Convivendo

Mente humana, humanamente

Zil Camargo
Escrito por Zil Camargo

Havia uma senhora e se via que estava falando sozinha.

Não era uma conversa daquelas que somente no segundo momento de observação a gente percebe que tem um fone de ouvido com o microfone do celular.

Era outra conversa. Ela era uma moradora de rua e falava sozinha como tantos que vemos por aí em suas solitárias (?) conversas pessoais.

Fiquei prestando atenção e percebi, no entanto, que ela não falava sozinha simplesmente; contava uma história, dessas que qualquer um de nós pode viver, mas que ninguém parou para ouvir, e sobre o que era ninguém sabe dizer.

Close-up of psychiatrist hands together holding palm of her patient

E quem ouviu a chamou de louca, ou achou graça, ou teve dó, mas ninguém escutou o que ela dizia. Humanamente seguia em sua história com vigor e dedicação, e ria (sozinha) e fazia pausas (sozinha) e quase chorou.

Depois gargalhou e queria um balde, queria apenas um balde para passar água sanitária e poder usar, era um balde bom e estava jogado na rua, mas ela podia usar. E já que ninguém ouviu, ela continuou falando sozinha (?) em seu intricado universo paralelo que é a mente humana.

Cambiando de lugar com quem está ao nosso lado, o que se sente? Ir além da empatia.

Trocar a alma de corpo, não por um dia, bastam algumas horas para absorver a vivência daquele corpo novo, sentir com nossos próprios padrões morais tudo o que ele viveu e por alguns instantes observar a vida de dentro dele como se fosse uma janela com uma nova vista além daquela que estamos acostumados.

Vê-se com os mesmos olhos? Esperam-se as mesmas coisas? Ou seria o balde suficiente para querer parar? Sem nenhum alvoroço fazer uma pequena parada, livre e disposta a ultrapassar os limites da mente humana e apesar de tudo viver, simples e humanamente.

Sobre o autor

Zil Camargo

Zil Camargo

Na diversidade de cada ser, é injusto com a vida, neste mar de experiência que ela concede, tentar nos definir assim, com meras palavras.

Mas dentro de mim mora alguém inspirada, sensível, às vezes curta ou grossa, ora dramática, ora objetiva.

Mãe, artesã, escritora amadora; consultora para ganhar a vida e interessada no comportamento humano.

Estudiosa de assuntos relacionados à psicanálise, filosofia e espiritualidade; uma aprendiz procurando desenvolver oportunidades em busca do bem viver.

Contato: [email protected]