Existe um equívoco muito comum entre pessoas bem-intencionadas: o de que a verdade sempre se impõe quando se faz incontestável. Na cabeça delas, bastaria organizar os fatos, alinhar dados, apresentar o contexto com transparência, e pronto: o outro compreenderá quase no automático. O raciocínio é indiscutivelmente lógico: afinal, quem poderia resistir à força de fatos que falam por si mesmos?
A realidade, porém, costuma responder com um sorriso irônico, pois há quem discuta para entender, outros que discutem para vencer, e os que discutem apenas para não se afastar da versão que construíram para si mesmos. Contra estes últimos, os argumentos mais sólidos são tão eficazes quanto sementes lançadas sobre mármore: não germinam simplesmente porque nunca houve a intenção de cultivo.
Deming já defendia que, sem dados, temos apenas opiniões. Mas há pessoas que não estão interessadas em dados, mas em munição. E, diante disso, fatos não vão além de um detalhe incômodo, pois não se deseja fatos quando o viés é de confirmação. Por esse prisma, o problema não se restringe à ausência de informação, mas ao excesso de convicção que antecede – e se impõe – ao conhecimento. Em síntese, aquele tipo de veredito que vem antes do processo.
É curioso quando o mundo é julgado não pelo que ele é, mas pelo que precisamos que ele seja para sustentar narrativas pré-estabelecidas. Quando alguém condena aquilo que nunca se dispôs a conhecer, não está, claramente, preocupada com a verdade, mas tão somente protegendo o próprio espelho, e espelhos odeiam rachaduras.
A prática mais comum é a do poder por si mesmo, mesmo não sabendo o que fazer com ele. É o tal do “faça isso, faça aquilo” que não leva a nada, mas massageia o ego, algo que já assistimos várias vezes. Pouco se atenta para o fato de que autoridade não substitui competência, e tom de voz não substitui razão. Ele até consegue intimidar os mais fracos, mas não constrói coisa alguma.
É notório que espíritos pequenos se sentem ameaçados pelos que os ultrapassam. E não necessariamente por maldade explícita, mas por insegurança: dá menos trabalho reduzir o que é grande do que admitir a própria limitação, e bem mais simples desqualificar o que incomoda do que conhecer o que é feito, e aprender com ele.
Mas justamente aí vem o ponto em que falhamos: acreditar que não se explicou o suficiente porque os fatos já mostram tudo, caindo na armadilha de que basta trazer mais um dado, esclarecer o ponto sob outro ângulo. “Talvez se eu me mostrar mais didático… talvez se eu for mais paciente…” é o que pensa o bem-intencionado, esquecendo-se de que paciência é virtude, mas ingenuidade, não.
Quando o que se quer é tão somente confirmar a visão distorcida dos fatos, os acertos vão permanecer no subsolo, enquanto os supostos erros serão trazidos à luz como verdades absolutas, pois nenhum acerto será o bastante para quem já escolheu não ver. E é quando o diálogo, em lugar de atuar como ponte, é transformado em palco onde cada frase troca compreensão por aplauso.
Trazendo o foco para os protagonistas desse drama, o que vimos até aqui invalidaria a sustentação dos fatos? Decididamente, não! Significa apenas que se precisa discernir entre o que traz eficácia e o que produz exaustão sem qualquer resultado prático. Assim, em vez de se ocupar com quem não quer ver, mude-se o foco para os que o querem. É direito de todos ter acesso aos fatos, mas os aceita somente quem quer. O fato é que aprender cobra abdicar de uma certeza anterior. E isso é muito difícil para alguns, principalmente os que se sentem menos fragilizados com verdades que eles próprios construíram, e mais assustados com as que precisam aceitar em nome do bem comum.
Você também pode gostar
Há batalhas que precisam ser travadas, e momentos em que é preciso suportar o impacto e seguir em frente, mesmo sob condições adversas, e isso é o que distingue os fortes dos covardes. Mas há também o momento de reconhecer quando se tenta ensinar um porco a cantar. E não faz diferença se o porco é importante ou se a melodia é bela, mas simplesmente porque o momento não comporta música, e insistir não irá apenas nos frustrar, como ainda irritar o porco.
Maturidade de diálogo talvez seja isso: saber quando argumentar, silenciar ou simplesmente seguir em frente, naquela fusão bíblica da prudência da serpente com a simplicidade da pomba. Afinal, lutar por causas legítimas pode ser doloroso, mas lutar contra a surdez deliberada é exaustivo, além de que não altera a realidade, mas traz desgaste e, o que é pior, se faz absolutamente inútil.
