Autoconhecimento

A linha tênue entre o ego e a vaidade

Mulher confusa e assustada em uma sala cheia de espelhos.
Renata Silveira
Escrito por Renata Silveira

Segundo o neurologista e psiquiatra Sigmund Freud, nossa psique é composta de três “identidades” intransigentes: temos um id instintivo, um ego narcisista e um eu mais racional, digamos assim. Mas o que mais reverbera dentro de todos nós é aquele que procura ser incondicionalmente amado e/ou espelhado: o ego. Somos porosos ao outro e àquilo que pensamos de nós mesmos. A verdade é que jamais conseguiremos silenciar esse ser subjetivo que grita de forma estridente, mas é possível, sim, criar melodia com todo o ruído emitido. Como controlar o ego em uma sociedade que inala vaidade e expira ganância?

“O ego é um iceberg. Derreta-o. Derreta-o com amor profundo para que ele desapareça e você se torne parte do oceano.” Osho, em “O Livro do Ego”

Mulher sentada de costas em frente ao oceano com icebergs.
Unsplash/Martin Balle

O guru Rajneesh Chandra Mohan, conhecido como Osho, escreveu “O Livro do Ego”, uma das obras mais populares sobre o assunto no contexto espiritual. Nesse livro, Osho afirma que o ego é nada mais, nada menos que a percepção do “eu” criada por crenças e fatores sociais. Portanto, o ego é apenas a mente nutrindo pensamentos ilusórios sobre nós mesmos. Há tantas vestimentas para esse “eu mascarado” que os amigos Carl Jung e Freud, pais da psicologia analítica, romperam a parceria profissional por discordarem de alguns dos arquétipos do eu e das ramificações do ego.

Apesar das discordâncias dos grandes estudiosos e dos espiritualistas sobre o tema, e independentemente de como seja designado, esse ser de autossabotagem é universalmente relacionado à vaidade, um dos famosos pecados capitais. Mesmo não sendo propriamente o mesmo, o dicionário atribui o significado de vaidade por toda qualidade do que é vã, vazia e firmada sobre aparência ilusória, conceito bem próximo abordado na teoria de Osho.

A meta do ego aliciado por vaidade é sobressair, doa a quem doer. E é nessa incessante busca pela aprovação que nos abstemos de nós mesmos. O aliciamento, inicialmente inofensivo, faz com que sejamos capazes de passar por cima de valores para alcançar o cume de uma montanha. Mas de nada vale a conquista se chegarmos ao pico sozinhos, de frente para uma paisagem que escancara supremacia e nos encolhe na própria miserabilidade. O ego quando engrandecido pelo pecado capital pode percorrer caminhos ilusoriamente floridos, mas, no final, continuaremos pequenos, pó, resquício, e nada mais que isso.

“Pensar sobre a imensidão do Universo sempre me quietou, mas acima de tudo sempre teve o poder de me colocar no meu devido lugar.” Carl Sagan

Silhueta de duas pessoas admirando as estrelas.
Unsplash/Ryan Jacobson

Hoje, a vaidade ganhou outras faces, e já não é vista como um pecado, mas como uma virtude. E aqueles que não têm consciência da própria mentalidade usam de tal “virtude” para encobrir defeitos e desfilar a ilusória soberania, afirmando ser uma espécie de “amor-próprio”. Diferentemente do falso amor para consigo, o verdadeiro é aquele que carrega a autoaceitação, o contentamento e o zelo sobre si. Esse amor-próprio deriva do reconhecimento de um divino em nós, como a essência da vida.

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Dirigidos pelo falso eu, nos colocamos em um pódio imaginário, onde tudo o que exala imperfeição é intolerável. Já com a visão turva pelos óculos da vaidade, aquele que se vê grande demais se prostra inerte, pois não percebe que há espaço para evolução, diferentemente daquele que entende sua pequenez e vive em uma constante zona de expansão.

“No momento em que você se acha, você está acabando de perder aquilo que você poderia ter obtido.” Monja Coen

Estamos tão individualistas que conseguimos oferecer ao ego um espaço particular nas livrarias. Algumas obras encontradas na seção de autoajuda são inversamente proporcionais à luta contra a vaidade. Encontramos diversos conteúdos que nos estimulam a sermos “os melhores” sem nos levar ao cerne da questão. Não há atalho que nos faça o mais bem-sucedido, o mais positivo, o mais influente, o mais qualquer coisa. É árduo para a vaidade entender que não somos melhores do que ninguém, por isso o segredo é trabalhar o melhor de ti, e nunca o que esperam de ti. O ego garante a existência de nossa individualidade, pois é a soma inconsciente de nossas vivências, mas antes de entender a personalidade é necessário entender a essência.

Mão segurando um pequeno espelho, que reflete uma parte do rosto de uma mulher.
Unsplash/Vince Fleming

A sensação de ser aprovado pela massa e a ilusão de pertencer ao que é aceito pelo coletivo é a massagem que desejamos quando fatigados. O anestésico de efeito temporário. Esbanjam técnicas superficiais e, consequentemente, nos afastam do autoconhecimento. Pela percepção de Osho, o ego é a mentira que contamos a nós mesmos para não encararmos a nossa verdade. O fato é que nós também somos o nosso avesso, portanto esteja preparado para encontrar o pior. A recompensa é conscientizar-se de suas sombras e aprender a administrá-las, pois elas também fazem parte da essência.

A mente sem autodomínio é alienada e dirigida pela sociedade, nos tornando constantemente escravos dessa condição social. Que saibamos aceitar nossas limitações e vulnerabilidades sem mascará-las. Que estejamos preparados para admitir a falta que existe em nós. Não somos o que a nossa mente formula, somos o sujeito que a observa e a rege em todas as suas formulações. Seja operante, designe as funções de cada um de seus eus e tenha domínio sobre si.

Mão estendida em frente a um rio, em direção ao sol, que se põe.
Unsplash/Marc-Olivier Jodoin

“Quando você tiver amadurecido por meio da compreensão, da consciência, quando tiver sentido com totalidade que o ego é a causa de toda a sua infelicidade, um dia você simplesmente vê a folha caindo, e então o verdadeiro centro surge. Esse centro verdadeiro é a alma, o eu, o Deus, a verdade, ou o que quiser chamá-lo.” Osho

Acreditamos ser projeções da nossa vaidade, e sofremos tentando sustentá-las. Talvez o nosso grande mal seja buscar constantemente a aprovação do que, na verdade, não é real, do que não condiz com a nossa verdadeira essência. O ego é importante e se faz necessário, mas para manifestá-lo liberte-o das aparências. Esse ser anda sob uma linha tênue; sabe ser um grande inimigo como também o melhor dos aliados.

Sobre o autor

Renata Silveira

Renata Silveira

Sou uma jornalista multifacetada. Gerente de projetos, amante da filosofia, pisciana e, nas horas vagas, escritora.

Escolho escrever sobre comportamento humano e desenvolvimento pessoal com o intuito de suprir minha verdadeira paixão, que é o autoconhecimento ligado à filosofia. Não há conhecimento sem reflexão, e não há reflexão sem o estudo da existência humana.

Sou curiosa e acredito que experimentar universos diferentes do meu me revela novas identidades. Por isso, busco na quebra de convicções minhas ressignificações.

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