Convivendo

Ciência e Fé – Um debate sobre o tangível e o intangível

Braços levantados e holograma de esfera.
Pop Nukoonrat / 123rf
Luiz Roberto Bodstein

Desde que o homem adquiriu consciência de si mesmo para questionar as próprias origens e a razão para estar no planeta, um debate que ele jamais abandonaria foi introduzido em sua experiência humana: seria ele uma criação ou uma mera decorrência físico-química? A sequência interminável de questionamentos que se seguiu depois, dando causa a todo o conhecimento científico que reuniu, aprofundou a questão em que apenas as visões se alteravam a partir das descobertas que fazia, mas não sua base. Em paralelo – e na tentativa de chegar à explicação que buscava – ele passou a construir um sistema de crenças que não só não lhe trouxe as respostas que desejava como ampliou substancialmente as dúvidas que já trazia. A rápida expansão para todos os recantos do planeta fez com que suas crenças se multiplicassem em progressão geométrica, ao passo que sua ciência avançava de forma linear e cada vez mais incapaz de conter-lhe a imaginação em parâmetros razoáveis. O momento que se seguiu foi de religiosidade e política caminhando juntas, quando dogmas doutrinários passaram a ser moldados a interesses imediatos do poder vigente e assumir a supremacia do conhecimento, que a partir de então recebeu aspas.

O avanço da tecnologia instantânea da “era da informação” se revelou um eficiente aliado no processo de substituição do pensamento científico questionador por aquele forjado pelas lideranças surgidas no ambiente das religiões, que o introduziu em escala nunca antes vista nesse novo homem agora convertido em “fiel” e desprovido de qualquer autonomia para preservar sua capacidade analítica. De forma gradual e sem se dar chance de refletir sobre seu próprio momento, uma parcela gigantesca e esmagadora da população mundial perde de forma definitiva a capacidade de pensar por si mesma, tornando-se refém de uma “matrix”, que a conduzia para onde bem entendesse, conforme sua conveniência, e em prol da manutenção de seu poder de domínio sobre uma enorme massa mental forjada à sua imagem e semelhança.

Mas, antes de prosseguirmos com o raciocínio e retroagindo à definição dos dois conceitos que dão título a esta discussão, permitam-me exibir a definição desses dois verbetes antagônicos que integram nossos compêndios:

Crença, s.f.

  1. Estado, processo mental ou atitude de quem acredita em pessoa ou em algo.
  2. Fé, em termos religiosos.
  3. Estado psicológico em que um indivíduo detém uma proposição ou premissa para a verdade, ou ainda uma opinião formada ou convicção.

Em filosofia, mais especificamente em epistemologia, a crença retrata um estado mental que pode ser verdadeiro ou falso. Ela representa o elemento subjetivo do conhecimento. Platão, iniciador da tradição epistemológica, opôs a crença (ou opinião – “doxa”, em grego) ao conceito de conhecimento. Define-se por crença a firme convicção e a conformidade com algo. A crença é a ideia que se considera verdadeira e à qual se dá todo crédito. Pode-se considerar que uma crença é um paradigma que se baseia na fé, já que não existe demonstração absoluta, fundamento racional ou justificação empírica que o comprove. Por isso está associada à religião, à doutrina ou a convicções de natureza dogmática.

Galáxia em tons de bege, azul claro e roxo.
Pixabay / Pexels

Ciência, s.f.

  1. Conhecimento atento e aprofundado de algo.
  2. Corpo de conhecimentos sistematizados adquiridos via observação, identificação, pesquisa e explicação de determinadas categorias de fenômenos e fatos, e formulados metódica e racionalmente. A palavra deriva do termo latino “scientia”, cujo significado é conhecimento ou saber. Atualmente se designa por ciência todo conhecimento adquirido por meio do estudo ou da prática baseados em princípios exatos. A ciência, em geral, comporta vários conjuntos de saberes, nos quais são elaboradas teorias baseadas nos seus próprios métodos científicos. A metodologia é essencial na ciência, assim como a ausência de preconceitos e juízos de valor.
  3. Conhecimento profundo sobre alguma coisa. A utilização desse conhecimento como fonte de informação.
  4. Conhecimento ou saber excessivo conseguido pela prática, raciocínio ou reflexão.
  5. Reunião de saberes organizados obtidos por observação, pesquisa ou pela demonstração de certos acontecimentos, fatos, fenômenos, sendo sistematizados por métodos ou de maneira racional: as normas da ciência. [Por extensão] Análise, matéria ou atividade que se baseia numa área do conhecimento: a ciência da matemática. [Por extensão] Erudição; saber adquirido através da pesquisa.

A conformidade de uma crença nasce no interior de uma pessoa, desenvolvendo-se a partir das próprias convicções e de seus valores morais, mas também influenciada por fatores externos advindos do meio social, como a pressão familiar, grupos de convívio etc. É possível também fazer distinção entre crenças abertas – que admitem discussão a partir de uma análise lógica e racional – e crenças fechadas, que só podem ser discutidas por pessoas convencionadas e aceitas como autoridades no assunto. Pelo viés da ciência encontramos um pensamento científico constituído por proposições sempre momentâneas em que qualquer indivíduo tem oportunidade de provar o contrário ao se sentir em condições de refutar uma crença tida, até aquele momento, como verdadeira. Já entre as crenças fechadas, em que se destacam as de natureza religiosa que supostamente emanam de uma divindade e são administradas por uns poucos eleitos, depara-se com um ambiente mais hermético e refratário à contestação. Isso tem sua origem atribuída a um plano divino que, por definição, não leva em conta a possibilidade de erro, bem como algo ou alguém posicionado acima dele. Estabelece-se assim a principal dicotomia entre defensores ditos “racionais” – sempre abertos a elementos se agregando aos antigos ou até os contrariando em novas formulações – e os não racionais, que se alimentam apenas das “verdades” que eles mesmos constroem para si ou por quem aceitem na condução do grupo, sob a égide de um pensamento único se sobrepondo aos questionamentos pessoais. Assimila-se assim a visão do grupo como obrigatória e definitiva em detrimento do livre exercício da lógica individual.

O pensamento desses dois grupos pode por um lado refletir uma avaliação pessoal com base em elementos racionais ou então conter uma mera sensação interna que dispense qualquer comprovação científica e não se sustente quando submetida a uma avaliação consistente, exceto no contexto pessoal e inquebrantável de seus defensores. O comum é que, ao se formar uma crença sobre algo, fique evidente a existência de uma certeza sobre ela, o que não significa que a avaliação dessa certeza permita assumi-la como verdadeira, uma vez que certeza e verdade são realidades distintas. Em relação a princípios e ideias desenvolvemos crenças próprias que nos servem como avaliações ou componentes de formação de opinião sobre diferentes aspectos da realidade. Tais visões podem se alterar ao longo da vida, já que as circunstâncias ambientais também interferem na composição da opinião, assim como a educação recebida e o ambiente familiar, que exercem forte influência nas convicções que vão gradativamente moldando a estrutura mental dos indivíduos.

Nuvens num céu azul.
Gabriel Lamza / Unsplash

“Na ausência dos fatos, a dúvida é a opinião do homem sensato.” – Allan Kardec

No contexto religioso é o conjunto de princípios e dogmas que irá formar as crenças das pessoas, e estas as consolidam por meio da fé. Os chamados “crentes” em última análise não precisam de qualquer elemento racional ou lógico para que tais crenças se consolidem, e por regra esses princípios religiosos se fazem estáveis em consonância com seus grupos de prática, sendo repassados de geração a geração sem que aos novos membros a ela integrados seja concedido o direito de questionar o estabelecido por seus antepassados. Dessa forma os devotos de uma fé podem manter as mesmas crenças ao longo de sucessivas gerações sem jamais questioná-las, por mais absurdas ou inverossímeis que se mostrem aos olhos dos que não compartilham das mesmas convicções. Tanto no sentido pessoal quanto no religioso nossas crenças servem como recurso de avaliação e referência de vida, no sentido de que julgamos ou avaliamos tudo aquilo que nos rodeia a partir do critério definido por essas convicções. Isso será determinante para se dizer que algo vai contra nossas crenças ao sentirmos íntima e visceral rejeição por ele, mesmo que em nenhum momento o tenhamos submetido à nossa lógica consciente.

A ideia de crença tem um forte componente psicológico na maioria dos contextos: acreditar em uma ideia, em uma pessoa ou em uma doutrina significa que há uma conexão emocional entre os envolvidos e tudo aquilo em que acreditam, independentemente de elementos consistentes para fundamentá-los. Por meio de uma perspectiva social, uma comunidade de indivíduos costuma compartilhar uma série de valores e tradições que se apresentam como formadores de uma crença social, ou seja, ideias que acabam sendo incorporadas por um número expressivo de pessoas, mas que não ficam imunes a mudanças introduzidas pelo passar do tempo. Tanto que as crenças do mundo contemporâneo são bem diferentes das de outras épocas quando trazidas à prática, podendo se converter de “normais” em repulsivas, de sagradas em mundanas, e até de um modelo esperado para uma postura inaceitável e passível de punição tanto moral quanto penalmente. Isso decorre do fato de que, quanto mais o contexto social avança e o conhecimento sobre um tema se acumula, ideias anteriormente aceitas atingem um outro patamar de entendimento, culminando por derrubar as crenças de antes a respeito da prática tida como aceitável.

Isso não significa, porém, que crenças já há muito obsoletas e sobejamente superadas pela ciência eventualmente não prolonguem seu período de sobrevida, mantendo-se em vigência muito tempo depois que todo o resto do planeta já percorreu um caminho contrário. Exemplo típico são algumas comunidades como os amish e os menonitas, entre outras. Apenas os amish já representam um grupo religioso conservador de 198 mil indivíduos que se recusam a aceitar toda e qualquer modernidade surgida após o advento da eletricidade, o que inclui eletrodomésticos, telefones, automóveis e até lâmpadas elétricas, mesmo morando em países altamente desenvolvidos, como Canadá e Estados Unidos. Decidiram eles, por conta de seus dogmas doutrinários, a não acompanhar o ritmo de todo o restante da humanidade para manter um cotidiano alimentado por lampiões a querosene e toda sorte de traquitanas e engenhocas movidas a tração animal. Outros grupos motivados por teorias da conspiração e refratários ao conhecimento científico – como os terraplanistas – ressuscitam crenças desconstruídas em séculos anteriores a Copérnico ou até a Aristóteles, que, em 350 a.C., já apresentava estudos da Terra em formato esférico. Casos como esses servem para ilustrar a extraordinária influência das crenças na vida humana utilizada tanto para o bem quanto para o mal, bem como seu poder para contrariar qualquer coisa – inclusive o conhecimento acumulado desde que se pisou no planeta –, pois que não dependem de nexo de causa e efeito para desconstruir verdades insofismáveis nem para fincar profundos alicerces falsos como sustentação de suas teses. Por meio desses modelos de construção do pensamento, pode-se dimensionar a força dos dogmas introduzidos de cima para baixo nos diferentes agrupamentos humanos como também o poder de blindagem exercido sobre a mente de seus seguidores para afirmar o indefensável, refutar o inegável ou rejeitar todo o conhecimento reunido pela humanidade durante milênios de sua história.

O componente religioso na atividade humana tem sido a base de incontáveis teorias que se constroem e se autodestroem em oposição ao pensamento racional e científico, que permite a evolução de nossa espécie a partir de perspectivas aplicáveis ao meio social, em seus diferentes momentos históricos. Mas, como já demonstrado, o benefício não se estende a boa parte da população fechada em doutrinas, que experimenta um tipo de fundamentalismo que beira a insanidade. A expressão deriva de alguns princípios fundamentais que se estendem indefinidamente – sem considerar as mudanças contextuais ocorridas após o momento de sua fundação – para manutenção de valores arcaicos e à revelia dos fatos históricos que os contradizem. Em nome de um suposto “estado de pureza” que se perdeu no tempo, seus defensores tentam manter conexão entre passado e presente para fazer prevalecer princípios incompatíveis com a época em que se vivencia tanta diversidade, contribuindo para fomentar retrocessos civilizatórios, conflitos existenciais e até guerras em nome de uma alegada elevação espiritual.

O estudo da realidade pelo viés das pesquisas que norteiam o avanço científico sempre foi determinante para separar ficção de realidade e obter referências que se prestem à compreensão da evolução humana e seu contexto. Mas isso não impede que o extremismo de alguns grupos – por ignorância ou interesses alheios à real procura da compreensão dos fatos – conduza pessoas para direções contrárias à da evolução que se poderia conseguir pelo livre pensamento. Daí a história da humanidade se mostrar repleta de conflitos decorrentes das divergências de visão, e caminhar bem mais lentamente do que poderia por causa de tantas idas e vindas. Ainda assim ela segue em sua trajetória inexorável de avanços, malgrado o pensamento estatizante e arcaico dos conservacionistas e seus catastróficos efeitos sobre os controlados por seus falsos preceitos.

“Uma única dúvida sincera vale mais que toda fé introduzida por outrem ou herdada de tuas origens. Se o medo de te posicionares contra Deus te impede de assumi-la, pensa que teu Deus pode tê-la semeado em ti exatamente para que não fosses induzido a erro.”

O ser humano, diferentemente das demais espécies, é dotado de raciocínio lógico, tanto para avaliar o passado quanto para projetar seu futuro de forma própria. É a única espécie vivente a fazer uso de um conjunto de crenças a que chamamos de fé. Sua fé é de natureza íntima e pessoal, razão pela qual, em tese, deveria ser intransferível em sua unicidade, e tida como o bem maior de sua condição humana. Em assim se revelando, só se mostra legítima quando desenvolvida de forma autônoma e por efeito de observação própria, após comparações com padrões externos a que se tente submetê-la. A prerrogativa de escolha por tal método deveria ser alienável para não dar causa à resistência íntima por nos virmos atropelados em nossa lógica.

Homem pulando entre pedras durante o pôr-do-sol.
Kristopher Roller / Unsplash

Toda vez que uma ideia alheia prevalece sobre a escolha pessoal por efeito de “osmose cerebral”, abdicamos do eu divino de que somos detentores e nos transformamos em marionetes de senhores outros que não a nossa própria consciência. Pode-se afirmar então que só se conhece a liberdade quando é a nossa lógica a nos apontar o caminho antes de qualquer outro pressuposto assumido como verdadeiro. As religiões e toda sua diversidade doutrinária são evidências claras da ignorância humana quando o assunto é a busca pela própria verdade: todas afirmam ter domínio da que deve ser levada a todos, e propagam-na como única a partir de suas duvidosas fontes de interpretações pautadas em realidades fabricadas. As menos hipócritas, quando muito, colecionam fragmentos que nunca expressam o todo, obrigando-nos a completá-lo com alegorias que nos distanciam ainda mais do propósito, como uma frágil camada de argamassa que não consegue manter de pé o peso das pedras. E ao fechar questão em cima de suas fragilidades dogmáticas acabam se perdendo em interpretações assumidas como reais e cerrando as portas ao desenvolvimento que as aproximaria do objetivo. Depreende-se então que o maior atestado de legitimidade da fé é a certeza de tê-la sentido brotando em nosso interior antes de lê-la em qualquer livro ou ouvir dela pela boca dos pregadores. E após sua instalação deveria se fazer acessível a um questionar contínuo, em lugar do medo ou de uma condução hermeticamente fechada ao suprimento das dúvidas que se apresentarem ao longo do caminho. E, ainda que isso não nos garanta vivenciar uma verdade absoluta e inquestionável, o que importa é a certeza de que nenhum deus de amor e sabedoria em que se acredite deixará de perceber a sinceridade no coração de quem não desiste de sua busca.

“Acredito no deus de Spinoza, que se revela por si mesmo na harmonia de tudo o que existe, e não no deus que se interessa pela sorte e pelas ações dos homens.”

Albert Einstein

Não há dúvida de que um dos temas mais intrigantes e polêmicos da espécie humana é o que cuida de seu esquema de crenças e valores, devido a vir associado ao sentido dado à sua existência, e que coloca sua abordagem numa seara extremamente sensível e muito pouco compreendida, já que revestida de caráter pessoal e intransferível em várias de suas instâncias. O pensamento matemático estendido a todo o Universo tangível e intangível pode ser utilizado para tentar demonstrar a dicotomia entre indivíduos posicionados nas duas pontas de uma escala linear que vai de 0 a 100 no que toca à flexibilidade, em que o zero seja a resistência absoluta a toda e qualquer quebra de paradigma, e o 100 a amplitude total para qualquer tipo de inserção ao entendimento já construído até aquele momento. Tem-se assim uma situação em que o indivíduo posicionado no zero se revela hermeticamente fechado para acréscimos de qualquer ordem ao já estabelecido, tendo-o como imutável e completo em si mesmo. Poderíamos chamar tal detentor de verdades absolutas de “dono da verdade”, e ao outro que se posiciona no 100 entenderíamos como o que não só rejeita um modelo estacionário de credo como não admite que seu conhecimento acumulado se consolide como instituto doutrinário em qualquer etapa de sua trajetória, que sempre irá considerar como apenas mais um patamar atingido do conhecimento, e nunca como algo terminado.

E em que isso nos ajudaria a entender a diferença entre esses dois indivíduos? Essa escala deixa bastante visível a distância que separa os contrários, bem como as possibilidades de se aproximarem ou se distanciarem do ponto médio tido como limite para sua movimentação. Pense-se em qualquer coisa que resulte em ruptura com os parâmetros convencionais e se terá na escala uma visão bastante interessante de como reagirão as duas linhas de pensamento dentro dela. Entendamos o extremo zero como o que tenderá a manter os indivíduos “congelados” no nível de conhecimento original no que toca ao credo professado, seja ele religioso, ideológico ou de qualquer outra natureza; e no extremo 100 se terá o indivíduo que se percebe em permanente transformação, vendo seu esquema de crenças como “etapa estagiária” ou “protótipo inacabado” em um processo ad eternum de construção. Nesse formato não há limites para a introdução de inovações que possam entrar em choque com um entendimento anterior, uma vez que seu “Universo litúrgico”, por assim dizer, não possui um desenho definido que não se coloque permanentemente aberto a retoques. Antes porém de apenas se colocar suscetível a retoques, tal indivíduo se revela insaciável em relação a tudo o que pode acrescer ao seu atual estágio de conhecimento, forçando que isso ocorra de modo contínuo e ininterrupto como indicador do avanço de suas descobertas e de algo em permanente evolução como razão maior para sua existência. Por conseguinte, o componente acrescido por último representa tão somente o atual acréscimo ao caminho incompleto e em constante mutação que ele trilha, e que nunca assumirá o status de um todo. Figurativamente a “linha de chegada” não existe para esse indivíduo, mas tão somente a interminável trajetória em direção a um destino hipotético que sempre recua para mais à frente e permanecerá inatingível a ele.

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Chame-se aos indivíduos dos dois extremos de “Indivíduo do ponto Zero” e “Indivíduo do ponto 100”. O posicionado em Zero nessa escala mantém seu foco e completude num ponto único – seja de cunho religioso, ideológico ou qualquer outro que defenda –, deixando todos os demais aspectos de sua vida em segundo plano. Já o do ponto 100 não admite foco ao longo de toda a trajetória, escolhendo colocá-lo na linha de chegada ainda que a sabendo hipotética. Sua natureza enxerga um ponto fixo da trajetória como limitação para a amplitude de suas percepções, dando prioridade ao gerenciamento dinâmico dos diferentes aspectos com que precisa lidar para fugir das “caixinhas” em que se veja colocado. Precisa sentir-se livre para mudar radicalmente todos os seus conceitos sempre que algum elemento novo revele consistência para inserir atualizações na sua última versão. O que irá nortear cada passo do indivíduo do ponto 100, portanto, será a possibilidade de descobrir um componente novo que venha se somar ao conjunto já reunido sem qualquer limite para o grau de acúmulo, uma vez que o contexto resultante não possuirá bordas nem contornos, podendo ser expandido ao infinito. Como efeito colateral desse posicionamento em grau máximo de flexibilidade, o relacionamento desse indivíduo do extremo 100 com o que se posiciona no extremo contrário se mostrará complexo e até extremamente difícil em algumas vezes, dependendo mais dele do que do outro para que obtenha êxito, aqui entendido como a desejada harmonia entre as partes. Isso porque o nível de flexibilidade em diferentes níveis nem sempre ocupa um ponto que favoreça a harmonização, cobrando do indivíduo posicionado em 100 o grau maior de consciência para não dar causa ao conflito, já que pode lançar de sua flexibilidade como recurso de neutralização e seu oponente não. Essa regra do maior para o menor se aplica a todos os casos em que a compreensão se apresente como fator de incidência ou dissidência entre os envolvidos, e por razões lógicas: para o indivíduo mais fechado em suas convicções, o processo de neutralização aplicado a conflitos terá graus de deficiência que irão variar do mais leve ao mais agudo, aproximando-o do inviável em muitos casos. Algebricamente poderíamos representá-lo pela seguinte fórmula:

(O Maior está para o Menor assim como o Aberto está para o Fechado)

Explicando melhor, o Maior sempre poderá perceber o Menor, mas o Fechado não conseguirá atingir o alcance do Aberto. Então será necessário que seja este a usar sua amplitude de compreensão para entender a limitação do outro de modo a que possam atingir um ponto comum. O pomo de discórdia entre os dois indivíduos decorre do hermetismo de um se opondo à abertura mental do outro, colocando a solução na dependência deste último por se mostrar capaz de entender a dificuldade que o outro teria para romper com seus paradigmas, já que não traz mecanismos suficientes para fazê-lo. Dentre estes, uma mente treinada para aceitar possibilidades diferentes das que convencionou, mas que não impede que faça uso de outros recursos secundários caso queira vencer a própria resistência. Há situações, por exemplo, em que uma relação de confiança entre ambos se mostra capaz de predispor a pessoa resistente a inicialmente entreabrir uma porta por simples curiosidade, e o que percebe após esse primeiro momento acabe abrindo espaço para um esforço conjunto que aprofunde o diálogo.

É correto afirmar que o indivíduo posicionado em 100 não opõe resistência a qualquer tipo de componente do Universo visível ou invisível, ou do micro ao macro, não importando a natureza ou em que amplitude seja contemplado. Em resumo, o impossível para ele é que se revela fantasioso quando olha para este Universo, já que o acata em todas as suas possibilidades e onde o “improvável” é apenas o que ainda não se comprovou factualmente, podendo sê-lo, contudo, no momento seguinte. Dentro de si já rompeu a fronteira entre real e irreal, e o que é tomado como inexistente pela ótica convencional ele traduz por “conhecimento não dominado”, descartando de imediato a classificação de “enigma insolúvel”. Rejeita, por princípio, qualquer tese baseada na distinção entre o material e o imaterial, descrevendo o equívoco humano como a tendência para descrer do que não enxerga e buscar sustentação para supostas verdades que lhe criam, em lugar de usar sua lógica na reunião de elementos que lhe permitam formar juízo.

Fases da Lua.
Alex Andrews / Pexels

Em um primeiro momento pode-se até pensar que pender para o extremo Zero ou para o 100 se restrinja a uma questão de escolha, mas em se aprofundando a análise descobre-se não ser exatamente assim. Quanto mais próximo de Zero se encontre o indivíduo, maior o preconceito desenvolvido por ele. Isso porque toda resistência ao diferente, por definição, é fruto do desconhecimento dos fatores inerentes ao outro que se mostrem estranhos ao seu contexto, pelo menos em nível consciente. O que pode mudar radicalmente tal realidade é a descoberta de que diferença não é sinônimo de ameaça, que quase sempre é percebida pelo lado hostil, ou seja, por quem exercita o preconceito. E aqui é onde a teoria dos opostos se mostra mais visível: o que traz mais medo é quem se apresenta como valente, o que mais ataca é o que se sente mais frágil, e o que aparenta ser vitorioso é quem se vê na iminência da derrota. Seu preconceito expressa nada mais do que o medo por um risco a que se antecipa, e sua agressão apenas um “contra-ataque” antes que o peguem de surpresa!

Tal abordagem segue uma lógica comum no campo legal: a condição de ser não é passível de punição sem que haja uma ação resultante. Traduzindo: no contexto normal das liberdades individuais, ninguém pode ser punido apenas por ser nazista, gay, antissemita, escravagista, psicopata ou até pedófilo. Torna-se passível de punição somente quando sua condição resulta em uma ação efetiva, ou seja, quando o indivíduo com tais características pratica o ilícito decorrente de sua condição contra outra pessoa ou o estenda à sociedade como um todo. Isso porque o foco da punibilidade recai sobre o efeito, e não sobre uma causa preexistente, mas não concretizada.

Mas que vínculo isso teria com nossa discussão entre crença e ciência? A resposta é: integral! Isso porque o pensamento científico não comporta o conceito pré-construido que induza o indivíduo a reagir contra o que desconheça. A lógica seguida o impede de se antecipar a um fato sem ter se debruçado sobre ele, fazendo-se necessário reunir todos os elementos disponíveis, tentar estabelecer uma lógica de causa e efeito entre eles, e depois investigar os resultados possíveis dessa interação. No que toca ao nosso esquema de crenças, ele não contempla esse cuidado e muito menos segue uma sequência ditada pela lógica. A crença simplesmente se instala por causas indefinidas e muitas vezes difusas, já que normalmente não tem origem no próprio indivíduo. A figura do fiel em uma crença é a de um mero canal de transmissão e não sua fonte, posição esta reservada apenas ao formulador da corrente dogmática. E, como qualquer coisa que envolva uma prerrogativa de poucos, o que é transmitido não vai além do desejado pela fonte, razão para que as crenças deem causa a muitos prejuízos levados aos que renunciam à análise lógica por causa de indução ou incapacidade pessoal.

Mulher girando num campo iluminado pelo Sol.
Jackson David / Pexels

É oportuno destacar que o estado de obscurantismo dos que priorizam a crença sobre a ciência não significa, por si só, que tais pessoas escolheram o hermetismo por decisão pessoal. Mas pode indicar não ter seu mecanismo de defesa suficientemente desenvolvido para protegê-las da “lavagem cerebral” que as condiciona devido a vulnerabilidades de natureza cognitiva, social ou emocional, impedindo-as de questionar a interferência de seu grupo social. Não se pode afirmar que todo processo de condicionamento atinja um ponto de irreversibilidade. Mas é possível que sua linha do tempo atue como uma espécie de “umbral”, que tanto possa criar barreiras à sua reversão como estimular a vítima a mergulhar ainda mais profundamente na sua falsa realidade, quando se constata a vitória da crença sobre o pensamento científico. O sinal mais claro de que isso ocorreu é percebido no negativismo para tudo o que o contrarie, por mais contundente ou conclusivo que se revele. Alegoricamente, como prevenção para o “ponto de irreversibilidade”, vale o empenho em trocar o envolvimento por “des-envolvimento”, numa referência ao fato de que quem se desenvolve descobre-se agente das próprias escolhas, tornando-se mais capaz, portanto, de detectar e conter o envolvimento antes que seja este a ditar-lhe as regras, mas não dá para concluir que se trate de uma tarefa das mais fáceis.

Sempre que se encara o desafio de um caminho próprio é um grande erro menosprezar a pressão dos que defendem a lógica do rebanho. Ela irá atingir de forma impactante quem se mostre refratário a invólucros conceituais ou a premissas dogmáticas que lhe queiram impor, já que o esforço maior é para se manter o “status quo”. Tais forças sabem que no rastro dos pioneiros virão outros rejeitando a doutrinação que os desvie da rota autotraçada, notadamente as que sigam em direção diametralmente oposta aos institutos tidos como “universais”. Ainda que integrar o rebanho seja visto como benefício pela sensação de pertencimento produzida, não se deixar dominar por ele não há que ser encarado como ato de rebeldia ou subversão da “ordem natural” do elenco das necessidades humanas. O essencial é não tratar o rebanho como inimigo ou aceitar ser assim tratado por ele, o que não significa renunciar à prerrogativa de uma condução independente em conformidade com parâmetros de agente das próprias escolhas.

Sobre o autor

Luiz Roberto Bodstein

Luiz Roberto Bodstein

Formado pela Universidade Federal Fluminense e pós-graduado em docência do ensino superior pela Universidade Cândido Mendes. Ocupou vários cargos executivos em empresas como Trimens Consultores, Boehringer do Brasil e Estaleiro Verolme. Consultor pelo Sebrae Nacional para planejamento estratégico e docente da Fundação Getúlio Vargas e do Instituto Brasileiro da Qualidade Nuclear (IBQN) para Sistemas de Gestão. Especializou-se em qualidade na educação (Penn State University, EUA) e desenvolvimento gerencial (London Human Resources Institute, Inglaterra). Atualmente é diretor da Ad Modum Soluções Corporativas, tendo publicado mais de 20 livros e desenvolvido inúmeros cursos organizacionais em suas diferentes áreas de atuação. Conferencista convidado por várias instituições de ensino superior, teve vários de seus artigos publicados em revistas especializadas e jornais de grande circulação, como “O Globo”, “Diário do Comércio” e “Jornal do Brasil”.

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