Convivendo

Ano novo e vida nova

Duas pessoas brindando taça de champanhe.
Friends celebrating Christmas or New Year eve party with Bengal lights and rose champagne.
Luis Lemos
Escrito por Luis Lemos

Um noviço perguntou a seu mestre:

– “Como devo agir para ter uma vida nova?”

Depois de um longo silêncio, o mestre respondeu:

– “Mude de vida”.

– “Mas mestre”, insistiu o noviço, “eu já mudei”.

Novamente um longo silêncio fez-se ouvir e o mestre com a sabedoria que lhe era característica indagou o noviço:

– “O que você entende por mudar de vida?”

– “Mestre, eu deixei tudo para trás. A minha família, o meu emprego, os meus amigos. Isso não é uma mudança de vida?”

Amigas comemorando o ano novo.

Depois daquele desabafo, até muito simples para um candidato a padre, o mestre, certamente pensando que teria muito trabalho pela frente, convidou o noviço para uma caminhada.

– “Caminhemos! Deus se mostra nos detalhes, meu filho!”

Era final de tarde, o sol se pondo ao fundo, lindas flores douradas com pontinhos vermelhos embelezavam o jardim do convento, quando a voz suave do mestre, porém firme, voltou a ser ouvida:

– “Deixa eu lhe falar um pouco sobre a minha vida. As pessoas geralmente me julgam mais inteligente do que sou, mas não tenho vergonha de dizer que eu sou apenas uma pessoa esforçada. Não tenho nenhum dom especial. Para dizer a verdade, eu só aprendi a ler muito tarde, acho que eu tinha a sua idade quando comecei a estudar. Na minha época não tinha internet nem o Google. No entanto, eu me saía muito bem sem eles. Na escola, aprendi a datilografar numa máquina de escrever. Ainda me lembro do cheiro de carbono nas cópias de exercícios que meus professores costumavam nos dar, e naqueles dias ninguém tinha computador.”

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– “Mas, mestre, o mundo mudou. Hoje tudo é diferente.”

– “Sim, meu filho, o mundo mudou e mudou em todos os sentidos. Eu me lembro de estudar sobre a Guerra Fria, admirar as Torres Gêmeas e ir ao cinema com permissão somente para assistir a filmes dentro da minha faixa etária. Filmes que tinham quaisquer referências a sexo ou drogas eram classificados para maiores de 18 anos. Você tem razão, hoje tudo é diferente. Tudo mudou.”

– “Como eram as brincadeiras de criança em sua época?”

– “As crianças no meu tempo brincavam na rua, interagiam com os vizinhos e passavam horas e horas fora de casa sem que seus pais se preocupassem com o que poderia acontecer com elas. Naturalmente, não tínhamos a violência que temos hoje.”

– “Mestre, hoje as crianças ficam em casa jogando videogame e navegando na internet. Muitas até começam a namorar pela rede mundial de computadores. A vida real tornou-se virtual. O afeto, o carinho, o toque virou negócio. Existem empresas especializadas em ganhar dinheiro com isso. Relações sinceras, face a face, olho no olho, não existem mais. Enfim, as relações estão instrumentalizadas.”

Pessoas olhando queima de fogos.

– “De fato, meu filho, tudo à nossa volta mudou muito, algumas coisas de forma positiva e outras de forma negativa. No entanto, meu filho, é preciso dizer que a primeira atitude para uma pessoa mudar de vida é pensar mais e prometer menos. Hoje em dia as pessoas fazem tantos planos, incluindo o de perder peso, aprender a dirigir, falar uma nova língua, mas onde estão todos esses projetos?”

– “Mestre, deixa eu lhe confessar uma coisa: os brasileiros adoram fazer planos. Eles dizem: ‘Este ano vou ser menos machista’; “vou ser mais presente na minha família’; ‘vou ser fiel’; ‘vou praticar a caridade’. ‘Vou praticar algum esporte’; ‘vou comer verdura’. Promessas e mais promessas. No entanto, todo início de ano é a mesma coisa.”

– “Meu filho, essa não é uma característica exclusiva dos brasileiros. Todo ser humano é assim: faz promessas, mesmo sabendo que não vai cumprir. No entanto, tudo depende da força de vontade de cada um. Existem coisas na vida que somente nós podemos fazer. Deus não pode fazer por nós. Ele até pode ajudar, mas só depois de você dar a partida nos seus motores. Ano novo é sempre esperança de vida nova. Aliás, é a esperança que move o ser humano. Se não fosse a esperança, não seríamos humanos. Seríamos santos ou demônios, ou outra coisa qualquer, menos humanos!”

E se virando para o noviço, agora com as duas mãos sobre os ombros, disse-lhe:

– “Vida nova significa recomeço, não importando a data, isto é, se é no início ou no final do ano. O importante mesmo é que o ano novo traga a todos nós oportunidades de descobrirmos novas perspectivas para problemas antigos, de descobrirmos a nossa própria luz para caminharmos sem medo de viver, de ser feliz. Afinal de contas, o que importa mesmo nesta vida é ser feliz!”

Sobre o autor

Luis Lemos

Luis Lemos

Graduado em Ciências Biológicas pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA); Graduado em Filosofia pela Universidade Católica de Brasília (UCB); Bacharelado em Filosofia pelo Centro do Comportamento Humano (CENESCH).

Professor de Ciências Naturais na Secretaria Municipal de Educação de Manaus (SEMED/AM). Professor de Filosofia da Educação, Ética e Filosofia Jurídica na Faculdade Martha Falcão/Devry Brasil.

Tem experiência na área de Filosofia da Ciência, com ênfase em História da Filosofia, atuando principalmente com os temas: Educação, Ensino de Ciências, Epistemologia, Ética e Ética Profissional.

Autor dos livros: O primeiro olhar – A filosofia em contos amazônicos (2010); O segundo olhar – A filosofia em temas amazônicos (2012); O terceiro olhar – A filosofia em lendas amazônicas (2014); O homem religioso - A jornada do ser humano em busca de Deus (2016).