Convivendo

De palavras repetidas

Thiane Avila
Escrito por Thiane Avila

Deparo-me frequentemente remoendo meu acervo de memórias e explicações com as mesmas palavras, encaixadas sincronicamente nos mesmos contextos e nas mesmas frases. Utilizo, de forma esquizofrênica, minha ânsia pela letra como a reverberação do que nunca conseguirei exprimir, de fato, em código. Todas as ânsias e as consternações são partes limítrofes de duas realidades. Somos partes destoantes de universos que não conhecemos sequer o início.

É cansativo não poder permitir ou controlar a entrada de certas pessoas e situações em nossas vidas. Cansa-me passar pelas mesmas decepções, de forma recorrente, e não saber como escapar delas. Parece que, na próxima esquina, à espreita da superação, estará outra. E mais outra. E outra em seguida. Sorrir às vezes é difícil. Parece injusto com o corpo transpor o que não condiz com o que se sente. As pessoas ao redor não têm culpa, mas nós também não.

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Todas as vezes que se desmonta qualquer coisa, a expectativa é de que, em algum momento, algo ou alguém venha, com boa vontade, para remontar. Para tentar encaixar. Fazer, afinal, com que a coisa volte a ser a coisa que era. A desconstrução só me parece significante quando há propósito no desmonte. Quando as peças ainda assim são capazes de se tornarem um todo novamente. Mas não é verdade. Minha maior decepção quando criança foi a de ganhar um quebra-cabeça em que havia a ausência de uma única peça. O suficiente para fazer daquele jogo completamente dispensável e sem sentido. Joguei-o no lixo. Só que não tenho como jogar a mim mesma em um.

Planos infalíveis sobre experiências desgastantes. Noites mal dormidas depois de dias que pareciam nunca ter fim. É ilógico ter de escurecer o brilho dos olhos depois de algumas palavras duras. É injusto dizer ‘não’ ao querer dizer ‘sim’. Nosso egoísmo é, pois, o que nivela nossos próprios sentimentos. A dosagem que carregamos é capaz de evitar muita coisa, mas também de desperdiçar outras tantas. Sou o desvelo da vontade com a incapacidade de mensurar. Incalculável medida de viver por viver.

É perigoso demais dividir toda essa responsabilidade com o incerto.

Nesse frenesi de quereres, vejo-me cada vez mais oprimida pelas experiências. Enjaulada pelo desdém. Nesse ritmo, vamos aprendendo a não usar suportes para a felicidade, que não os de nosso próprio domínio. Assim, vamos nos fechando para alguns sentimentos, enquanto vamos nos abrindo para experiências novas, que podem muito bem ser vividas a sós. Amadas a sós. A vida vai tomando sentido quando nos damos conta de que a interação fática é tão perigosa quanto o alicerce movediço, sobre o qual escolhemos equilibrar os sorrisos. Quanto menos dependência, maiores as chances de tornar o que há por dentro autônomo e descompromissado. A relação mais séria que podemos estabelecer é a nossa com nós mesmos.

Sobre o autor

Thiane Avila

Thiane Avila

Com experiência na área da educação, Thiane já ministrou aulas particulares de Língua Inglesa e Portuguesa, bem como atuou em escolas de idiomas. Estudante de relações públicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, também cursa teatro e é colunista de uma Revista em sua cidade natal, Gravataí, além de colaborar com outras plataformas virtuais literárias.

A escrita já rendeu algumas premiações nacionais e participações em coletâneas. Os prêmios recebidos contemplam o 3º lugar no Concurso Literário Icozeiro (julho de 2014), o certificado de Qualidade Literária pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores (maio de 2015) e o reconhecimento pelo Conselho Editorial da Câmara Brasileira de Jovens Escritores do Rio de Janeira pela qualidade literária da obra selecionada para publicação nas edições de maio de 2015.

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Participação nas seguintes coletâneas: “Antologia de Poetas Brasileiros Contemporâneos” Volume 124 e “Poemas descalços na noite serena” – ambos pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores.