Autoconhecimento

Ser ou não ser, eis a indisposição

Zil Camargo
Escrito por Zil Camargo
Outro dia estava lendo uma reportagem com a Adélia Prado e ela disse algo que me chamou muito a atenção. A repórter questionou sobre como ela vivia com tanta disposição e energia mesmo já tendo chegado a certa idade e como ela lidava com a questão do envelhecimento. Adélia respondeu: “Se aceitar requer muita morte do ego.

Fiquei pensando sobre isso longamente e concluí que ela está com a razão.

Sabendo que, de uma maneira resumida, o ego é responsável pela diferenciação que o indivíduo é capaz de fazer entre seus próprios processos interiores e a realidade que se apresenta, aceitar as transformações que nos são impostas com o tempo requer mesmo muita morte do ego, em termos filosóficos, é claro!

Em outras palavras, viver bem consigo mesmo, com a própria imagem e, inclusive, com as próprias limitações, exige uma dose de desprendimento a despeito daquilo que gostaríamos de ter ou ser, ou ainda daquilo que nos é cobrado como um padrão.

Nesse ponto, lidar com pressões sutis que ditam uma conduta ou um modelo de beleza vai exigir muita personalidade e autoestima elevada.

Quantos de nós já nos sentimos desconfortáveis por estar um pouco acima do peso, com algumas linhas de expressão mais proeminentes ou simplesmente um corte de cabelo desatualizado?

Parece absurdamente superficial se preocupar com isso. E até certo ponto, é. Costumo dizer que se uma pessoa julga minha capacidade pela minha aparência, esse é um tipo de pessoa com a qual eu sequer tenho vontade de interagir. Mas até para pensar assim, requer muita disposição.

Disposição de se contrapor, de fugir do padrão, de se aceitar ou em poucas palavras, disposição de ser.

Todos nós seremos julgados em algum momento dentro de um determinado contexto e isso, até certo ponto, é natural que aconteça. O problema é quando esse julgamento ultrapassa aquela delicada película que devemos respeitar: a do bom senso, e rompe o nosso, ainda mais delicado em alguns casos, sentimento que temos sobre nós mesmos.

É a partir daí que nosso processo interior se desestabiliza e temos, no melhor do caso, o “ego ferido”.

Aperfeiçoar nosso amor-próprio é um processo de aceitação e um exercício constante.

No entanto, algumas transformações serão inevitáveis e independem de julgamento de terceiros. A mudança de nosso corpo, por exemplo, seja por alterações de peso, por alguma fatalidade ou pelo avanço dos anos.

Aqui começa a “morte do ego” sobre a qual Adélia Prado fala. E essa morte nada tem de trágica ou de dolorosa, ou ao menos não precisa ter. É diferente do que chamei de ego ferido, porque não desestabiliza o nosso processo interior – ou não deveria.

Ou seja, ainda que haja alguma transformação em nosso corpo, essa não precisa acontecer em nossa imagem, logo, nosso processo interior fica em harmonia com a realidade que se apresenta. Aperfeiçoar nosso amor-próprio é um processo de aceitação e um exercício constante.

Para isso, é necessário disposição de nos considerarmos competentes para enfrentar os desafios básicos da vida e de sermos dignos da felicidade da maneira como somos e com todas as capacidades que possuímos.

Essa disposição precisa ser entendida como uma vontade de atingir um objetivo, uma intenção, e mais, como uma condição física e emocional. Se esses elementos não estiverem em comunhão haverá terreno fértil para o “ não ser”, a negação de si mesmo, a indisposição.

E talvez seja esse o segredo ou a regra básica para o bem viver: escolher aplicar nossa disposição ou indisposição para o nosso ser ou não ser.

Sobre o autor

Zil Camargo

Zil Camargo

Na diversidade de cada ser, é injusto com a vida, neste mar de experiência que ela concede, tentar nos definir assim, com meras palavras.

Mas dentro de mim mora alguém inspirada, sensível, às vezes curta ou grossa, ora dramática, ora objetiva.

Mãe, artesã, escritora amadora; consultora para ganhar a vida e interessada no comportamento humano.

Estudiosa de assuntos relacionados à psicanálise, filosofia e espiritualidade; uma aprendiz procurando desenvolver oportunidades em busca do bem viver.

Contato: [email protected]