Autoconhecimento

Sobre Medo e Sonhos

— Sabe de uma coisa que o medo também faz? — perguntei, sem esperar uma resposta. — Ele nos mostra o caminho a seguir.

Quando disse aquelas palavras, o senhor olhou para mim com o olhar curioso de uma criança prestes a ouvir um conto de fadas novo. Continuei:

— Por exemplo, Juca tinha muito medo de altura, um pavor real, e até hoje tem. Certa vez, foi desafiado por um primo muito convincente a subir no telhado. Como Juca era muito influenciável naquela idade, ele subiu, mesmo tremendo as pernas. Só que o detalhe é que os dois estavam sozinhos na casa do outro garoto. E para piorar, o Sol já havia se posto havia pelo menos meia hora. Quando Juca chegou lá em cima, o primo pestinha retirou a escada utilizada para subir e foi para dentro de casa rindo. Juca ficou paralisado, sem ideia do que fazer. Ele chorou e gritou pelo primo, sem resposta. Já estava escuro e algumas estrelas começaram a aparecer. Sem coragem para tentar procurar outro modo de descer, ele se encolheu no canto mais seguro que pode encontrar e lá ficou por toda a noite. Depois de um tempo, as lágrimas já haviam secado e ele passou a observar o céu. Nunca parara para olhar o céu noturno com tanta atenção como fazia naquele momento. Ficou maravilhado com todos aqueles pontos luminosos, queria poder alcançá-los. E assim nasceu o seu amor pelos astros. Era nas alturas que seu medo morava e era também lá a morada de seu maior amor.

— Nunca analisei por essa perspectiva — o senhor parecia refletir sobre o que eu disse.

Agora eu estava empolgado e queria continuar.

— Sim. E no dia seguinte, ele me contou de um sonho que teve lá no telhado mesmo. Um sonho desses que se vive dormindo, não os de realizar acordado. O sonho começou com ele em uma casa muito antiga em uma grande clareira rodeada por uma floresta densa. Ao olhar para cima, ficou hipnotizado com o céu mais estrelado que já vira. Era algo que só poderia ser descrito nos contos mais fantásticos sobre os deuses e o Universo. Ele admirava aquela beleza infinita, quando notou alguém se mover perto da porta da casa. Lá estava um homem muito velho. Juca logo notou que ele devia ser um marceneiro ou coisa assim pelo tanto de ferramentas espalhadas pelo quintal e pelo martelo que segurava na mão esquerda. O velho o olhou e sorriu, acenando para que se aproximasse. Juca foi até ele. O senhor guardou o martelo sobre uma mesa de três pernas, abraçou alegremente meu amigo e pediu para que ele o acompanhasse. Os dois seguiram para atrás da casa. Lá Juca viu uma escada gigantesca feita de madeira. Era realmente alta, Juca nem podia ver seu fim. Parecia alcançar as estrelas. Aquilo o assustou. O velho lhe sorriu e foi em direção à escada, acenando para que Juca o seguisse. Juca andou até a escada e o velho começou a subir. Subiu e subiu até desaparecer nas alturas. Juca olhava aquilo paralisado. Sabia que o velho queria que ele subisse. Mas a altura infinita daquela escada simples e delgada o apavorava. Não queria nem olhar mais para cima. Ele ficou ali por um tempo, tentando respirar e decidir o que fazer. Não havia mais sinal do velho. Então respirou fundo e olhou para cima. Foi assim que viu aquele céu ornado de luzes cintilantes, como diamantes e todo tipo de pedra preciosa. Mais uma vez sentiu sua alma se maravilhar com aquele espetáculo grandioso. Seu corpo se encheu de euforia e a excitação tomou o espaço que antes ao pavor pertencia. Assim, segurando a escada, começou a subir. Subiu e subiu até o infinito, com um único pensamento na cabeça: “Pelo meu sonho de tocar as estrelas, eu subo até a mais elevada das alturas”. Ele não se lembra de ter alcançado o fim da escada ou encontrado o velho homem, porém jamais se esqueceu daquele sonho e de como nenhum medo é capaz de impedir que ele chegue ao seu objetivo maior.

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Terminei a estória e o senhor olhava para baixo pensativo. Acho que havia tocado algo nele. Aquele sonho era realmente lindo.

— Então você diz que o medo aponta o caminho para alcançarmos nossas aspirações reais? — ele finalmente falou.

Este texto é um trecho do livro “Acolhidos”, ao qual tenho me dedicado nos últimos tempos. Catulo e o senhor conversam sobre o medo e como este pode limitar ou impulsionar você, dependendo de que lado se põe.

Agradeço a leitura e, quem se interessar pelo livro, por favor, deixe-me saber.

Sobre o autor

Andrews Amoramar

Anos atrás surgia por estas terras um pequeno garoto, um garoto que amou logo de cara o que viu. Um pequeno sonhador, explorador do quintal de casa, curioso pelas coisas afora. Esse pequeno amava desde cedo criar, e explorava sua criatividade com uma folha e lápis na mão, desenhando seus personagens preferidos.

Os anos passaram e o pequeno esticou em tamanho, porém a curiosidade e a ânsia em criar se mantiveram as mesmas. Hoje o garoto tem novas ferramentas e conhecimento para explorar mais e mais. Hoje o quintal é maior, relativamente maior. As experiências muito mais desafiadoras e às vezes assustadoras, mas o desafio maior é manter viva a alegria do garoto, mesmo em meio a tantos obstáculos.

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