Autoconhecimento Psicologia

Precisamos falar sobre luto

Tatiane Mosso
Escrito por Tatiane Mosso

Embora tenhamos a impressão de viver em um tempo habitado por uma sociedade extraordinariamente moderna, certamente ainda há muito de uma sociedade sensivelmente tradicional e cheia de tabus, onde alguns assuntos por exemplo, parecem sequer ter vez, como falar sobre perdas, falar sobre luto.

Vivemos o tempo todo querendo acreditar que temos tudo planejado e sob controle, mas de repente nos damos conta de que nada está determinado. E para isso basta pensar em quantas vezes saímos de casa com previsão de tempo frio e o Sol decidiu aparecer durante todo o dia e vice-versa. Quero dizer que mudanças acontecem em nossas vidas e muitas sem aviso prévio, o que parece tornar a vida insegura. É essa insegurança que assusta e provoca medo, por isso, na maioria das vezes “fazemos de conta” que está tudo sob controle, até mesmo porque ficar pensando o tempo todo que tudo é incerto em nossas vidas não parece também adequado, pois estou dizendo não temos garantias de que tudo dará certo e nem errado, portanto tudo novamente parece se tornar possível.

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O difícil parece ser aceitar essa falta de controle sobre as coisas, sobre a vida e por isso a vida se mostra como algo tão frágil e valioso para quem já perdeu algo ou alguém. E é esse momento de dor após a perda que chamamos de luto.

Comumente, as pessoas imaginam e entendem com facilidade que o luto é o sofrimento experienciado somente por alguém que tenha perdido um membro da família ou um ente querido. Sim, essa perda pode desencadear um processo de luto, mas não somente nesses casos, pois o enlutamento pode ser experimentado quando passamos por uma perda significativa, seja ela de que natureza for.

Podemos pensar em luto pela morte de um animal de estimação,  não pela morte do parceiro, mas pelo término de um relacionamento igualmente não desejado, pela conclusão de um curso de graduação, por mudança de cidade, após uma demissão, entre outras importantes perdas, como a perda da saúde.

O que está em questão não é o que se perde, mas a relação estabelecida entre o enlutado e o que ele perdeu. Quando se perde a saúde, por exemplo, pode haver perda decorrente de independência, autoestima, funções físicas, entre outras significativas perdas, como para quem conclui um curso de graduação, que pode experimentar o luto pela perda da rotina e dos amigos.

O enlutamento pode se estabelecer quando há perda dos expressivos vínculos estabelecidos, pois o que está em jogo é a relação afetiva.

Essa experiência pode ser percebida como interruptor da estabilidade familiar e emocional, bem como marcar uma momentânea indisponibilidade afetiva e nas relações sociais, destacando os questionamentos em relação ao sentido da vida, as dúvidas e incertezas relacionadas ao futuro, consequente de uma perda desestabilizadora.

Sobretudo os acontecimentos inesperados, acabam por desafiar o nosso mundo presumido e requerem períodos de reaprendizagem e adaptações.

Embora vivenciar o luto seja um processo doloroso, em muito casos quase insuportável, é possível encontrar em meio ao vazio provocado pela perda recursos para transpor a dor e suportar a ausência, abrindo brechas para a reorganização da vida de quem fica e do que fica.

“Portanto, amor e perda são duas faces da mesma moeda. Não podemos ter um sem nos arriscar ao outro.”

(Amor e Perda, Colin Parkes)

Sobre o autor

Tatiane Mosso

Tatiane Mosso

Psicóloga (CRP 06/117983), com aprimoramento clínico em Fenomenologia-Existencial pela PUC-SP e especialização em psicologia clínica na perspectiva Fenomenológico-Existencial pelo Instituto de Psicologia Fenomenológico-Existencial do Rio de Janeiro – IFEN. Atua na área clinica, em seu consultório particular em São Paulo.

Uma breve elucidação...

A psicologia é uma ciência da área da saúde e minha sustentação dessa clínica se faz na perspectiva Fenomenológico-Existencial, que é uma área do conhecimento inspirada na filosofia e que busca uma compreensão ampla do ser humano, considerando sua história de vida e respeitando sua singularidade. A psicoterapia existencial é apenas um dos caminhos da psicologia para acompanhar a experiência do outro, que se dá a partir da articulação de sentido que se faz e que não é estática, afinal, vida é movimento!

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