Como jornalista, eu observo.
Como psicóloga, eu escuto.
Como palhaça, eu erro em público — e sobrevivo.
Talvez por isso o tema do pertencimento nunca tenha sido abstrato para mim. Ele aparece na prática, no corpo, na relação. Aparece quando alguém tenta se encaixar demais. Aparece quando alguém se cala para continuar sendo aceita. Aparece quando a gente ri de si mesma para ver se cabe. Pertencer não é estar certo. É não ser descartada quando erra.
Na psicologia, a necessidade de pertencimento é básica. Antes da autoestima, antes da realização pessoal, vem o vínculo. O cérebro humano se organiza no contato, no reconhecimento, no olhar que diz “você existe”. Mas, curiosamente, vivemos numa cultura que exige performance constante, inclusive nas relações. Como se fosse preciso entregar uma versão editada de si para merecer ficar.
É aí que o pertencimento se perde.
Como palhaça, eu aprendi cedo que o erro pode ser ponte. Que a queda gera riso, aproxima, cria humanidade. O palhaço não pertence porque acerta, mas porque revela o que todos escondem. Talvez seja isso que falte nas nossas relações: menos acerto, mais verdade.
No consultório, eu escuto pessoas exaustas de tentar caber. Gente que confunde pertencimento com adaptação infinita. Que aprende a ler o ambiente, prever reações, diminuir desejos. Psicologicamente, isso custa caro. O corpo entra em estado de alerta. A comunicação trava. A relação deixa de ser abrigo e vira campo minado.
Pertencer, de verdade, não elimina conflito. Elimina o medo de ser abandonada por causa dele.
Como jornalista, vejo o quanto falamos de comunidade, inclusão e diversidade. Como psicóloga, percebo o quanto ainda temos dificuldade de sustentar diferenças no cotidiano. E, como palhaça, sei que o riso surge quando a rigidez cai. Pertencimento exige flexibilidade emocional.
Comunidade saudável não é lugar de perfeição. É lugar de reparo. Onde se pode falar, escutar, errar, pedir desculpa e continuar. Onde o vínculo não depende de estar sempre bem, mas de estar presente.
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Talvez pertencer não seja encontrar um lugar onde tudo faz sentido, mas um lugar onde não é preciso fazer sentido o tempo todo. Onde o silêncio não vira exclusão. Onde a diferença não vira ameaça. Onde o erro não vira expulsão.
No fim das contas, pertencer é isso:
Ter com quem dividir a vida sem precisar performar.
E isso, para mim, é profundamente psicológico — e profundamente humano.
