Convivendo

Como é ser irmã de uma transgênero…

transgênero
Amanda Magliaro
Escrito por Amanda Magliaro
Confesso, a nomenclatura pode ser bem difícil, mas simplificando: transgênero é aquele que se identifica com outro gênero do qual foi designado ao nascer, mas não sente a necessidade de modificar sua anatomia. E essa identificação aconteceu recentemente com a minha irmã.

Ela — ele, no passado — sempre foi quieta, adorava um livro, cabelo comprido e tinha um jeito “diferente”. Ela nunca foi afeminada, mas existia algo de diferente que ninguém entendia. Ela era simplesmente diferente, “estranha” para alguns. E, ela viveu a maior parte da sua vida como homem, nunca suspeitamos de nada. Até que um belo dia ela acabou trocando de roupas com a namorada, na brincadeira, e percebeu que se sentia muito bem dessa forma. E foi aí que ela viu a famosa “parte que faltava”. Dia após dia, agora já oficialmente “ela”, experimentava algo novo, depilava uma parte do corpo, vestia uma peça de roupa diferente, passava maquiagem, e pouco a pouco se descobria como a mulher que ela sempre foi, mas não sabia. Mas até aí, ela se descobria, e eu não sabia de nada.

O dia da revelação

Não, não teve nenhuma reunião familiar e a revelação bombástica como uma novela sugeriria. Eu moro em outro país, então eu simplesmente recebi uma mensagem dizendo:

— Queria conversar com você sobre algo.

Eu fiquei chocada. Primeiramente, porque nos amamos, mas nunca fomos muito próximas. Sempre tentei me aproximar, mas existia algo dentro dela que a mantinha sempre distante (sem contar que ela é virginiana, então nunca tive muita paciência com o jeito certinho dela, coisa de, hoje, irmãs). Então, simplesmente, fiquei muito feliz por ela querer falar comigo. Não vou fazer textão dizendo tudo o que ela me disse, mas resumidamente, ela me contou sobre essa experiência de trocar de roupas, as coisas que começou a experimentar e percebeu muita coisa fazendo sentido: pensamentos que teve na infância, situações vivenciadas, sentimentos que experimentou. Enfim, foi como se, finalmente, ela tivesse enxergando a vida pela primeira vez.

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Agora você pode se perguntar: mas qual foi a sua reação?

Eu fiquei feliz. Extremamente feliz! Porque, como ser humano, eu sei o quão importante é sabermos quem somos. Porque eu sei o quão incrível é ter controle pela própria vida, e ela descobrindo isso aos 26 anos, pela primeira vez ela estaria descobrindo o mundo que sempre pertencera a ela. Porque eu sei o quão importante é ser aceito e amado por quem somos, e eu, como sua irmã, estava disposta a aceitar e amar uma irmã que sempre tive, e nunca soube.

Não serei hipócrita, ver o irmão gato que tive a vida toda como mulher não foi fácil, por mais aberta que eu seja. Fisicamente é uma pessoa diferente, e eventualmente como pessoa mudará também. Novamente, não serei hipócrita, dependendo da foto eu alço uma sobrancelha e acho estranho. Sempre achei que não tinha preconceito, mas quando a água bate na nossa bunda, a gente percebe que existem aspectos internos tão escondidos que nós não somos capazes de enxergar em situações normais. Porém, logo que eu noto minha sobrancelha tomando vida própria, ao invés de dar desculpas como “É porque é recente. Normal achar estranho”, imediatamente me lembro que o que estou sentindo, é sim, preconceito, e que eu não quero cultivar esse tipo de coisa na minha vida.

A vida é uma só, e absurdamente curta. Cada um reagiria a isso de uma forma, mas eu me recuso a perder um segundo da ampola que conta o meu tempo nesse mundo tentando entender os “motivos” que levaram meu antigo irmão a ser, na verdade, uma mulher. Nós escolhemos a vida que queremos viver e com quem queremos dividi-la, por isso, eu escolho aceitar, amar e até dividir a minha roupa.

Caso você enfrente isso na sua família, acredite, eu sei o quanto pode ser difícil. Mas aquela pessoa que você viu crescer, não é uma “mentira”. Ela ainda é a mesma pessoa, com a mesma personalidade e valores, ela só se identifica com o gênero oposto. Não perca tempo! A gente nunca sabe o que pode acontecer. Se você morresse amanhã, qual tipo de mensagem gostaria de dar? Intolerância, ressentimento e rancor, ou a capacidade de amar independentemente de rótulos e preconceitos? Fica por sua escolha o tipo de ser humano que gostaria de ser.

Sobre o autor

Amanda Magliaro

Amanda Magliaro

Redatora e tradutora, me apaixonei pela vida desde que aprendi a enxergar tudo o que ela tem para oferecer. Existem aquelas pessoas que nunca conseguiram encontrar seu caminho, até o próprio caminho decidir ir ao seu encontro, eu fui uma delas.

Num mundo cheio de possibilidades, escolhi acolher todas quando comecei a escrever. A busca por ser alguém melhor e mais feliz, e a chance de poder auxiliar uma pessoa que seja através da magia das palavras é o que significa para mim ter meu sonho se realizando todos os dias.