Convivendo

Eu era chata e não sabia

Zil Camargo
Escrito por Zil Camargo
Uma das melhores coisas que se ganha com a maturidade é a capacidade de observar nosso próprio comportamento e, sempre que possível, num esforço contínuo, aprender e melhorar.

Evidentemente que, para que isso aconteça, é necessário ter a mente e o coração abertos para lidar com nossas humanas imperfeições e, sobretudo, aceitá-las. Só assim, através da aceitação, é possível modificar algum padrão comportamental.

Durante nossa jornada, eventos que trazem frustrações ou alguns desvios para o caminho dos nossos planos vão nos desafiar e muitas vezes condicionar nossa atitude diante de enfrentamentos futuros.

Dependendo do tamanho desse desafio, pode ser que a vista se turve um pouco e adote uma lente pessimista ou vitimizada sobre a vida e seus acontecimentos.

Há pessoas que enveredam por esse caminho inconscientemente ou simplesmente por falta de recursos que as ajudem a vencer as etapas necessárias para sua evolução pessoal, eu não as culpo.

A vida exige muita coragem e não é vergonhoso nem incapacitante se acovardar algumas vezes. Isso também faz parte do nosso processo transformador.

No entanto, são muitos, e aqui eu também me incluo, que nesse ponto se tornam pessoas extremamente chatas.

Seja pelo padrão de negação diante da vida, no qual qualquer assunto não tem validade, seja por todas as mazelas que você faz questão que todos, todos mesmo, desde o porteiro até o entregador de pizza, saibam, seja pelo mal humor constante ou pela inconveniente alegria, daquelas exageradas e fora do lugar.

Eu custei muito a perceber que, quem se comporta assim, invariável e independentemente do padrão, está em busca da mesma coisa: carinho, atenção e aceitação.

Sobretudo as pessoas que se vitimizam, que não tomam iniciativas positivas para a solução de seus problemas e se queixam sistematicamente de tudo e de todos.

Essas são as que mais necessitam de cuidados, pois não se dão conta, nesse redemoinho de emoção, de que seu comportamento ao invés de aproximar as pessoas como é o seu desejo, apenas afasta; na verdade, repele.

Pouca gente tem paciência para ouvir constantes lamentos e desventuras, porque pouca gente se percebe nesse processo a ponto de sentir empatia, e acredito que todos nós passamos por isso em algum momento da vida.

Quando se dão conta das relações prejudicadas, um novo padrão se estabelece: essas pessoas que verdadeiramente estão necessitadas de atenção e cuidados se calam, já que em sua percepção ninguém é capaz de compreendê-las, o que reforça sua visão de dissabor e solidão. Caminho certo para um sério problema cada vez mais comum chamado depressão.

Esse processo nos torna chatos. E aqui me refiro ao sentido literal da palavra: nos tornamos rasos, planos, sem profundidade, e onde não há profundidade nada cabe… Nem pessoas ao redor.

Perceber esse processo e transformá-lo não é tarefa fácil, nem tão pouco ocorre da noite para o dia.

Perceber em nós mesmos que determinados padrões de comportamento são desagradáveis, mas são uma tentativa de obter atenção requer uma autocrítica muitas vezes cruel e quase sempre arranjaremos justificativas para desviar dessa lucidez.

Não será raro necessitar de ajuda profissional, muita força de vontade e compaixão (não autopiedade) para em primeiro lugar sermos absolvidos por nosso próprio julgamento.

Chegando nesse estágio de entendimento, a vida vai continuar apresentando os mesmos problemas, mas a necessidade de atenção será preenchida de uma maneira mais saudável emocionalmente.

Ao chegarmos nesse ponto, passamos de chatos a largos, profundos, mais agradáveis, seguros e felizes.

Conscientes de nossas necessidades e de nossa força interior, teremos alcançado a atenção de quem mais precisamos para atravessar a vida: a de nós mesmos.

Sobre o autor

Zil Camargo

Zil Camargo

Na diversidade de cada ser, é injusto com a vida, neste mar de experiência que ela concede, tentar nos definir assim, com meras palavras.

Mas dentro de mim mora alguém inspirada, sensível, às vezes curta ou grossa, ora dramática, ora objetiva.

Mãe, artesã, escritora amadora; consultora para ganhar a vida e interessada no comportamento humano.

Estudiosa de assuntos relacionados à psicanálise, filosofia e espiritualidade; uma aprendiz procurando desenvolver oportunidades em busca do bem viver.

Contato: [email protected]