Autoconhecimento

O lado bom de ficar sozinho

Eu Sem Fronteiras
Escrito por Eu Sem Fronteiras

É impossível ser feliz sozinho. O verso imortalizado por Tom Jobim na música Wave valoriza a importância de convivermos em grupo. A solidão é algo que coloca medo em muita gente. Pessoas solitárias são vistas como infelizes. Há várias pesquisas que falam sobre os males da solidão. Pressão alta, obesidade, inflamações, problemas cognitivos de memória e aprendizagem estão relacionados a ela.

Pesquisadores afirmam que ficar sozinho por longos períodos pode ser fatal.

A solidão aumenta em 14% o risco de morte em idosos, principalmente os mais pobres, segundo estudo do psicólogo John Cacioppo, diretor do Centro de Neurociência Cognitiva e Social da Universidade de Chicago (EUA). A pesquisa ocorreu durante os anos de 2010 e 2013 e avaliou mais de 2 mil pessoas acima dos 55 anos.

A solidão também atinge as crianças. Famílias cada vez menores, as limitações das grandes cidades, incluindo a violência impedem as crianças de brincarem na rua. Para passar o tempo, elas ficam em casa e brincam com aparatos tecnológicos e interagem com os amigos por aplicativos de mensagens.

Não ter ninguém por perto é visto como uma condenação. Para não padecer desse mal, algumas pessoas cultivam amizades que não agregam nada, vão a festas e baladas para não passar o fim de semana em casa, embarcam em relacionamentos destrutivos e acabam tão ou mais sozinhas quanto os solitários de fato.

O que causa a solidão?

shutterstock_315826106Timidez excessiva faz o indivíduo evitar eventos sociais. Tal comportamento vira uma bola de neve, e a pessoa chega à idade adulta sem amigos, histórico amoroso e sem a menor perspectiva de reverter a situação. Nas grandes cidades, a competitividade leva as pessoas a focarem muito tempo no desenvolvimento profissional, deixando o convívio familiar, com amigos e os relacionamentos amorosos para segundo plano. O isolamento pode ser pano de fundo para a depressão.

Solitude

O termo não é muito conhecido. A solitude é a reclusão e o isolamento voluntário ou imposto que não causam sofrimento ao indivíduo. Na solitude, o indivíduo escolhe estar sozinho para buscar autoconhecimento e paz. Outro motivo para este retiro é não viver novamente experiências ruins.

O cérebro dos solitários

Ele funciona diferente. Pesquisa feita pela Universidade de Chicago (Estados Unidos) comprova isso. Os cientistas avaliaram 70 pessoas, 38 pessoas muito solitárias e 32 que não se viam dessa forma. Sensores colocados nas cabeças dos voluntários captaram ondas cerebrais e a atividade cerebral.

Os participantes olhavam para palavras em uma tela. As palavras eram divididas em quatro grupos: positivas (pertencimento e festa) e negativas (sozinho ou solitário) e emocionalmente positivas, porém, não sociais (alegria) e emocionalmente negativas, porém, não sociais (tristeza). Em um teclado indicavam as cores em que cada palavra estava escrita.

O cérebro das pessoas muito solitárias apresentava atividade diferente quando expostas a palavras negativas, entrando em modo vigilante. O estado de alerta ocorreu durante o primeiro quarto de segundo (280 mil segundos). Os cientistas concluíram que o cérebro dessas pessoas estão mais ligadas às emoções negativas, o que potencializa os malefícios da solidão.

Os benefícios da solidão

Robert Lang, da Universidade de Nevada (Las Vegas), especialista em dinâmicas sociais, afirma que a solidão será cada vez mais frequente, pois, os casamentos são cada vez mais adiados, a taxa de divórcio aumentará e as pessoas estão vivendo mais. Esta tendência possui vários entusiastas. Em sua autobiografia Mujer en Guerra (não traduzida para o português), a escritora e jornalista espanhola Maruja Torres falou do prazer que é dormir sozinha, com as pernas e braços em X.

O sociólogo Eric Klinenberg, Universidade de Nova York defende os benefícios de ficar sozinho. O autor da pesquisa GOING SOLO: The Extraordinary Rise and Surprising Appeal of Living Alone (Ficando só: o extraordinário aumento e surpreendente apelo de viver sozinho) aponta que viver sozinho significa viver relações mais saudáveis, pois, uma pessoa nessa situação sabe que é melhor ficar sozinho do que mal acompanhado, como diz o famoso ditado.

A socióloga Erin Cornwell, da Universidade Cornell, em Ítaca (Nova York) estudou pessoas acima dos 35 anos que moram sozinhas. Erin comprovou que elas fazem mais programas com os amigos. A pesquisa do sociólogo Benjamin Cornwell publicado na American Sociological Review aponta que pessoas que vivem sozinhas têm mais amigos.

Ficar sozinho: criatividade e inovação

Sabe aquele amigo tímido, que prefere trabalhar sozinho? Você se pergunta por que ele sempre tirou boas notas e faz coisas incríveis? A introversão explica isso, segundo Susan Cain, autora do livro Quiet: The Power of Introverts in a World That Can’t Stop Talking (Silêncio: O poder dos introvertidos num mundo que não consegue parar de falar). Susan é categórica, a criatividade e a inovação apresentam seu ápice em indivíduos que detestam multidões.

Ela vai à contramão de quem defende a convivência em grupo como grande fonte de criatividade. Se pesquisarmos um pouco, vemos que grandes mentes pertenciam a pessoas solitárias. Darwin, criador da Teoria da Evolução, adorava caminhar sozinho em bosques e não frequentava festas. Steve Wozniak desenvolveu o primeiro computador da Apple sozinho, dentro de um cubículo em seu local de trabalho, a Hewlett Packard, mais conhecida como HP, a gigante do mercado de computadores e impressoras.

Sozinho, porém livre

A verdade é uma só. Quando estamos em grupo, tendemos a imitar os outros. A insegurança nos faz ter medo de nossos pensamentos e vontades. O autoconhecimento vem dos momentos sozinhos. Precisamos do silêncio para conhecer nossos potenciais. Susan Cain faz um apelo em prol dos benefícios da solidão “Parem a loucura do trabalho constante em equipe. Vão ao deserto para ter suas próprias revelações”

Higiene mental

A vida moderna é cheia de estímulos. Pessoas falando, música alta, buzinas, internet roubam nossa concentração. Ficar sozinho limpa sua mente e leva você a um estágio de autoconexão, o que por sua vez, alivia o estresse. Colocar suas emoções no papel também pode fazer parte dessa higiene mental.

Ajuda a priorizar

Quando estamos sozinhos, tiramos da nossa mente tudo que não é importante. Pensamos o que é relevante para nós e traçamos metas de como alcançar nossos objetivos.

Independência

A solidão revela a força que temos dentro de nós. Descobrimos que felicidade mora em nossa alma. Tudo isso nos torna muito mais independentes e confiantes, prontos para encarar os desafios.

Produtividade

Darwin gostava de caminhar sozinho. Steve Wozniak criou o primeiro computador da Apple sozinho em um cubículo dentro da HP, empresa onde trabalhava. Viu só como ficar sozinho aumenta sua produtividade? Mesmo que você não seja um cientista ou engenheiro, pode muito bem aproveitar os momentos sozinho para se dedicar a hobbies.

E até estranho falar em benefícios da solidão. Ela sempre vista como algo triste e associada ao vazio existencial. Contudo, estar sozinho é uma ótima maneira de encontrar sua essência. É o momento onde as máscaras caem. Quando estamos sozinhos, pensamos sobre o que fazemos, como fazemos e porque fazemos. Ao entrar nesse processo de autoconhecimento, surgirão algumas questões como:

  • O que me dá prazer?
  • Qual o melhor lugar do mundo?
  • Os problemas que me atormentam hoje, terão peso amanhã?
  • Qual foi o último sonho que realizei? Faz quanto tempo?

Durante esse tempo sozinho, faça este exercício de respiração Pranayama básico. A técnica é comum aos praticantes de ioga. Eles contam de 6 a 8 tempos e o exercício acalma o sistema nervoso, estimula a concentração e diminui o estresse.

  • Inspire pelo nariz e conte de 1 a 4
  • Expire pelo nariz e conte de 1 a 4

Outro exercício de respiração usado na ioga é o Abdominal Breathing Technique.

  • Coloque uma mão no peito e outra no abdômen
  • Inspire pelo nariz de forma profunda. O diafragma e o peito não podem ficar cheios de ar
  • Respire de 6 a 10 vezes por minuto

A prática desse exercício por 8 semanas já traz benefícios ao corpo e a mente

Não devemos ter medo da solidão. Ela não é a ausência de companhia, existem casais que vivem isolados um do outro, pessoas que têm vários amigos nas redes sociais, mas são insuportavelmente sozinhas. Pense nisso antes de sentir pena de uma pessoa que não é rodeada de amigos. Será que você não sofre de solidão às avessas?

Aproveite cada oportunidade de estar em sua companhia.

Descubra o que se passa em sua mente e em seu coração. Descubra o que faz mal, trace estratégias para limpar esse lixo emocional. Aprimore seus talentos e deixe aflorar novas habilidades. Você terá uma grata surpresa.

A solidão nos permite recuperar “o gosto pelo silêncio e pelo domínio do tempo”, Javier Urra, psicólogo espanhol.


Texto escrito por Sumaia Santana da Equipe Eu Sem Fronteiras.

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