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Cabelos brancos — A jornada espiritual da mulher anciã

Imagem de uma senhora de cabelos brancos feliz segurando um óculos gigante de armação vermelha.
Foto por: Dolgachov no 123RF
Eu Sem Fronteiras
Escrito por Eu Sem Fronteiras

Você já parou para pensar qual é o papel que uma mulher deve assumir ao longo da vida, de acordo com a sociedade patriarcal? Reflita um pouco sobre isso. Primeiro, uma mulher deve ser um símbolo de pureza, de juventude e de ingenuidade. Ela deve ser uma donzela honrada, que respeita e atende às vontades dos homens, sem as questionar.

Depois da primeira menstruação, quando está apta para procriar, a mulher deve se casar com um homem, gerar filhos e dedicar toda a adultice a eles, sem perder a beleza jovem que tinha em sua primeira fase de vida, de preferência, se quiser continuar sendo entendida como uma mulher exemplar.

Finalmente, depois que a mulher teve seus filhos e assumiu sua função na sociedade, ela perde a serventia. Agora ela não é mais um objeto de prazer ou de desejo, não pode gerar filhos e não despertará as vontades de um homem. É como se ela deixasse de existir, mesmo estando viva.

Para o Sagrado Feminino, no entanto, é possível reinterpretar os papéis que são impostos a uma mulher, analisando toda a energia de criação, de renovação e de destruição que ela pode apresentar. Na religião Wicca e em outras crenças pagãs, esse conceito é representado pela Deusa Tríplice, associada a determinadas fases da Lua.

Durante a Lua Nova e a Lua Crescente, manifesta-se a Donzela, que representa a pureza de uma forma não literal. Nesse caso, a Deusa não seria uma mulher virgem e que obedece às ordens dos homens, mas uma mulher que está sempre buscando conhecimento, como se ainda não soubesse de nada sobre o mundo.

A Mãe é a segunda fase da Deusa, que acontece na Lua Cheia. Em vez de ver a mulher exclusivamente como alguém que vai gerar uma vida, passamos a entender que ela tem o poder de criação e de proteção, ao mesmo tempo que pode desenvolver um carinho maternal.

Por fim, a Deusa se torna uma Anciã, durante a Lua Minguante. Nessa fase, ela é capaz de transmitir os conhecimentos que obteve ao longo da vida, além de representar a constante renovação de uma mulher, que está sempre se adaptando a novas realidades para aprender cada vez mais.

É esse período que é mais valorizado pela Deusa Tríplice, ainda que seja o mais desvalorizado pela sociedade patriarcal. Uma mulher que já passou pela maior parte da vida acumula conhecimentos que não permanecerão apenas com ela, mas com todas as pessoas que ela já conhece ou que ainda vai conhecer.

Uma mulher que está na terceira idade pode ser erroneamente entendida como alguém inflexível, ou que não tem a mente aberta. Mas pense em quantas vezes essa mulher mudou de opinião, entrou em contato com novas perspectivas sobre o mundo e então formou um posicionamento. Lembre-se de todas as vezes em que ela se mostra aberta ao diálogo para continuar sempre aprendendo, ao mesmo tempo que compartilha o que sabe.

Durante a velhice, uma mulher terá a capacidade de ensinar e ainda de aprender. Ela poderá se renovar a cada conversa que tiver e a cada pessoa que conhecer. Muitas vezes ela não estará certa em tudo que pensa, mas terá a maturidade e a sabedoria para entender isso e, então, mudar.

Imagem de uma mulher som lindos cabelos brancos e curtos. Ela usa óculos de sol e está bem feliz.
Foto por Orna Wachman no Pixabay

A Anciã, uma mulher madura e cheia de experiências, também apresenta em seu corpo as cicatrizes que marcam sua história e seu privilégio de viver por tanto tempo: as rugas e os cabelos brancos. Além de todo o aprendizado que ela carrega, também traz novos sentidos para a beleza, mostrando que envelhecer é lindo, mostrando ao mundo tudo que já vivemos.

Em uma realidade como a que vivemos, no entanto, a manutenção da beleza jovem e que se encaixe nos padrões é essencial para uma mulher. Ela deve manter a pele lisa, sem manchas, firme, sem rugas e com o mesmo aspecto que tinha quando ela era uma adolescente. Os cabelos, que marcam a velhice quando estão brancos, devem ser tingidos a cada novo fio prateado que aparece.

O apego à aparência das mulheres é o que impede que elas sejam entendidas como pessoas que podem transmitir conhecimento, experiências e histórias, e que podem aprender e se renovar. Observe como é diferente a atenção que mulheres pretas, gordas, homossexuais, transexuais e idosas recebem em comparação com as mulheres que estão dentro dos padrões de beleza.

Falando especificamente sobre a velhice, temos um fato: uma mulher não é ouvida se não preserva o aspecto de juventude. É vista como alguém que não se cuida, que não se ama, que não se dedica à aparência tanto quanto deveria. Todas as referências que temos sobre a beleza feminina se baseiam em mulheres que estão na casa dos 20 anos, e até as celebridades mais velhas se submetem a procedimentos estéticos para recuperar a juventude.

Mas por que a juventude de uma mulher é tão mais atraente e interessante que a velhice, momento em que ela tem mais conhecimento para compartilhar, em que entende mais sobre a vida e pode se renovar com mais facilidade?

De acordo com os conceitos do patriarcado, uma mulher não deve ser inteligente ou superior intelectualmente a um homem. Na verdade, uma mulher só deve ser bonita e útil para os homens no que se refere ao âmbito sexual e na hora de manter uma casa limpa, por exemplo. Ainda que esse conceito seja muito antiquado, é ele que impera no nosso imaginário.

Sendo assim, não é interessante para a sociedade que uma mulher tenha conhecimento para compartilhar, porque ela não deve manifestar seus pensamentos, suas ideias e suas crenças. Quanto menos ela souber e quanto menos puder se posicionar contra as injustiças que sofre, melhor será para os homens. O que interessa é que a mulher seja um agrado para os olhos dos outros, como um objeto decorativo.

São esses os princípios ensinados para as mulheres de forma inconsciente pela mídia e até pelas pessoas que integram seus círculos sociais e que também foram educadas dessa forma. Elas têm consciência de que envelhecer vai torná-las menos atraentes e mais invisíveis para a sociedade, então se submetem a inúmeros procedimentos para esconder a aparência que adquiriram com o tempo.

Como os padrões de beleza são construídos de forma a preservar os conceitos que a sociedade cria, está determinado que o envelhecimento de uma mulher não é algo sexy. Ela deixa de ser bonita, ou seja, perde a única característica que os homens consideram interessante. Note como isso não vale para os representantes do gênero masculino, já que, no caso deles, pensa-se que, quanto mais velhos são, mais viris, sábios e atraentes se tornam.

Uma maneira simples de entender como esse fenômeno é diferente para homens e para mulheres é observando os cabelos brancos. Vamos ver como isso se manifesta na nossa sociedade e em todo o mundo?

Cabelos brancos

A ideia de não ter as raízes cobertas por uma cor, como castanho, ruivo ou loiro, já aterroriza as mulheres, porque elas sabem que isso promove a exclusão de cada uma da sociedade. Para os homens, porém, os cabelos brancos podem ser assumidos sem problemas, porque mostram que são maduros, inteligentes, sábios – e que ainda são bonitos.

Quando uma mulher decide se libertar dos padrões que a sociedade impõe, mostrando que ela é muito mais do que a sua aparência e que a beleza que ela exala vem dos conhecimentos que adquiriu e das marcas que seu corpo carrega, então ela se torna uma Anciã.

Aceitar o envelhecimento não é uma tarefa fácil em uma sociedade que tanto desrespeita e menospreza as mulheres que não têm medo de assumir quem são e como estão, mas esse esforço é essencial para que aos poucos esses estereótipos da juventude eterna sejam dissolvidos em cabelos prateados à mostra.

O processo de deixar os cabelos brancos aparecendo não precisa acontecer de uma hora para a outra, até porque os fios não nascem da noite para o dia, todos de uma vez. Veja o seu primeiro fio de cabelo branco como um sinal de que você está aprendendo e se tornando capaz de transmitir as suas experiências para outras mulheres e para os homens também.

Comece a aceitação dos seus cabelos prateados entendendo o que eles representam sobre você e sua trajetória. O seu corpo não é seu inimigo, ele é sua condição de existência. Os seus cabelos brancos não querem te prejudicar, eles querem te ajudar a evoluir, a se renovar, a se olhar de uma forma totalmente diferente do que a sociedade prega.

Imagem de uma senhora de cabelos brancos segurando um arranjo de flores em suas mãos.
Foto por Silviarita no Pixabay

Reconheça a beleza de ter um toque da Lua na cabeça. Pense sobre como as mulheres mais novas se sentirão inspiradas pela sua coragem de mostrar como seu cabelo realmente é; motive-as a se aceitarem como são. Embora a sociedade ainda seja patriarcal, existem muitas pessoas dispostas a romper com esse sistema de opressão, e elas certamente vão admirá-la.

Você sentirá medo dos comentários que pode ouvir durante o seu processo de reconhecer a sua essência. Você vai querer tingir os cabelos quando alguém disser que você deveria fazer isso ou quando os comentários sobre a sua aparência forem muito cruéis. É nesse momento que você deve usar a sabedoria que acumulou ao longo de toda a vida.

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Questione: os cabelos pertencem a quem? Quem é a única pessoa que precisa gostar deles? Por que esconder uma tintura natural, trabalhada pelo tempo? O que você pode ganhar mostrando que não tem medo de envelhecer, de compartilhar histórias e de se reencontrar com a sua beleza? São perguntas como essas que vão mostrar que a sua jornada espiritual ainda tem muito a conquistar.

A partir disso você vai perceber que, aos poucos, os fios brancos não te incomodam mais. Vai perceber que não faz sentido gastar tanto dinheiro para cobrir aquilo que é natural, que é símbolo de vitória sobre a morte e de uma vida muito bem-aproveitada. Os cabelos brancos são a sua força e dizem ao mundo que você é uma mulher forte, corajosa, fiel a si mesma e cheia de confiança. Faça essa mudança por você e pelas outras mulheres que buscam novos exemplos de beleza!

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