O aumento de quadros psicóticos associados ao uso de substâncias psicoativas deixou de ser um evento raro na prática clínica. Ambulatórios, pronto atendimentos psiquiátricos e internações têm recebido adultos com desorganização do pensamento, paranoia, alterações perceptivas persistentes e ruptura do funcionamento cotidiano após o uso de maconha, psicodélicos e outras drogas. Em muitos desses casos, a suspensão da substância não resulta em reversão rápida do quadro. O sofrimento se prolonga, exige acompanhamento contínuo e altera profundamente a vida da pessoa.
A ideia de que esses riscos se restringem a adolescentes é falsa. Um número crescente de adultos apresenta primeiros episódios psicóticos após anos de uso, muitas vezes iniciados na juventude e mantidos ao longo da vida. A maturidade cronológica não protege um cérebro vulnerável de processos de desorganização quando substâncias que alteram a neurotransmissão são usadas de forma repetida.
A esquizofrenia e outros transtornos psicóticos envolvem alterações complexas no funcionamento cerebral. Há participação genética importante, além de fatores ligados ao desenvolvimento neural e à regulação de sistemas como dopamina, glutamato e serotonina. Esses quadros não surgem do nada, mas também não precisam de um único fator para se manifestar. Substâncias psicoativas atuam como elementos capazes de precipitar crises, antecipar sintomas e intensificar desorganizações já em curso.
A maconha ocupa posição central nesse cenário. A literatura científica é consistente ao apontar associação entre uso frequente de cannabis e aumento do risco de psicose em pessoas vulneráveis. Produtos com alta concentração de THC apresentam risco ainda maior. Em adultos, o uso contínuo pode desencadear o primeiro surto psicótico ou transformar sinais leves em quadros graves. Não se trata de um fenômeno pontual. Trata-se de um padrão observado repetidamente em estudos e na clínica.
Há um período que antecede o primeiro surto psicótico que costuma passar despercebido. Mudanças no comportamento, retraimento social, ansiedade intensa, alterações no pensamento, sensação de estranhamento da própria experiência e dificuldades cognitivas surgem gradualmente. Muitos adultos continuam trabalhando e se relacionando, enquanto a organização mental já está fragilizada. O uso de maconha nesse período acelera a perda de coerência psíquica e aumenta a chance de ruptura mais intensa.
A noção popular de que a substância apenas relaxa ou amplia a percepção não encontra respaldo quando se observa o efeito em cérebros predispostos. O THC interfere diretamente em circuitos ligados à percepção de ameaça, à organização do pensamento e ao processamento da realidade. Em pessoas vulneráveis, essa interferência favorece ideias persecutórias, desorganização cognitiva e alterações persistentes da percepção.
Outro ponto relevante envolve a frequência. O risco não é igual para todos os padrões de uso. Usuários frequentes apresentam maior probabilidade de desenvolver quadros psicóticos do que usuários ocasionais. A continuidade do uso após um primeiro episódio agrava o prognóstico, aumenta as recaídas e dificulta a recuperação funcional. Na prática clínica, interromper o uso é uma das primeiras e mais importantes medidas terapêuticas.
Além da maconha, psicodélicos como psilocibina e LSD também exigem atenção. Embora estudos em ambientes altamente controlados investiguem possíveis aplicações terapêuticas, esses mesmos protocolos excluem rigorosamente pessoas com histórico pessoal ou familiar de psicose. Essa exclusão não é arbitrária. Ela reflete o risco elevado de desorganização psíquica prolongada em indivíduos vulneráveis.
Fora do ambiente clínico, o uso recreativo dessas substâncias ocorre sem triagem, sem acompanhamento e sem contenção. Experiências intensas de alteração perceptiva e cognitiva podem desencadear episódios psicóticos persistentes. Em adultos, isso pode significar perda de autonomia, prejuízo profissional, rupturas familiares e necessidade de tratamento prolongado. O custo pessoal é alto e muitas vezes irreversível.
É comum ouvir relatos de que os sintomas surgiram após uma experiência que parecia positiva. Sensações de expansão, conexão ou compreensão súbita podem anteceder semanas ou meses de confusão mental, paranoia e sofrimento intenso. A ausência de acompanhamento adequado agrava esse processo.
É fundamental diferenciar episódios psicóticos transitórios induzidos por substâncias de transtornos psicóticos estabelecidos. Em alguns casos, os sintomas diminuem com a suspensão do uso. Em outros, o episódio marca o início de um quadro duradouro. Essa distinção só é possível com avaliação clínica cuidadosa e acompanhamento ao longo do tempo.
A idade adulta não elimina o risco. Cérebros vulneráveis continuam vulneráveis. Estresse crônico, privação de sono, histórico de trauma e uso de substâncias formam uma combinação perigosa. Muitos adultos recorrem a drogas como tentativa de aliviar sofrimento emocional, sem perceber que estão ampliando a desorganização interna.
A prática clínica mostra que minimizar esses riscos produz consequências graves. O discurso de que tudo depende de intenção ou de contexto ignora dados objetivos. Substâncias psicoativas alteram sistemas neuroquímicos centrais. Em pessoas predispostas, essa alteração pode precipitar quadros incapacitantes.
A responsabilidade clínica exige clareza. Adultos com histórico familiar de psicose, sinais de desorganização mental, ansiedade intensa associada a alterações perceptivas ou uso frequente de substâncias precisam de orientação profissional imediata. A interrupção do uso, a avaliação psiquiátrica e o acompanhamento psicológico são medidas de proteção, não exagero.
Você também pode gostar
A informação precisa circular sem suavizações. O sofrimento que chega aos consultórios é concreto. Pessoas perdem anos de vida funcional após episódios psicóticos associados ao uso de substâncias. Famílias são impactadas. O tratamento é longo e exige recursos.
O ponto central é simples. Substâncias psicoativas não atuam em um vazio. Elas interagem com a biologia, a história e a organização psíquica de cada pessoa. Para alguns, o risco é baixo. Para outros, o risco é alto demais para ser ignorado. A clínica mostra isso diariamente.
Referências científicas
Marconi A. et al. Association between cannabis use and risk of psychosis. JAMA Psychiatry, 2016.
Di Forti M. et al. High potency cannabis and the risk of psychosis. British Journal of Psychiatry, 2009.
Di Forti M. et al. Contribution of cannabis use to variation in incidence of psychotic disorders across Europe. The Lancet Psychiatry, 2019.
Schoeler T. et al. Continued cannabis use and risk of relapse in first episode psychosis. JAMA Psychiatry, 2016.
Robinson T. et al. Risk thresholds for frequency of cannabis use and psychosis. Psychological Medicine, 2023.
Rucker J. et al. Psychedelics and psychiatric disorders. Review articles, 2023–2024.
