Existe uma diferença grande entre o que se mostra em público e o que se vive dentro de casa. No campo terapêutico, essa diferença costuma ser ainda mais sensível, porque quem orienta o outro também constrói uma imagem de equilíbrio, clareza e domínio emocional.
Nem sempre essa imagem corresponde à vida concreta.
Há terapeutas que falam sobre calma, presença, vínculos saudáveis e prosperidade, enquanto convivem, no cotidiano, com tensão constante, conflitos não elaborados e relações frágeis. Isso é mais comum do que se admite.
Quando essa distância se mantém por muito tempo, ela começa a aparecer em outros lugares. No corpo, na repetição de dificuldades financeiras, na exaustão que não passa… e, muitas vezes, nos filhos.
Crianças e adolescentes reagem ao ambiente emocional com precisão. Eles não filtram, eles expressam. Quando um filho se machuca, se coloca em risco, ou fala em não querer viver ou vive em sofrimento intenso, isso não surge do nada. Algo no entorno está pesado demais para ser sustentado em silêncio.
O problema se agrava quando o conhecimento terapêutico entra como barreira. Tudo ganha explicação. Tudo vira leitura técnica. Tudo pode ser nomeado, menos o que realmente precisa ser enfrentado. A vida privada passa a ser administrada, não vivida.
Em muitos casos, admitir o que está fora de lugar ameaça a imagem que foi construída. E essa ameaça paralisa. O que deveria ser olhado é empurrado para baixo do tapete. O ambiente segue funcionando, mas os sintomas aumentam.
Os filhos sentem isso e respondem.
Eles mostram onde a coerência não chegou, onde o cuidado virou aparência. Eles não fazem isso para acusar. Fazem porque não têm outra forma.
Há algo profundamente problemático quando alguém orienta famílias, relações e afetos, mas não consegue sustentar a própria casa como espaço de verdade. Por resistência em desmontar defesas que já não servem.
Conhecimento não resolve o que exige atenção! Nenhuma prática protege alguém de encarar o que acontece quando a porta se fecha.
O conflito está em negar.
Está em ensinar algo que não se permite viver e em falar de cuidado enquanto se evita o próprio.
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Quem trabalha com o humano lida, inevitavelmente, com zonas difíceis. Isso exige responsabilidade contínua. Os filhos são pessoas expostas ao clima emocional que os cerca. Quando adoecem, não estão falhando. Estão mostrando que algo precisa ser olhado com urgência.
Espiritualidade pública sem revisão da vida privada vira encenação. E a encenação sempre cobra um preço bem alto depois, quase irreparável. Os sinais aparecem nos vínculos, no corpo, nos filhos.
A questão aqui é parar de desviar o olhar.
