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Amor e limites: a sabedoria da infância

Imagem de uma criança de costas olhando para as nuvens, de braços abertos e em uma das mãos ela segura uma flor de catavento colorida.
Zurijeta / Canva
Escrito por Andrews Rodrigues

Este texto é um convite para resgatar a espontaneidade, reacender a chama da presença no agora e honrar essa sabedoria sensível que já existia em você. Reencontrar essa alegria genuína é a jornada mais importante, e é isso que a criança que habita em seu coração ainda espera.

Essa pequena história é para que você lembre a criança interior que, antes de dormir, ansiava pelo amanhecer. Era um desejo puro de viver, um aproveitar o momento sem cálculo, uma felicidade simples que a rotina adulta muitas vezes apaga. Este texto é um convite para resgatar a espontaneidade, reacender a chama da presença no agora e honrar essa sabedoria sensível que já existia em você. Reencontrar essa alegria genuína é a jornada mais importante, e é isso que a criança que habita em seu coração ainda espera.

Era fim de tarde, minha camiseta surrada estava toda manchada de terra e eu corria tanto que minhas pernas não acompanhavam o desejo de romper com o vento. Os meninos da rua gargalhavam e corriam espalhados pela calçada, se escondendo e se esquivando em nossa brincadeira de criança dos anos 90.

Lá do outro lado da rua, por sobre o muro, uma voz já ecoava há um tempo, mas era ignorada por minhas orelhas entregues ao momento. Foi quando, por sobre o muro, surgiu uma cara brava e, antes mesmo do grito esbravecido romper o ar quente da rua, o garotinho à minha frente, com uma expressão assustada da face fina, apontou com seu dedo pequeno na direção que eu voltava minhas costas. Não tive tempo de olhar e o berro já conhecido invadiu meus ouvidos, me arrepiando as canelas secas.

Quando aquele berro era dado, não havia muito tempo para se reclamar ou ignorar. A molecada deu risada em coro e todos correram para o terreno baldio logo à frente. Minha mãe berrou de novo, dessa vez com menos raiva. Eu me virei com ombros e face caída, atravessei a rua com um andar chocho, pretendia pular o muro, mas minha mãe, prevendo o movimento, me apontou o portão. Dei a volta, bati o portãozinho e levei um esporro por isso também.

Já dentro de casa – “Vá direto para o banho” – gritou ela. Sem me demorar, segui para o banheiro. Lá me despi jogando a roupa no canto, lá de fora um grito surgiu – “E joga essa roupa no cesto”. Como ela fazia aquilo, eu pensava. Será que mamãe lia mentes ou via pelas paredes?

No chuveiro, comecei a cantar, a água quente ardia nas feridas em meus joelhos, ombros e pés, mas eu gostava da água esquentando minhas costas magrelas. Não me demorei, já sabendo que não demoraria em receber outra reprimenda feroz de mamãe.
Me enxuguei, pendurei a toalha e fui para a cozinha. A janta estava posta. Mainha me mandou sentar, naquele momento a braveza dela tinha passado. Ela adorava me ver saindo do banho cheiroso, jeitoso, com o cabelo penteadinho. Eu não gostava de pentear o cabelo, mas o fazia para vê-la sorrir e me afagar a bochecha quando eu sentava à mesa. Sempre funcionava.

Imagem de um prato de comida composto por arroz, feijão preto, bife e salada de alface com tomate. Ao lado um copo de suco de laranja.
Winston Gambatto / Getty Images / Canva

A comida era a de sempre: feijão, arroz branco, um bife bem passado para mim e um mal passado para ela, e uma folha de alface com tomates. Às vezes, eu adicionava um pouquinho de farofa, já minha mãe comia com muita pimenta e depois bebia caldinho de feijão.

Aquela era uma quarta-feira e, à noite, após o jantar, ela se sentava comigo no sofá, esticava as pernas em um banquinho e passava o braço por sobre mim, ligava na novela para assistirmos juntos. Eu nem gostava muito das novelas, ficava querendo mesmo é assistir os desenhos que passavam na outra emissora, mas era meu momento com mainha, depois dela ter trabalhado o dia todo nas casas de patroas e mais um tantão na nossa.

Mainha ria e chorava com a novela e eu assistia seus humores, lembrando como ela era como rapadura, docinha, mas dura. Sempre tão brava e amorosa. Eu olhava sua mão calosa que me fazia cafuné, e que também tantas vezes me lançava o chinelo nas costas. Eu sentia tanto a raiva dela quanto o amor, mas a raiva era momentânea e o amor era constante.

Depois que a novela acabava, começava o jornal e ele deixava eu colocar nos desenhos e assistia comigo até outra novela começar. As noites passavam assim, até a hora de ir para a cama. Uma memória afetiva poderosa.

Deitado sob a coberta, eu ainda não me sentia com sono e geralmente não queria dormir, pois ainda desejava aproveitar o dia, sendo assim eu vagava por minha imaginação. Imaginava-me em aventuras pelas nuvens, correndo com seres imaginários, pensava nos meninos da rua rindo de mim enquanto eu voltava para casa aborrecido, lembrava de Gracinha, a menina da escola que fazia palpitar meu coraçãozinho de menino, e lembrava de mainha rindo da novela enquanto repousava de leve a mão pesada sobre minha barriga. Pensava em tudo que compunha minha vida de menino, ansioso para levantar logo e viver meu novo dia.

E é isso, se o texto te fez lembrar da sua própria história de pequeno, me conta.
E a criança que habita em mim saúda a criança que habita em você.

Sobre o autor

Andrews Rodrigues

Anos atrás surgia por estas terras um pequeno garoto, um garoto que amou logo de cara o que viu. Um pequeno sonhador, explorador do quintal de casa, curioso pelas coisas afora. Esse pequeno amava desde cedo criar, e explorava sua criatividade com uma folha e lápis na mão, desenhando seus personagens preferidos.

Os anos passaram e o pequeno esticou em tamanho, porém a curiosidade e a ânsia em criar se mantiveram as mesmas. Hoje o garoto tem novas ferramentas e conhecimento para explorar mais e mais. Hoje o quintal é maior, relativamente maior. As experiências muito mais desafiadoras e às vezes assustadoras, mas o desafio maior é manter viva a alegria do garoto, mesmo em meio a tantos obstáculos.