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Onde mora a esperança?

Mochila sobre carteira em sala de aula vazia, com lousa ao fundo.
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Escrito por Luis Lemos

Em meio ao cotidiano de uma sala de aula, uma pergunta simples revela sonhos, silêncios e uma ausência inquietante… Onde mora a esperança quando tudo parece perdido? Uma história que toca fundo e surpreende. Continue a leitura!

Na manhã quente de uma terça-feira, em uma escola pública da periferia de Manaus, a sala de aula já estava cheia antes mesmo do sinal tocar. O barulho dos alunos se misturava ao som das motos na rua e ao vento tímido que entrava pelas janelas abertas.

O professor entrou com passos tranquilos, carregando apenas um caderno. Sem dizer nada, escreveu no quadro: “Para que serve a escola?” Os alunos copiaram, alguns com curiosidade, outros com desinteresse.

— Hoje, vocês vão me ajudar a responder isso — disse ele, virando-se para a turma.
Um silêncio leve tomou conta da sala.

— Antes, quero compartilhar com vocês uma frase de um grande pensador brasileiro — continuou, escrevendo logo abaixo:

— “A educação é um ato de amor, por isso, um ato de coragem.” (Paulo Freire)

Os alunos olharam para o quadro. Alguns reconheceram o nome, outros não.

Professor escrevendo no quadro enquanto dois alunos sentados assistem à aula.
Sandra Dans / Studio Philippines / Canva

— O que vocês acham que isso significa? — perguntou o professor.

— Que ensinar não é fácil? — arriscou João.

— Que precisa gostar das pessoas — disse Ana.

— E também tem que ter muita paciência – disse Fábio.

O professor concordou. E, caminhando entre as carteiras, indagou:

— O que vocês esperam do futuro?

As respostas vieram aos poucos:

— Eu quero ser policial — disse João, com os olhos firmes.

— Eu quero ser médica — falou Ana, sorrindo tímida.

— Eu só quero trabalhar e ajudar minha mãe — murmurou Fábio, olhando para o chão.

Outros falaram de dinheiro, de sair do bairro, de “ser alguém na vida”. O professor ouvia tudo em silêncio, como quem recolhe pequenas confissões.

De repente, no fundo da sala, uma voz que ninguém esperava:

— Eu não espero nada, professor!

Era Lucas. Sempre quieto, sempre no canto. Ninguém lembrava da última vez que ele havia levantado a mão.

— Como assim, Lucas? — perguntou o professor, aproximando-se.

O menino deu de ombros.

— Nada dá certo mesmo.

A frase caiu na sala como um copo quebrado.

O professor ficou alguns segundos em silêncio. Depois voltou ao quadro, apagou tudo com a mão e escreveu apenas uma palavra:

“Esperança”.

— A escola serve pra isso — disse, com uma calma estranha. — Para a gente aprender a não desistir da vida.

O sinal tocou. Os alunos começaram a sair, ainda comentando a aula. Alguns riam, outros discutiam seus sonhos como se fossem possíveis.

Lucas foi o último a sair. Parou na porta. Olhou para o professor. Parecia que ia dizer alguma coisa, mas desistiu. Saiu.

Naquele mesmo dia, à noite, a escola apareceu no noticiário local. Um aluno havia sido encontrado morto, vítima de um acerto de contas no bairro.

O nome dele?

Lucas.

Depois do luto, o professor voltou à sala. Olhou para o quadro, respirou fundo e, com a mão trêmula, reforçou a palavra que nunca deveria desaparecer da vida daqueles jovens:

— Esperança.

Sobre o autor

Luis Lemos

É professor, filósofo, escritor, autor, entre outras obras de, “O primeiro olhar A filosofia em contos amazônicos" (2011), “O homem religioso A jornada do ser humano em busca de Deus” (2016), “Jesus e Ajuricaba na terra das amazonas Histórias do universo amazônico” (2019), “Filhos da quarentena” (2021) e “Amores que transformam” (2024).

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