempo trazem elementos que representam o significado e o valor desse mito. Conheça algumas:

Cérbero – cão de três cabeças que guardava as portas do Tártaro e acompanhava Hades. Ele era amigável, permitia a entrada das almas, mas não admitia sua saída, tornando-se feroz e temido por todos. Os únicos que passaram por ele foram Héracles, Orfeu, Eneias, Psique e Ulisses.

Você também pode gostar

Cetro de dois dentes – símbolo da vida e da morte.

Chave – representa o domínio sobre a entrada e a saída do submundo e significa a guarda de algo de valor inestimável e a superação das barreiras do desconhecido.

Cornucópia – símbolo representativo da abundância.

Cipreste – representa a mudança ou a morte tanto física quanto emocional, que possibilita o renascimento para uma nova condição, após um processo profundo de transformação.

Elmo da invisibilidade – é também conhecido como “Elmo da Escuridão” ou “Tampa de Hades”. O capacete da invisibilidade foi criado pelos ciclopes e dado a Hades, depois que eles foram libertos do Tártaro por Zeus.

Narciso – alguns estudiosos da mitologia grega associam essa flor ao rapto de Perséfone, que, ao parar para colhê-la, é capturada por Hades. O nome representa “entorpecimento”.

Quando pensamos no mito de Hades e no que essa divindade representa, não é incomum refletir sobre nossos próprios conceitos a respeito da morte, principalmente sobre como usufruímos a própria vida.

Em especial quanto aos arquétipos que o mito nos fornece, é possível enxergamos a riqueza deixada pelo legado da mitologia grega, tão atual nos nossos dias.

Dominar a morte ou descobrir o que vem depois dela é um assunto que faz parte do imaginário humano. Todas as crenças e religiões do mundo abordam o tema.

Uma importante contribuição do mito é a visão da ida às profundezas como uma ida ao próprio interior do ser, extremamente útil para o autoconhecimento e para identificar os medos, os sentimentos de perda, as transformações, os próprios “demônios” e as crenças. Pense a respeito!

Sobre o autor

Eu Sem Fronteiras

Eu Sem Fronteiras

O Eu Sem Fronteiras conta com uma equipe de jornalistas e profissionais de comunicação empenhados em trazer sempre informações atualizadas. Aqui você não encontrará textos copiados de outros sites. Nossa proposta é a de propagar o bem sempre, respeitando os direitos alheios.

"O que a gente não quer para nós, não desejamos aos outros"

Sejam Bem-vindos!

Torne-se também um colunista. Envie um e-mail para [email protected]