Autoconhecimento Comportamento Convivendo Filosofia

A autonomia que não se sustenta

Imagem de várias pessoas caminhando e atravessando em uma faixa de pedestres, olhando apenas para o horizonte, simbolizando a autonomia que cada pessoa tem.
Zeeshaan Shabbir / Pexels / Canva

Há pessoas que encontram força na própria autonomia. Não por frieza, mas por uma necessidade profunda de sustentar a própria existência sem transformar vínculos em dependência emocional ou obrigação afetiva.

Há quem atravesse a existência como quem protege uma chama em meio ao vento. Não necessariamente por mero orgulho ou vaidade de parecer invulnerável, mas por uma fidelidade a algo que se construiu por dentro e não admite ser terceirizado. Certas essências aprendem cedo a sustentar o próprio peso, e passam a enxergar na dependência um tipo de erosão lenta daquilo que trazem como sagrado: a autonomia do espírito.

Alguns vão chamar isso de arrogância, outros de frieza, e outros ainda de incapacidade afetiva. Mas pode não ir além de uma recusa íntima em aceitar a fragilidade como destino inevitável. Tais pessoas temem que o alívio constante das próprias cargas acaba atrofiando a musculatura invisível da vontade, como se delegar ao outro aquilo que pertence à própria consciência significasse abdicar de uma parcela da própria
identidade.

Vivemos tempos em que pedir ajuda foi elevado à condição de virtude universal, enquanto resistir sozinho passou a ser visto quase como falha moral. Todavia, permanece admirável a figura daqueles que seguem em pé sem transformar o mundo numa extensão de suas carências, não por desprezo ao afeto humano, mas por entenderem que a dignidade também floresce no esforço discreto de carregar a própria travessia.

Talvez por isso soe estranho o hábito de transformar os vínculos em contratos ocultos de compensação futura. Como se o amor viesse acompanhado de recibos, como se filhos fossem concebidos não apenas como continuidade da vida, mas como garantias contra o abandono, apólices emocionais resgatáveis na velhice. Há algo de profundamente melancólico nessa expectativa: a ideia de que o cuidado oferecido um dia precise retornar como dívida compulsória.

Existe, evidentemente, a fragilidade real: a velhice desamparada, a miséria emocional, a incapacidade revestida de concretude. Diante disso, o amparo humano não é tão somente legítimo quanto necessário. O que provoca estranhamento é a indiferença de quem atravessou a vida consumindo apenas os próprios desejos, vivendo como se nada existisse além daquele momento efêmero, e mais tarde reivindica dos filhos uma consciência que jamais cultivou dentro de si.

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Há existências moldadas apenas pelo impulso de “viver ao máximo”, como se intensidade fosse alternativa para profundidade. São pessoas que caminham olhando apenas para a linha visível do próprio horizonte, incapazes de imaginar o que a vida reserva para além do prazer imediato. E quando o tempo lhes cobra a fatura inevitável da condição humana, se recordam dos filhos não como encontro afetivo, mas como
extensão funcional de suas necessidades tardias.

Frente a tal realidade, algumas sensibilidades não conseguem experimentar complacência. E não por desumanidade, mas por enxergar na responsabilidade individual, um tipo de dever moral para consigo mesmas. Existem nelas um desconforto profundo diante da ideia de transferir a outrem o peso de escolhas que nunca foram compartilhadas.

Daí que certas pessoas encontram na própria autonomia uma forma rara de equilíbrio interior. Resolver sozinho aquilo que ameaça nos derrubar não nasce necessariamente da presunção, mas de uma disciplina íntima de reconstrução, um exercício contínuo de erguer-se após cada queda, como quem reaprende diuturnamente a sustentar a própria estrutura sem recorrer a muletas emocionais.

E eis que, pouco a pouco, essa independência deixa de ser apenas comportamento para se converter em estrutura interna, uma fonte de vigor silente, um modo de preservar o moral elevado diante da instabilidade inevitável da vida. Porque há espíritos que necessitam sentir o leme sob as próprias mãos para não se perderem de si mesmos.

Cada ser humano escolhe as colunas invisíveis que sustentam sua existência. Para uns, elas nascem do encontro; para outros, da autossuficiência. E há os que, mesmo reconhecendo o valor do amparo humano, encontram serenidade apenas quando sabem que continuam capazes de caminhar sem pedir ao mundo que os carregue nos ombros.

Sobre o autor

Luiz Roberto Bodstein

Formado pela Universidade Federal Fluminense e pós-graduado em docência do ensino superior pela Universidade Cândido Mendes. Ocupou vários cargos executivos em empresas como Trimens Consultores, Boehringer do Brasil e Estaleiro Verolme. Consultor pelo Sebrae Nacional para planejamento estratégico e docente da Fundação Getúlio Vargas e do Instituto Brasileiro da Qualidade Nuclear (IBQN) para Sistemas de Gestão. Especializou-se em qualidade na educação (Penn State University, EUA) e desenvolvimento gerencial (London Human Resources Institute, Inglaterra). Atualmente é diretor da Ad Modum Soluções Corporativas, tendo publicado mais de 20 livros e desenvolvido inúmeros cursos organizacionais em suas diferentes áreas de atuação. Conferencista convidado por várias instituições de ensino superior, teve vários de seus artigos publicados em revistas especializadas e jornais de grande circulação, como “O Globo”, “Diário do Comércio” e “Jornal do Brasil”.

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