Autoconhecimento

O fardo da culpa

Escrito por Thiane Avila

Talvez nem sempre seja um entregar-se para amanhã desistir. Ouvir para não mais falar ou, então, machucar-se e deixar sentir. A banalidade do próprio contentamento sobre si talvez seja mortal àquilo que se espera ser vindouro. A infelicidade também é resultado, mas o final do processo nem sempre significa o ruim. Pelo contrário.

Perante todas as idas e vindas de ilusões, percebe-se que a vida é transcorrida por capítulos adversos, que variam entre o tudo e o nada. Os extremos são, pois, coexistências nada pacíficas, cujo único intuito é transgredir. Deslegitimar. A verdade falsificada ainda é uma verdade, só que falsa. É delicada a compreensão sobre a mantença de duas forças opostas, ao mesmo tempo em que não se entende que o impossível é só uma questão de identidade. Torna-se individual quando a dinâmica já não reproduz mais de um eixo.

Não há, pois, lei do retorno ou confluência de energias entre quem só sabe se redimir. O erro é a própria constância que permite o ciclo. O fardo da culpa nada mais é do que o universo sobreposto a uma só informação. A um só querer perante os mesmos olhos, sem exceção. Perante às mesmas crenças, sem mudança. A possibilidade de viver livre da culpa é só uma nuance dentro da carga do julgamento. O réu veredito de uma sincronicidade que nem sempre existe.

Aprendi que não posso carregar a responsabilidade pela infelicidade dos outros. Pensar em si é um egoísmo necessário. Lidar sem empatia é uma individualidade distorcida. Não se trata de não se preocupar ou não agir em prol do que gira em torno, mas interpretar o entorno como componente. Não somos peças desligadas do resto, mas sim encaixes necessários ao todo.

Closeup Headshot Very Sad Depressed, Stressed Disappointed Gloom

Aprendendo a conviver com a derrota perante expectativas frustradas e é consenso que a culpa se esvai quando o amor floresce. Não assumir os próprios erros pode ser tão ruim quanto assumir aqueles que não o são. Viver a própria vida já é difícil, quiçá a penalidades de culpas divisíveis ou então que nem sejam do próprio pertencimento.

Atuamo-nos constantemente por dívidas que não são nossas. Ilusões que não foram criadas em nossas mentes. Sou também vítima de histórias inventadas, de envolvimentos romantizados. De enrolações bem resolvidas. A esperança, quando junto da vontade, é também perigosa. Por isso os extremos que não se adequam. As limitações que não conhecem seus limites. Amor e dor são indissociáveis, bem como culpa e arrependimento. Cura e vontade de doer.

Você também pode gostar

Todo o sentimento que embaça a vista pode ser distorcido.

A lágrima derramada no colo é o indício de qualquer coisa que balança. Que tira de um estado normalizado de consciência. O fardo da culpa que uma lágrima traz, embora tenha a capacidade de molhar não só quem chora, ainda assim não faz parte de quem está de fora. Compadeçamo-nos sem, no entanto, confundir compreensão com o assumir de algo que não precisamos carregar. Peso extra apenas se vier com o discernimento sobre a quem ele pertence, caso contrário, é autoboicote.

  • Thiane Avila

    Thiane Avila

    Contos
    [email protected]jundiaionline.com.br/colunistas/colunistas.asp?c=54profile.phpSkype: thianeavila

    Com experiência na área da educação, Thiane já ministrou aulas particulares de Língua Inglesa e Portuguesa, bem como atuou em escolas de idiomas. Estudante de relações públicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, também cursa teatro e é colunista de uma Revista em sua cidade natal, Gravataí, além de colaborar com outras plataformas virtuais literárias.

    A escrita já rendeu algumas premiações nacionais e participações em coletâneas. Os prêmios recebidos contemplam o 3º lugar no Concurso Literário Icozeiro (julho de 2014), o certificado de Qualidade Literária pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores (maio de 2015) e o reconhecimento pelo Conselho Editorial da Câmara Brasileira de Jovens Escritores do Rio de Janeira pela qualidade literária da obra selecionada para publicação nas edições de maio de 2015.

    Participação nas seguintes coletâneas: “Antologia de Poetas Brasileiros Contemporâneos” Volume 124 e “Poemas descalços na noite serena” – ambos pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores.